quarta-feira, 10 de outubro de 2018

EU. E VOCÊ? >> Carla Dias >>


a) Eu fui, muitas vezes, quantas eu não saberia dizer. Fui sem saber direito no que daria. Houve vez que deu em coisa boa, em outra, nem tanto. E você?

b) Eu usei! Pode acreditar, usei. Não usei mais de uma vez, mas tudo bem. Foi interessante, revelador, quente. Eu me senti meio aprisionada. Talvez eu use novamente, mas sabe como é? Depende muito do quando e do onde. E você?

c) Olha, eu saboreei... acho que esse é um bom verbo para descrever o que senti. O que senti? Frenesi, desolação... pois é, veio a desolação junto. Mas acontece... conheço quem passou pelo mesmo. Mas o interessante é que a desolação era porque não havia quem sentisse comigo, naquele momento. Tem coisa que não é para se saborear sozinho, ainda assim, dá gosto, aprecia-se. E você?

d) Ah, eu dei, e muitas vezes. Teve quem achasse isso muito absurdo. Onde já se viu eu dar desse jeito? Como assim eu sair por aí dando? Então, eu dei foi um tempo. Mas depois, dei mais algumas vezes. É meu, não é? Não interessa para quem dou, se sou paga ou não por isso. Agora, descabelei... saio por aí e dou mesmo! E você?

e) Descobri, recentemente, que fazia errado, acredita? Achei que tivesse acertado nas outras vezes, que aquilo tinha sentido, que a matemática estava certa... pura bobagem. Passei tanto tempo construindo o que não me cabia construir que me esqueci de aprender a fazer direito. Porque tem de aprender, sim! Aprender a fazer direito é colocar-se à disposição do que isso provoca. Daí que fiz isso - de me permitir ser tomada por, em vez de tomá-lo - há pouco. Tem gente que entende isso tão rápido, né? Eu demorei uma vida... tudo bem. O que importa é que agora faço de fato. Pode até não ser direito e com bons resultados, mas é de fato. E você?

f) Daí que eu me permiti, acredita? Assumi o risco e compreendi ser a única responsável pelas consequências. Claro que fiquei me perguntando se iria, como em muitas ocasiões, errar a mão. Mas me permiti, porque é permissão que ninguém mais poderia me conceder. Não interessava mais se me faria mais bem do que mal, apenas que faria. Eu precisava da emoção de colocar em prática o que essa permissão me oferecia. Dei um dane-se para os meus medos e escolhi. E você?

g) Eu.

h) E você?

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Independentemente do que você pensou, as respostas: 
a) balada para dançar    b) cachecol    c) uma garrafa de Bolla Valpolicella    d) meus livros    e) amar    f) escrever o primeiro texto de dramaturgia
g) mas nem sempre a mesma    h) sempre bem-vindo para uma xícara de café e uma boa conversa
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Imagem: Dans le gris © Wassily Kandinsky

carladias.com




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