quinta-feira, 4 de outubro de 2018

TIOZÃO>>Analu Faria

Eu não acreditava que era ele. Havia engordado. Tinha as bochechas levemente caídas. Camisa polo gasta, para fora da calça. Um corte de cabelo estilo tiozão. Cabelos brancos, muitos. Olhos cansados, sem vigor, testa franzida, uma papada. A postura denunciava tristeza, talvez desânimo. Sono? No melhor dos casos. Foi o tempo ou o serviço público? Eu quase perguntei. Seria indelicado, né? Vai que foram os dois.

Lembrei-me da última vez que o vi, há uns quatro anos. Ele já havia mudado um pouco, mas não tinha aquela cara de pai de família, de servidor público que esquece os sonhos à medida que bate o ponto. Já naquela época eu me assustava com o que o mundo fazia das minhas expectativas. Aquele homem não podia envelhecer, mas envelhecia. Envelheceria. Havia envelhecido, como eu agora constatava. Olhava o reflexo dele no metal da porta do elevador e via um borrão. Imaginava o homem se desmanchando em velhice, derretendo pelo chão em peles moles, gordura e cabelo branco.

Olhou para baixo. Tinha vergonha? Não me cumprimentou, mas certamente me vira. Logo levantou a cabeça de novo. Mexeu com as mãos, um gesto de impaciência. Fechei as mãos em torno da alça da bolsa, trazendo-a para a frente o meu corpo. Só percebi o movimento depois de fazê-lo. Alguns segundos depois o elevador chegava. Eu agora via a mim e ao homem pelo espelho, sem borrão. Até que assim, meio caidinho, sem tanto sex appeal, ele parecia mais meu número do que naqueles tempos.


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