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Mostrando postagens de Setembro, 2008

CHUVA, SR. PICA-PAU >> Eduardo Loureiro Jr.

Irmã Admir (Pepeta)
a/c do Pica-pau
Caixa Postal, 44
Guariba - Colniza - MT
CEP 78335-000


Senhor Pica-pau, estou supondo que o senhor abriu esta correspondência, dirigida à Pepeta, e que a está lendo neste momento. Não posso julgá-lo, pois sei como é tentador abrir correspondência alheia, fazer descobertas, desvendar segredos. Para nós, humanos, é crime. Para os senhores pássaros, eu não sei; talvez seja até lei, passível de punição caso não seja cumprida. De todo modo, a correspondência está a seus cuidados, então não me parece de todo injusto que o senhor a abra. Afinal, ao cuidador cabe saber daquilo de que está cuidando. O senhor não me conhece, é compreensível que desconfie do teor da mensagem: pode ser algo perigoso, ofensivo. Eu até agradeço por ter esse cuidado com a Pepeta.

Quando comentei com um amigo que enviaria esta carta aos cuidados do Pica-pau, ele me advertiu que seria melhor mandá-la aos cuidados do Pombo-correio, que já tem mais experiência no assunto. Eu pensei, pensei..…

ENTREGA E CONFIANÇA [Sandra Paes]

Domingo, tarde da noite. O casal amigo espera por nossa chegada. Ela, ansiosa, já ligara algumas vezes. Depois de pedir pra levar um vinho branco gelado, pra refrescar sob a lua, continua querendo saber se a gente ia ou não apreciar o churrasco feito mais cedo, afinal era dia dos pais.

Finalmente, depois de todas as naturais delongas de meu amigo, chegamos. Percebi que não os via fazia tempos. Abraços longos e saudosos da parte dela, uma saudade que se estendia para além do momento e da ocasião. Já me parecia alegrinha pelos vinhos tomados durante todo o dia. E que dia! Como ela me ligara mais cedo chamando para o almoço e compartilhar o que estava planejando, não só para a cozinha mas pra viagem que faria com a família dias depois, ouvi entre outras coisas, numa interrupção de fala:

- Desliga não que a ligação é de fora e eu tenho que atender... desliga não!

E, pra minha surpresa, volta ela alteradíssima, falando que a vizinha estava no hospital por que tinha tentado se matar... E lá s…

Tão triste quanto um prelúdio de Claude Debussy >> Leonardo Marona

Estou doente do coração. Mas não são apenas palpitações arrítmicas, é uma explosão repentina que de repente congela. E quando congela o mundo fica escuro. E isso tudo é tão banal que eu não posso parar de pensar no assunto. Mãos e bons-votos de sabedoria estão por toda parte: existe bondade numa flor amassada sobre o asfalto. Mas o que procuro debaixo dos tapetes? Disseram que era uma felicidade difícil, mas eu sou tão fácil que tenho medo de dizer "vamos juntos". Porque me disseram que era uma felicidade difícil, então passei a desconfiar das palavras. E meu coração adoece: pobre membro supervalorizado, escravista de veias mecânicas e mitos. É chegada a hora fúnebre, quando amigos já não são cavernas tranqüilas e a dor já não muda de freqüência. De repente me pego dizendo: "deus, por que te neguei tantas vezes?". E o dia está mesmo tão propício, com essa chuvarada de martelo. Tudo parece sufocado. Por que fui ler Clarice Lispector? E mesmo as coisas coloridas estã…

OUTROS SONS! >> Carla Dias >>

Há muito tempo não me sentia assim, com esse desejo pungente de ver um show, chegando mesmo a contrariar algo que decidi há alguns anos: não assistir shows em estádios, estacionamentos, ou em qualquer lugar onde o público seja de milhares e milhares de pessoas. De onde a gente sai com a sensação de que melhor era ter ouvido o CD em casa ou assistido o DVD com mais conforto, lá na sala de estar, do que encarando telões. Se você não pode bancar o melhor lugar, prepare-se para lonjuras e o som chegando a você com um atrasinho incômodo.

Freqüentei algumas edições do festival Hollywood Rock. Em 1995, fui de arquibancada e até que num lugar bacana. Foi quando assisti um dos melhores shows de rock’n roll da minha vida: Rolling Stones.



Rolling Stones Live - Miss You

Na edição do ano seguinte do mesmo festival, fui de gramado, e realizei um desejo e tanto: ver Robert Plant e Jimmy Page ao vivo. Durante os shows que antecederam essa apresentação, coloquei em prática minha vontade de ficar grudada …

BOLAS DE MEIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Ela amassou a notícia de jornal — como quem amassa a crise das bolsas de valores, a campanha eleitoral, um novo crime hediondo ou a vida íntima de uma celebridade. Amassou bem amassado, transformando o plano retangular no volume arredondado.

Ela envolveu a bola de papel numa meia sem par — como quem acompanha o passo dos homens da família mesmo depois que eles esqueceram as meias em lugares impossíveis de achar.

Ela costurou o tecido — como quem costura a tarde, a memória, os personagens de suas contas de histórias.

Ela segurou a mão do menino — como quem abre a terra.

Ela colocou na palma da mão dele uma bola de meia — como quem planta a semente da esperança.

Assim ela fez, bola por bola, menino por menina.

E, no seu campo plantado, as crianças e os adultos arremessavam as bolas de meia, que eram recebidas a metros de distância — e arremessadas novamente. Por horas.

As bolas voando cada vez mais alto, chamando os pássaros que voavam cada vez mais baixo. Bolas de meia e pássaros atravessando…

DIAS DE "CAPELETI" [Maria Rita Lemos]

Foi no domingo, dia dos Pais. Éramos três mulheres conversando sobre a data, sendo que os pais biológicos de todas já haviam partido para outra dimensão. Certamente por esse motivo, e também porque nossos filhos e filhas estavam passando o dia com os pais - biológicos ou não -, resolvemos juntar as comidinhas e a saudade para um almoço nada tradicional para a ocasião.

Cada uma de nós falou um pouco do pai que teve, e de como passávamos o seu dia, até sua partida. Foi então que ouvi a história do "capeleti", tão real quanto belíssima, que comoveu tanto a nós, ouvintes, que resolvi contar aqui, embora o Dia dos Pais tenha ficado para trás. Mas, como nunca é demais refletir...

O pai de Maria, que é o nome fictício que darei a esta pessoa querida, faleceu quando ela tinha 14 anos, mas na verdade ela já sentia sua falta desde os 11, ocasião em que ele partiu para outra viagem, também longa na distância, mas com voltas periódicas. Explico melhor. Maria morava, então, com os pais,…

A VOCÊS << Leonardo Marona

Gostaria de dar algumas palavras aos estupradores de crianças e até mesmo fetos ainda em formação, às bandeiras erguidas pelo próximo traidor, ao que me faz chorar em certas tardes gaiolas e eu não sei o nome dessa sensação que faz chorar, mas não é choro de quem perde, é choro de quem nunca teve, e não sei de nada e espero tudo, o homem cotidiano descrito por Camus, que se levanta e não quer fazer o mal por medo de ser punido por seres magnânimos e matemáticos.
E a eles eu gostaria de entregar algumas palavras. Aos que abrem estradas sobre corpos humanos, aos metafísicos da consolação, a todos os grandes poetas que espancavam com amoladores de faca, na escuridão dos sentidos, crianças indefesas, que de alguma forma crescerão para colher os louros do patife laureado. Aos que enrolam dinheiro com esparadrapos na cintura e estão prestes a explodir. Aos que farejam como porcos e se alimentam de entranhas.
Dedicaria, se tivesse a grandeza necessária, com firma autenticada em cartório e assi…

MEIO SANTO >> Carla Dias >>

Tinha o hábito de se voltar a todos os santos. Quando lhe falavam de um e outro ser de alma evoluída, ele ia logo se informando, formando opinião própria sobre as bênçãos e milagres concedidos por tais criaturas iluminadas. Ainda mais se já estivessem mortos e enterrados; debaixo de palmos de consideração post-mortem.

Procurava, dentre tantas pessoas afobadas com as agonias particulares, aquelas que dessem mais do que pediam. E se não pediam, então, ganhavam dele um respeito indelével. Acreditava totalmente que esse feito era conseqüência de atributos colocados nessas pessoas pelo próprio Deus. Às vezes, imaginava o Deus, testa franzida num quê de dúvida; imaginava-o questionando suas crias e fazendo melhorias nelas como o amigo, o Santiago, fazia nos carros que iam parar na oficina dele.

Claro que, assim como os carros do Santiago, algumas pessoas não têm conserto.

Perdia noites de sono a zanzar com reflexões existencialistas; um terço católico numa mão e o mala budista na outra. No pe…

DENTRO DE MIM >> Eduardo Loureiro Jr.

Falar o quê? Melhor é ouvir o sussurro das coisas. Ou seus gritos. Bonito é tocar a vida de ouvido, ouvindo e fazendo som. Uma crônica não-crônica, aguda, ou grave gravidez sem gravidade...

Na hora de escrever, meu amigo Manu Kelé me manda um poema:

Dentro de mim
Um caminho sem fim,
com flores e cheiro de amor.

Dentro de mim
Profunda beleza,
Na certeza do teu calor.

Dentro de mim
Infinito desejo,
No beijo que a memória guardou.

Dentro de mim
Você linda estrela,
Teu céu me apaixonou.

Eu ouço "Pega o violão". E pego o violão. E o violão escuta "Pega a harmonia". E pega a harmonia. E minha voz canta o que ouve e preenche as palavras que não estavam no poema mas que está na canção.



E eu bem que poderia, antes de tudo, ter guardado o poema com desculpa de escrever a crônica, talvez colocando uma etiqueta: "encontrar melodia". E teria perdido a melodia que me encontrou. Ah, o medo de viver a vida assim, ao sabor do cheiro da comida que outro preparou. Ah, o medo de perder a c…

FAUSTO WOLFF (1940 - 2008) >> Leonardo Marona

Então morreu o lobo. Morreu de ofício do tempo e sem reclamar. O deserto se fechou, o lobo não vive afugentado no eterno branco. Não é possível mantê-lo de pé sem o líquido da vida, que apenas os duros bebem aos borbotões, com rosto duro cheio de ternura, e os selvagens se lambuzam. Morreu então o lobo que, sempre ereto, uivava palavras em alemão. O lobo que escutava uma tristeza ulterior no vento de areal. O lobo que comia carne crua e esperava a lua para nascer a cada dia. Um dia ele não mais nasceu. O mundo do lobo é um mundo sem bondade nem crueldade, totalmente aberto e perigoso, um mundo sublime possível justamente por ser um mundo sem rédeas. Um mudo natural por si. A dureza do lobo vinha de saber que um mundo assim é cruel para os padrões humanos e que, portanto, a natureza era mesmo cruel na visão humana, e isso fazia com que nós humanos não soubéssemos realmente o que fazer ou desejar, pois a maldade era a nossa própria cabeça, e a única saída era tornar-se inumano para, ass…

LÍNGUAS >> Carla Dias >>

Eu falo gírias, dialetos, doidices. Minha voz é aguda durante o dia e gravemente pranteada nas madrugadas. Mas se assisto reprise de novela, então pranteio à tarde mesmo, dependendo do enredo. E se acordo desarrumada por dentro, aí pranteio o dia inteiro, faça chuva ou faça sol; noite estrelada ou enegrecida pra alimentar bicho arredio.

Já pranteei com a cara grudada na parede, o nariz amassado. E quis entrar no buraco negro só pra plantar no seu centro um buquê de fogos de artifício. Sabe o centro? Onde a gente escorrega os dedos dos pés como fosse bailarina desenhando a cara da dança na areia? Onde a gente se esparrama para os lados, criando saídas, rotas de fuga. Onde é crucificado nosso entendimento sobre a capacidade de dizimar solidão.

E me ofereceram ser fluente somente nas belezas, mas me engasguei no aprendizado ao enveredar pela diversidade dos idiomas. Hoje eu falo estranhezas, labirintos. Sou fluente em inquietações e assimetrias, vez ou outra dou palestras sobre a felicidad…

O AMOR ARDE >> Claudia Letti

"O amor é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem ou de alguma coisa". Esse é apenas um dos significados que encontrei quando procurei pela palavra, nos dicionários. Os verbetes são longos e também dizem que o amor é dedicação absoluta, devoção extrema, gratuidade, bondade, generosidade, compaixão. Eu gosto mais da definição de Camões que, por acaso, também é citada num dicionário: o amor é um fogo que arde sem se ver.

Sempre me questionei se o amor é mesmo tudo isso ou se, acrescentando mais um adjetivo: pretensioso, acredita piamente que é. Não duvido -- quem me dera! --, que ele seja tudo o que se prega (ou se auto-determina) e mais um pouco. Eu apenas questiono a sua essência tão forte e inigualável como sândalo ao mesmo tempo que pode e sabe ser suave como lavanda. Sempre penso que amor, tal perfume, depende da pele onde se espalha e do temperamento de quem usa.

Poliglota, fala a língua dos loucos, dos anjos, dos sábios, dos ignorantes, ingênuos, créd…

A MEDIDA DA VIDA >> Eduardo Loureiro Jr.

A gente sabe quando chegou a hora, quando não dá mais. No meu caso, é quando as meias se acumulam dentro dos sapatos. Sinal de que estou passando tempo demais fora de casa, sem tempo nem para lavar as meias enquanto tomo banho.

É nessa hora que a gente percebe que não fala com os pais há dias, que não liga para as pessoas queridas, que perdeu o enredo da vida dos amigos e, pior de tudo, que se extraviou de si mesmo.

Casa é o lugar onde a gente se encontra, onde a gente encontra tudo: a tesoura, o orégano, o livro. Casa é onde a gente anda de olhos fechados, de luz apagada. Casa é a cama sempre desfeita, sempre pronta para um descanso de costelas. Casa é o violão à mão, o tempo à inspiração.

Na falta da casa que é essa, pode-se brincar de casinha no meio do mundo — desde que haja silêncio. Se nós, humanos, praticássemos suficientemente o silêncio, chegaríamos, mais século, menos século, à telepatia. O silêncio é uma casa sem paredes.

As meias dentro do sapato fazem barulho. As cuecas sujas…

O CÉU DE MARTE [Ana Coutinho]

Eu já era adolescente, uma jovem que pensava o que prestar para o vestibular, quando comecei a ter uma leve fixação pelo espaço. Pensei em prestar astronomia, quis conhecer as estrelas, achava isso tudo romântico e, então, quando me decidi pela Psicologia, achei que, caso a fixação se mantivesse, eu poderia ser psicóloga da NASA e visitar o espaço.
Aconteceu que a fixação veio e foi em épocas diferentes. Cheguei a entrar no site da NASA uma vez, baixei uns formulários e desisti na primeira linha. Se preencher era aquele sufoco imagine indo até o diabo do lugar e trabalhando lá. Percebi que a minha fixação era mais romântica do que prática.

Ainda assim, cada vez que a vida se mostra por demais cansativa e penosa, a idéia me volta com tudo à cabeça. Eu entro na internet, faço pesquisas sobre Marte, baixo imagens, olho para o céu e tudo mais, pensando que assim, estando mais perto do planeta vermelho, posso descolar-me um pouco da minha vida de terráquea, brasileira, paulistana da gema que…

Desconstrução do Amor >> Leonardo Marona

o amor é uma arma
usada por covardes
com medo da vida.

o amor é uma ferida
que mantém a busca
pela espera frenética
que porá em risco
as nossas estruturas
e, sem dúvida, um dia
nos matará, pela falta.

ridículo falar do amor
como a cura do indigno,
como a ponte do suicida,
como a razão do sociopata,
como a fome do inválido,
como a bengala do cego.
mas o amor é tudo isso.

um erro por dia e planos,
o amor se basta na vontade,
porque, tal como o sonho,
o amor só vale noutro plano.
o presente do amor são juras
hipotéticas, metalingüísticas.

essência do amor é a solidão,
fonte dos poemas e das mentiras.
jamais haveria o amor solene
se não houvesse um abandonado.
o amor poético se dissolve fácil
no chá silencioso dos hipócritas.

ao falarmos “amor, amor, amor”
não precisamos falar “que fome”,
“como está frio aqui”, “eu tenho
o que eu preciso e me sinto vazio”,
“eu não sei o que preciso e sofro”.

mas em vez disso temos sempre
o amor cúmplice, o amor covarde,
o amor por tendência, construtivo,
positivista: o amor com ventosas.

o am…

AH, MÚSICA! >> Carla Dias >>

Assistir filmes que tenham a ver com música me agrada muito, seja ela uma personagem ou apenas um cenário; venha através de músicos ou mesmo de dançarinos. Fato ou ficção.

Na lista de filmes e séries preferidas que apontei numa das crônicas passadas – e que já atualizei, claro -, há uma série de filmes assim. Sobre alguns deles eu já escrevi aqui, como o belíssimo Assédio, de Bernardo Bertolucci, e o fantástico TAP – A Dança de Duas Vidas, de Nick Castle.

O que fui consertar rapidinho, naquela lista, foi a falta de uma série que durou apenas 1 temporada com 8 episódios... Pois é, Love Monkey não caiu no gosto popular, mas fã que sou do Tom Cavanagh - que já vinha da bacanérrima série ED, da qual foi protagonista, e hoje faz o papel do pai do agradavelmente maluquinho da Eli Stone – conferi com gosto essa série onde o personagem de Cavanagh, um executivo de gravadora, é um homem às voltas com a paixão pelas mulheres e pela música.


Na série House M.D., enquanto Hugh Laurie encarna o mais …