sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Tão triste quanto um prelúdio de Claude Debussy >> Leonardo Marona

Estou doente do coração. Mas não são apenas palpitações arrítmicas, é uma explosão repentina que de repente congela. E quando congela o mundo fica escuro. E isso tudo é tão banal que eu não posso parar de pensar no assunto. Mãos e bons-votos de sabedoria estão por toda parte: existe bondade numa flor amassada sobre o asfalto. Mas o que procuro debaixo dos tapetes? Disseram que era uma felicidade difícil, mas eu sou tão fácil que tenho medo de dizer "vamos juntos". Porque me disseram que era uma felicidade difícil, então passei a desconfiar das palavras. E meu coração adoece: pobre membro supervalorizado, escravista de veias mecânicas e mitos. É chegada a hora fúnebre, quando amigos já não são cavernas tranqüilas e a dor já não muda de freqüência. De repente me pego dizendo: "deus, por que te neguei tantas vezes?". E o dia está mesmo tão propício, com essa chuvarada de martelo. Tudo parece sufocado. Por que fui ler Clarice Lispector? E mesmo as coisas coloridas estão murchas como se estivessem enjoadas, após uma série de abortos forçados. Tudo de repente – enquanto tento rasgar meu peito – ruma para o mesmo lugar supra-real, onde nada existe e tudo passa. E a essa coisa truculenta, maciça, a essa unidade de constatação chamei felicidade difícil. Pensando nisso deito a mão no meu peito, peço calma. Peço com delicadeza dessa vez, aceito a derrota de antemão, me rebato apenas pelo hábito da coisa. Mas ele não pára nunca, o coração, está doente. Ele não pára nunca, está vendado. Lhe amassaram as plaquetas do mistério, confiscaram o vulto secreto da sua mão veludosa, que protege a todos e desfalece quando não há perdão. Desejei a tudo amargamente, e num castelo dourado cercado de uivos fiz a cama do meu precipício. Vejo agora a fumaça que sai da minha boca, tão desordenada que nunca varia. E eu, sempre tão ordenado, sempre tão inatingível – depois da felicidade difícil – grito a mim mesmo coisas que não vêm dos homens. Coisas que eu mesmo não entendo. E não é minha própria voz. E dizem alguns que a voz muda de tom antes de morrermos ou virarmos santos. Mas não sou ambicioso. Onde foi todo mundo? Não, Silvia, o gás não será aberto. Eu fujo de mim mesmo passo a passo – esse inatingível clichê – para dentro de mulheres que nunca conheci, em cujos olhos procuro o que nunca foi tocado e me repele. Mas agora me sinto observado por vultos vermelhos numa floresta escura. Eu sou aquele bicho encurralado por um pedaço de queijo podre. Ainda não será dessa vez. Posso ter certeza de que não será e por isso choro: certeza é morte. Ainda assim agora não será. Ainda despejarei meus dejetos sobre o tempo andante. Alguém ainda há de me acompanhar, e o pavor dessa constatação me faz contorcer o corpo: último suplício antes da perda dos sentidos. O desejo mórbido que povoa a mente do fraco, de sempre querer o que lhe cabe. Estou doente do coração, porque ele bate, bate como quem bate à porta sem ar, como alguém que vem de muito longe, com uma notícia ingrata. Meu coração falece porque seu corpo pré-histórico foi violado por modinhas de amor e desatinos. Fico imaginando o que faria um francês na minha situação. Apago a luz e prendo a respiração.


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Um comentário:

Anônimo disse...

vejo em voce uma inegável superação de tudo que foi feito até agora. é suficiente perceber o seu modo, no sentido musical da palavra. é novo, tem ritmo de uma respiração nova, porque é vida que pulsa de uma forma diferente.