domingo, 21 de setembro de 2008

BOLAS DE MEIA >> Eduardo Loureiro Jr.

MKanegae - Flickr.comEla amassou a notícia de jornal — como quem amassa a crise das bolsas de valores, a campanha eleitoral, um novo crime hediondo ou a vida íntima de uma celebridade. Amassou bem amassado, transformando o plano retangular no volume arredondado.

Ela envolveu a bola de papel numa meia sem par — como quem acompanha o passo dos homens da família mesmo depois que eles esqueceram as meias em lugares impossíveis de achar.

Ela costurou o tecido — como quem costura a tarde, a memória, os personagens de suas contas de histórias.

Ela segurou a mão do menino — como quem abre a terra.

Ela colocou na palma da mão dele uma bola de meia — como quem planta a semente da esperança.

Assim ela fez, bola por bola, menino por menina.

E, no seu campo plantado, as crianças e os adultos arremessavam as bolas de meia, que eram recebidas a metros de distância — e arremessadas novamente. Por horas.

As bolas voando cada vez mais alto, chamando os pássaros que voavam cada vez mais baixo. Bolas de meia e pássaros atravessando o céu nublado do crepúsculo: água amassada, costurada em nuvem, pronta para ser arremessada à terra.

À noite, os pingos de chuva lançados da borda do telhado — estrelas cadentes na escuridão do céu — eram recebidos na palma sem cansaço da minha mão.

Ela, A que costurou a chuva... Ela, A que conhece todas as histórias... Ela, para quem somos todos crianças... Nossa, querida, Senhora, que linda bola de meia é esta em que a gente mora!





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15 comentários:

Carla Dias disse...

Uma amiga sempre lembra de um episódio da série Sienfield, quando eles tratam do desaparecimento das meias. Ela é uma vítima das meias que somem...
Foi bom ler esse teu texto, porque ele me tirou do universo do Sienfield e me levou a um outro... A um rico em sentimentos. Falo da canção "Bola de meia, bola de gude" de Milton Nascimento e Fernando Brandt:

"Bola de meia / Bola de Gude / O solidário não quer solidão / Toda vez que a tristeza me alcança / O menino me dá a mão"

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, eu já havia lido seu texto, mas não tinha conseguido um tempo adequado como você merece, para comentar. Então abri a página hoje pensando no texto e na música do Milton Nascimento e me deparo com o comentário da Carla. Deve ser sintonia. :) Mas eu quero dizer mesmo que, cada vez que leio a sua crônica e fico pensando que só vai ter outra no próximo domingo, imagino o dia em que vou ter na cabeceira um livro de autor " Eduardo Loureiro Jr", autografado, claro! :)

Elaine Sardinha disse...

Eduardo.
A emoção foi muito forte ao ler a sua crônica. Gostei muito.
Ser a personagem dela é gratificante.
Um dos meninos(Tiago, de 3 anos),cantava o tempo todo "bola de meia, bola de gude...". Ao final da brincadeira ele me peguntou:"- Você sabe fazer bola de gude também?"
Ser mãe de 6 filhos, guardar as meias sem par, também é guardar histórias. De tempos em tempos, guando faço asa bolas, também as revivo.
Um abraço. Elaine

Ana disse...

Nossa, que boa idéia.
Há tanto para amassar e jogar dentro das minhas bolas de meia...
Adorei.
beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, eu nunca entendi como é que alguém pode perder uma meia. (Talvez eu precise ser mais desorganizado.) :) Mas se não fossem as meias perdidas, que seriam das bolas de meia?

Marisa, de tanto desejar o livro, vai acabar conseguindo um. :)

Eita, Elaine, agora quero ver o que é que você vai transformar em bola de gude. :)

Ana, amasse bem amassadinho e brinque de ser feliz. :)

Luciana disse...

Olá Eduardo,
que bom que neste mundo
temos os poetas para dar VIDA,
através da POESIA,
as coisas do cotidiano,
as coisas simples e encantadoras,
os bons sentimentos,
a natureza...

Que as nossas cças possam
sentir mais prazer em ter nas
mãos mais bolas de meia, de gude,
pular corda, amarelinha, bolinha
de sabão...
SEJA BEM VINDO.
Luciana de Oliveira

Nande disse...

Mano,
Que texto sensível. Gostei muito. Parabéns!
Fernando

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Continuemos brincando com as crianças, Luciana. :)

Grato, Fernando. :)

Anônimo disse...

Boom, boom.
Goostei da sua crônica ;D
siiinceramente: boom :)
só acheeii que pooderia ser um pouco melhor ;p
:*
Julia

Anônimo disse...

Ahhnn, mais ou menos, tipo, poderia ser melhor... mais divertida, que interagisse mais...
Pra falar a verdade, não entendi direito a história, mass...
=D Booom

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Valeu, Julia! A mensagem ficou realmente um pouco cifrada: entende melhor que viveu a situação, quem passou a tarde brincando de bola-de-meia. Tentarei ser mais claro na próxima crônica. Mas, se eu não conseguir, me dê uma ajudinha: afinal, a melhor forma do leitor interagir é usando sua imaginação e participando da criação da história que está lendo. :)

Nande disse...

Eduardo, não tente ser mais claro, continue sendo poético. Já está suficientemente claro pra quem olha com os olhos da poesia. Eu tbm não participei nem assisti à brincadeira e gostei muito, o poema fala por si só o que o coração do poeta quis dizer. É suficiente.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernando, na verdade só tem um jeito mesmo: apurar o ouvido interno para ouvir a voz que sussurra as palavras. :) Legal a interação aqui nos comentários.

klausmp disse...

Gostei muito da crônica embebida em profunda poesia.

Parabéns.


Klaus

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Klaus, venha embeber-se de poesia quando quiser. :)