quarta-feira, 17 de setembro de 2008

MEIO SANTO >> Carla Dias >>

Tinha o hábito de se voltar a todos os santos. Quando lhe falavam de um e outro ser de alma evoluída, ele ia logo se informando, formando opinião própria sobre as bênçãos e milagres concedidos por tais criaturas iluminadas. Ainda mais se já estivessem mortos e enterrados; debaixo de palmos de consideração post-mortem.

Procurava, dentre tantas pessoas afobadas com as agonias particulares, aquelas que dessem mais do que pediam. E se não pediam, então, ganhavam dele um respeito indelével. Acreditava totalmente que esse feito era conseqüência de atributos colocados nessas pessoas pelo próprio Deus. Às vezes, imaginava o Deus, testa franzida num quê de dúvida; imaginava-o questionando suas crias e fazendo melhorias nelas como o amigo, o Santiago, fazia nos carros que iam parar na oficina dele.

Claro que, assim como os carros do Santiago, algumas pessoas não têm conserto.

Perdia noites de sono a zanzar com reflexões existencialistas; um terço católico numa mão e o mala budista na outra. No peito, o som forte dos tambores do candomblé tirando seu coração para dançar. Na mente as manchetes dos jornais. Algumas delas não lhe tiravam somente o sono, mas também lhe arrancavam lágrimas.

Estranhou o dia em que, depois de se levantar de um sono tranqüilo e fazer suas preces, entoar mantras, declamar saudações ao sol e verbalizar uma poesia religiosa, digna dos amantes da fé, sentiu no peito um vazio diferente daquele provocado pela indignação pelos que cultivam a intolerância e aqueles que cometem violência física, emocional, social, política.

Tratou logo de se apegar aos afazeres do dia, a mente voltada aos salmos que decorou com tanto gosto; a vitrolinha tocando a trilha sonora de uma vida simples de um homem com pensamentos grandiosos. Afinal, há mais do que a necessidade de crendice em alguém que, com o passar do tempo, colheu de várias religiões o que julgava justo, impregnando sua vida com a clareza de que muitos são os santos e tantos outros são os bárbaros. E que, muitas vezes, é preciso que um seja vizinho do outro, numa diplomacia de quem praticamente divide o quintal.

A jornada até a paz é árdua, e nem sempre significa paz de espírito. Ele sabe disso. Não se ilude com extremismos.

Corre a boca miúda, na cidade onde ele vive alheio aos buchichos, que o homem, ele próprio, é meio santo. Sabe como? Meio santo... Só não pode ser santo inteiro, porque namora a libidinosa da Malu. E santo não beija na boca, né? Onde já se viu! Ainda mais em público... Vai saber o que mais eles fazem no solário da casa dela, onde ficam por horas!

O que não sabem esses curiosos temerosos de se aproximarem de alguém tão diferente deles, é que o tal homem pouco se importa com as inquietações de seus companheiros de cidade. Assumidamente, ele morre de amores pela Malu, quem lhe apresentou o tantra, a voz de Ella Fitzgerald, o bolo de aipim, as esculturas de Rodin, o xamanismo. Essa mulher que o envolveu em cânticos de adoração à lua, às bendições, que despertou seu olhar para os detalhes, para as levezas incrustadas na rotina descabida e, por vezes, árida. De quem ele sorve o carinho necessário para manter o corpo firme, o espírito com identidade própria.

Mesmo que a crença desse homem pareça oriunda do desespero de quem não quer morrer sem religião ou ao menos sem o alento da fé, sem se deixar enganar pelo desconhecido, a verdade para ele é que os santos, os monges, os espiritualizados, os iluminados, os benquistos por Deus, até mesmo seu amigo mecânico, o Santiago, os homens, os bichos, os matos, e o amor de sua vida, a Malu, são tão divinos quanto poderiam ser. As rezas, as palavras de fé, as simpatias, as bênçãos são uma rotina de desejo engajado de que bons ventos abarquem essa viagem que é a vida.

Meio santo... Só não é santo inteiro, porque adora coisinhas terrenas, como a pinga com mel, o bailão anual de aniversário da cidade; vestir roupa que acabou secar no sol de inverno; tocar violão na madrugada das solidões.

É fã do dia de finados, e a isso credita um quê de lugubridade, já que esse não é um dia de show de rock’n roll, não há astros dos quais ser fã. Falando em música, coloca Santa Clara, Mahatma Gandhi, São Jorge (com dragão e as lendas), Chico Buarque, Joana D’Arc e The Beatles no mesmo altar. Ou devo dizer ‘patamar’ para não assustar demais os devotos?

Meio santo... Meio filósofo... Meio doido, esse moço. Mas quem dele não gosta? Lá está, e sempre, na igreja, joelhos dobrados diante de Cristo crucificado, pedindo pelo outro aquilo que jamais terá se for apenas dele. Feito a felicidade... Felicidade só é boa se dividida em abraço.

Compõe mantras, acende velas em casa que, ora servem para alumiar o recinto e ora outra para despachar espíritos ruins. Também gosta delas empinadas sobre castiçais, labaredas benzendo jantares. Joelhos dobrados, enquanto tenta alcançar a carta do irmão mais velho que mora em outro estado, que com a ventania da tarde, levou as notícias pra debaixo da cama. Vem-lhe a lembrança da meninice deles, quando se escondiam do pai brincalhão, que fingia não saber que eram eles a se esconderem; que fingia encontrar lá debaixo dois filhotes de urubus... Foi assim que o meio santo adquiriu o hobby de fotografar urubus, dizimando da biografia das aves de rapina a feiúra; arrematando-a com tal doce recordação.

Joelhos dobrados, língua traçando caminhos na barriga de Malu. As contas do terço misturadas às do mala; os deuses observando, curiosos, a novena desse homem que se aproxima tanto de Deus, na esperança de poder lhe cochichar no ouvido o agradecimento pela sua humanidade. E para confidenciar a ele que “sim, tudo nessa vida é de religiosidade a ser alimentada e provada, vezes outras, provocada”.


www.carladias.com



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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Carla, amei a forma intensa, provocativa e motivadora do texto. Você e o Eduardo poderiam transformar as crônicas daqui em um livro, ah poderiam!;)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Arrasou, Carla! Que belo personagem esse que você criou.

Carla Dias disse...

Marisa... Acho que seria fantástico se um dia o Crônica ganhasse uma versão impressa! Idéia boa essa...

Eduardo... Meu personagem é quase gente como a gente. Se bobear, sou quase ele.