Pular para o conteúdo principal

DENTRO DE MIM >> Eduardo Loureiro Jr.

Mallmix, on FlickRFalar o quê? Melhor é ouvir o sussurro das coisas. Ou seus gritos. Bonito é tocar a vida de ouvido, ouvindo e fazendo som. Uma crônica não-crônica, aguda, ou grave gravidez sem gravidade...

Na hora de escrever, meu amigo Manu Kelé me manda um poema:

Dentro de mim
Um caminho sem fim,
com flores e cheiro de amor.

Dentro de mim
Profunda beleza,
Na certeza do teu calor.

Dentro de mim
Infinito desejo,
No beijo que a memória guardou.

Dentro de mim
Você linda estrela,
Teu céu me apaixonou.

Eu ouço "Pega o violão". E pego o violão. E o violão escuta "Pega a harmonia". E pega a harmonia. E minha voz canta o que ouve e preenche as palavras que não estavam no poema mas que está na canção.



E eu bem que poderia, antes de tudo, ter guardado o poema com desculpa de escrever a crônica, talvez colocando uma etiqueta: "encontrar melodia". E teria perdido a melodia que me encontrou. Ah, o medo de viver a vida assim, ao sabor do cheiro da comida que outro preparou. Ah, o medo de perder a chance, e perdê-la — mesmo — pelo medo de a perder.

Mar de Ulisses, mar de re-mar. Mar de Penélope, mar de a-mar.

"A gente não sonha, a gente vive." O sonho não precisa se realizar — já é real. O bem, o bem, sempre o bem. Nunca o mal.

A melodia não é a mais bonita, eu sei, é só a certa melodia — meio-dia — da canção. A pino, à plena luz, a claridade da certeza. Tudo é claro. A letra branca sobre a folha branca ainda se vê... quase não se vê... está sempre lá mesmo sem ser vista. Tudo é claro. O escuro vem da sombra ancelha, ancestral, do sobre-olho de quem lê.

Medida justa de tudo é leveza de felicidade.



Comentários

Marisa Nascimento disse…
Eduardo, linda a poesia de seu amigo. Na hora de comentar, não consegui ouvir sua música, mas sei que também é linda. Deve ser pela justa medida do conceito prévio que se tem da qualidade do artista. :)
Anônimo disse…
Eduardo, que belo texto! Somos parentes, estou em Fortaleza, hospedada na casa da Socorro e do Arnoldo, almoçando na Lindalva, e ela me mostrou aqui rapidamente seu texto, depois de eu contar a ela que trabalho com edição de texto. Nessas férias estou por aqui tentando "ouvir os sussurros das coisas" Voltando pra SP vou ler um pouco mais, com certeza... Beijão!
Marisa, se lhe faz feliz, deve ser a justa medida. :)

Débora, continue ouvindo os sussurros do mar da Praia do Futuro.
Carla Dias disse…
Sabe o quê? É sempre bom saber de onde vêm as crias... As totalmente nossas e aquelas adotadas e lapidadas, enriquecidas. E que, de quebra, enriquecem a alma da gente de sentimentos que nem sabíamos caber onde couberam.

Gostei de saber desse nascimento... Dessa melodia... Desse poema que se achegou da sua música.
Carla, você parece visita que chega na maternidade logo depois que o menino nasce. Pense numa visita boa que alegra até a criança que nem sabe de nada da vida ainda. :)
Anônimo disse…
que criatidade de você, gosteei muito desse poema, que você fez junto com o texto. Sou uma aluna da 6ª seerie, de um colegio, estoou aprendendo como fazer cronicas, e gostoou amando, espero que você escreva muiitas mais muitas cronicas, mais legais qdo que essa. PARABÉNS PELA CRIATIVIDADE! :)
Grato, Julia! Mostre as crônicas para seus colegas de sala e para seu professor ou sua professora. Quem sabe a gente não faz alguma atividade juntos: os cronistas do Crônica do Dia e a sua turma de escola.
Anônimo disse…
ôxi Edu, é absurdo, eu não ter tempo daquele abraço, ver vc, suas cronicas e canções... Adorei o poema e o caminho da melodia! Bjim p/ vc e pro Manu

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …