sábado, 27 de setembro de 2008

ENTREGA E CONFIANÇA [Sandra Paes]


Domingo, tarde da noite. O casal amigo espera por nossa chegada. Ela, ansiosa, já ligara algumas vezes. Depois de pedir pra levar um vinho branco gelado, pra refrescar sob a lua, continua querendo saber se a gente ia ou não apreciar o churrasco feito mais cedo, afinal era dia dos pais.

Finalmente, depois de todas as naturais delongas de meu amigo, chegamos. Percebi que não os via fazia tempos. Abraços longos e saudosos da parte dela, uma saudade que se estendia para além do momento e da ocasião. Já me parecia alegrinha pelos vinhos tomados durante todo o dia. E que dia! Como ela me ligara mais cedo chamando para o almoço e compartilhar o que estava planejando, não só para a cozinha mas pra viagem que faria com a família dias depois, ouvi entre outras coisas, numa interrupção de fala:

- Desliga não que a ligação é de fora e eu tenho que atender... desliga não!

E, pra minha surpresa, volta ela alteradíssima, falando que a vizinha estava no hospital por que tinha tentado se matar... E lá se foi a conversa por conta de como ela “soube” que a vizinha estava planejando se matar e o que fizera e tal e agora... “ela quase conseguiu!”

- Como é isso? Gente, do céu! - exclamo atônita; não dou conta disso, não, e ainda tinha que me concentrar pra não errar a mão no molho...

Enfim, eu sabia que minha chegada à noite representava um certo refresco para um dia atribuladíssimo - até briga com o ex-marido houve.

Assim que mostrou as obras novas da casa, veio o pequeno filho - com quem tenho uma relação muito especial e gostosa mesmo - e me disse: - Olha ali! Ele tem apenas três anos e meio...

E eu perguntei: - O que?

E feliz responde: Churrasco pra você! Todo sorridente e feliz.

Olhei para o pequenino, vi que os cabelos encaracolados haviam crescido mais e que ele também ganhara peso e altura. E ao perguntar: “Cadê meu beijo de boa noite?!”, ele simplesmente correu e se atirou nos meus braços na certeza plena de ser recebido e amparado.

Entrega de criança, bem como sua alegria e sorrisos, tem sido o sinal mais evidente que recebo de estar com minha essência, a inocência, esperança e fé. E o pequeno Giovanni mais uma vez me dava aquele que seria o presente do dia.

A mãe, carente de atenção bem como o pai, meio tímido, comigo pelo menos, nos convida a sentar pra ver a lua, e generosa na sua receptividade diz:

- Meu bem, vai buscar o abridor e copos pra nossos amigos!

O marido já olha com ares de cansaço e resmunga qualquer coisa. Escolhi ficar ligada na paisagem e no encontro com o pequenino.

Meu amigo me pede o celular emprestado por que precisa fazer uma ligação urgente e se retira do cenário.

Nos, as duas amigas, ficamos ajeitando a mesa, ela falante por todos os poros, feliz e excitada, a mostrar a obra nova da churrasqueira e tal.

O marido não voltou lá de dentro. Fomos até a cozinha pegar o que queríamos e lá sob luzes mais fortes, notei o quanto ela estava bela. Parecia luminosa, mais magra e com um olhar mais penetrante. Comentei:

- Amiga, como você esta linda?! Que olhar diferente é esse?

E vi que ela tinha colocado uma espécie de maquiagem permanente, dessas que aumentam os cílios e tonificam ou colorem mais a expressão da gente. E ela sorrindo meio sem graça diz:

- “Mulher, quem me dera que meu marido pudesse ver e apreciar como você vê tudo. Meus filhos te adoram, e eu também, por que você é essa pessoa presente que diz o que sente sempre com delicadeza e sinceridade. Ah, como eu sinto falta disso no meu dia a dia!”

Aquilo me marcou, claro. Fiquei pensando por um pequeno tempo por que os casais não podem ou não cultivam simplesmente a mútua apreciação. Fato é que depois tive que chamar a atenção de nosso amigo pendurado há quase uma hora no meu telefone celular. Já passara do limite ate da boa educação pois não se faz isso chegando numa casa, onde se é esperado para um jantar. Ele conseguira, com isso, fazer vir à tona notável irritação do marido dela que disse:

-“Vou me recolher... estou cansado e o dia foi longo.”

Vi que estava dando uma desculpa pra não interagir com a gente. Dei meia volta e insisti pra que ele ficasse e tal e fui atrás do outro que parecia ter se esquecido de onde estava e por que fomos lá. O tal do telefonema parecia a coisa mais importante do mundo.

Flash novamente, e fiz uma outra fotografia em preto e branco. Seria coisa dos homens? Eu, que sempre achei esquisitíssima essa coisa de clube do Bolinha e da Luluzinha que via nos encontros de família. Que coisa difícil é essa? Por que os homens não podem se sentar com as mulheres e vice-versa? Que espaço é esse? E, afinal, depois de conseguir diplomaticamente pôr todos em volta da mesa, começamos uma conversa qualquer. Não deu dois minutos e o casal começa a brigar e a se desentender visivelmente. Deu pra notar que era coisa antiga, e que a paciência e tolerância haviam desaparecido. Ele reclamando que o Dia dos Pais tinha sido ruim e ela a se queixar que foi todo o dia atropelado, que tinha conseguido finalizar o almoço para deixar as crianças felizes e tal, mas era assim: ele, o atual marido, nunca estava satisfeito e ela estava exausta disso.

Respirei fundo. E após tomar fôlego, fui tentar apaziguar os ânimos, uma vez que ali havia dois egos inflados carentes de atenção exclusiva, coisa que não cultivavam um com o outro, parecia, há tempos.

Pois é... Que situação... O que fazer quando se percebe que a confiança havia sido quebrada e sem ela não havia entrega? Percebi que nesse binômio residia tudo que sustenta qualquer relação. Especialmente a de um casamento. Afinal, se não se confia, não se entrega, e o amor parece repetir seu mito todos os dias. Há que ter a magia, o mistério que nos leva a confiar cegamente no outro, para nos entregarmos de corpo e alma. Cultivar isso é o segredo de manutenção dessa magia. Caso contrário, o amor emigra. E com ele, toda a paz e tentativa de alegria e gozo que se pode ter e usufruir.

Passei alguns momentos tentando conversar com o marido que se levantara pra ir embora por duas vezes, visivelmente zangado e tentado ganhar atenção por algo que não se encontrava claro. Vi que ele não agüentava ficar quando ele era o assunto e quando o tema da conversa girava em torno de crítica a suas ausências - coisa que ele praticava com esmero, a olhos vistos - e a dança do vazio e do clima quente, por conta do verão e da tensão entre eles que estavam juntos, aparecia, apenas pra tentar mostrar quem tinha razão.

Olhei em volta e a paisagem não soou mais a mesma. Quando a harmonia se vai, com ela vai o brilho do luar e toda poesia – não para mim, pois já tinha retido a confiança e entrega total do Giovanni, no abraço de minha chegada.

O tema ficou comigo por toda a semana pautando o volume de confiança e de entregas que faço e recebo. Não é assim com todos nós? Penso que sim.


Imagens: Mother and Son, Somos Imagem; Couple Holding Hands, Bloomimage; Moon Above the Ocean, Matthias Kulka

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