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A MEDIDA DA VIDA >> Eduardo Loureiro Jr.

Katia Mazzi
A gente sabe quando chegou a hora, quando não dá mais. No meu caso, é quando as meias se acumulam dentro dos sapatos. Sinal de que estou passando tempo demais fora de casa, sem tempo nem para lavar as meias enquanto tomo banho.

É nessa hora que a gente percebe que não fala com os pais há dias, que não liga para as pessoas queridas, que perdeu o enredo da vida dos amigos e, pior de tudo, que se extraviou de si mesmo.

Casa é o lugar onde a gente se encontra, onde a gente encontra tudo: a tesoura, o orégano, o livro. Casa é onde a gente anda de olhos fechados, de luz apagada. Casa é a cama sempre desfeita, sempre pronta para um descanso de costelas. Casa é o violão à mão, o tempo à inspiração.

Na falta da casa que é essa, pode-se brincar de casinha no meio do mundo — desde que haja silêncio. Se nós, humanos, praticássemos suficientemente o silêncio, chegaríamos, mais século, menos século, à telepatia. O silêncio é uma casa sem paredes.

As meias dentro do sapato fazem barulho. As cuecas sujas, irritadas, fazem barulho também. A mochila ainda não desfeita entra no desarranjo sonoro. O chuveiro elétrico grita friamente por um novo. Aquela canção incompleta, o vídeo não editado, o mapa astral não interpretado, o livro não revisado, o texto não escrito, o macarrão não cozinhado... tudo faz um barulho tremendo. Até o sono, atrasado, vira pesadelo.

A água transborda do copo desatento. A medida de todas as coisas perde a colherzinha certa. As coisas esquecem o tão necessário antes e depois, e viram coisa atrás de coisa que não se sabe como começou nem para onde foi. As coisas ficam sem história e viram manchetes —sensacionalistas — de jornal.

Dá vontade de virar bicho-do-mato. Porque diante de tanta coisa, de tanto ruído, ser bicho-do-mato é ser mais gente do que meia no sapato.



Comentários

Debora Bottcher disse…
Oi, Eduardo,
Concordo com sua teoria sobre o silêncio, pois também eu sou amante da ausência de ruído; mas é tão difícil encontrar a 'medida da vida'... Valha-me... :)
Poesia pura esse texto, tão verdadeiro...
Beijo.
Marisa Nascimento disse…
É, Eduardo...Texto perfeito, encaixe magistral para o dia em que se comemora uma independência. E no nosso dia-a-dia, continuamos escravos do que, um dia, lutamos para ter! Quero ser bicho-do-mato também! :)
É, Debora, faz parte da nossa peleja pra ser feliz. :)

Vixe, Marisa, não é que fiz, mesmo sem querer, uma "crônica de independência"! Brigadim por me ter feito perceber isso. :)
Carla Dias disse…
Desse bicho-do-mato assumido: adoro um silêncio, ainda mais quando posso batucá-lo na alma. Teu texto deu a nota e eu saí cantando... Melhor: silenciando.
The sound of silence, Carla. :)

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