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O CÉU DE MARTE [Ana Coutinho]


Eu já era adolescente, uma jovem que pensava o que prestar para o vestibular, quando comecei a ter uma leve fixação pelo espaço. Pensei em prestar astronomia, quis conhecer as estrelas, achava isso tudo romântico e, então, quando me decidi pela Psicologia, achei que, caso a fixação se mantivesse, eu poderia ser psicóloga da NASA e visitar o espaço.
Aconteceu que a fixação veio e foi em épocas diferentes. Cheguei a entrar no site da NASA uma vez, baixei uns formulários e desisti na primeira linha. Se preencher era aquele sufoco imagine indo até o diabo do lugar e trabalhando lá. Percebi que a minha fixação era mais romântica do que prática.

Ainda assim, cada vez que a vida se mostra por demais cansativa e penosa, a idéia me volta com tudo à cabeça. Eu entro na internet, faço pesquisas sobre Marte, baixo imagens, olho para o céu e tudo mais, pensando que assim, estando mais perto do planeta vermelho, posso descolar-me um pouco da minha vida de terráquea, brasileira, paulistana da gema que, como todas, fez escolhas boas, outras nem tanto e, por ora, sente-se equivocada na sua doce e bela rotina.

Aconteceu que esses dias recebi um catálogo em casa, de uma agência de viagens. E lá estava uma viagem para índia, outra para África, ano-novo em Paris e assim ia. Até que, de repente, numa página qualquer, o anúncio de uma viagem ao espaço. Era de verdade: o anúncio dizia sobre sentir a falta da lei da gravidade, dizia sobre estar perto das estrelas, dizia da escuridão infinita do céu e de todos os adendos de uma aventura como essa. Pois parei ali. Fiquei longos minutos lendo e relendo o anúncio. No final da página, em letras miúdas, o preço: 200.000 dólares por pessoa. Peguei uma calculadora, fiz as contas, comecei a pensar em tudo o que eu poderia vender que, na verdade, se resume à alguns sapatos ou uns bons jeans, e cheguei a triste conclusão que não daria 200, nem 100 mil nada, muito menos dólares. Ainda assim, num movimento instintivo recortei o anúncio, dobrei com cuidado, e o guardei na minha carteira.

É uma tolice, eu sei, mas vira e mexe pego aquele pequeno recorte de papel e leio novamente. Uma insanidade quase que secreta, tola, porém inofensiva. É como se assim eu realizasse esse meu desejo enorme de deslocar-me por uns instantes do planeta. Como se, descolando-me da terra, eu tivesse tirando umas férias da minha vida. Seriam apenas férias, uns diazinhos só bastam, até porque a vida não anda ruim. E esse talvez seja o problema. Se a vida estivesse ruim, eu pensaria logo em suicídio, terapia ou pílulas. Mas a vida anda boa, tudo está nos conformes, os dias são de sol, a roupa de cama está tão limpinha, a comida tão saborosa, o trabalho bacana e meu doce amor mantém-se um marido de primeira.

Acontece que os anos às vezes são longos para termos a mesma vida. Deveria haver um esquema qualquer onde pudéssemos deixar de sermos quem somos apenas por pequenos períodos. Eu gostaria de descolar-me das minhas neuras, dos meus medos, das minhas malditas crenças e certezas, para que eu pudesser ser, ainda que por um dia apenas, outra: loira, alta, talvez barraqueira, corajosa e livre. Gostaria, apenas por alguns instantes, de ser africana, gostaria de ser negra, bem negra mesmo, e ter cabelos enorme que cresceriam pra cima. Gostaria de me descolar um pouco daqui, desse corpo que sempre foi magro, que sempre teve essas pintas, que sempre, absolutamente sempre, teve esse exato formato, esses exatos contornos, esse tamanho médio.

Não sei se apenas eu não me agüento às vezes, não sei se apenas eu me sinto presa nesse corpo, não seu se sou a única que sente-se cansada da mesmíssima vida de sempre. É uma angústia tão silenciosa e solitária, que não ouso compartilhá-la. Leio o meu papel, fecho os olhos fortemente e imagino: lá, em Marte, não há segredos, nem medos, nem certezas. Ouvi dizer, inclusive, que há dois sóis, e que o céu é sempre cor de rosa...

Imagens: Mars with Computer Generated Moon Surface, Denis Scott; Mamers Valles, Nasa, entre Abril 2002 e Maio 2003

Comentários

Debora Bottcher disse…
Ana, querida,
Muito boas essas suas elocubrações, mas me deixaram um tanto pensativa sobre tudo - tanto mais sobre isso de descolar-se de si mesma e ser outra pessoa... Já te contei que muitas vezes pensei nisso? Não em Marte, mas uma coisa mais simples: simplesmente, transformar-se em outra pessoa - outro nome, outro cabelo, outros olhos, uma desconhecida mulher... São pensamentos obscuros que, acho, todas acalentamos vez ou outra... Uma maneira de fugir pra longe de si mesma quando a vida se mistura e fica entre a realidade e o que projetamos...
Um beijo enorme.
Saudade sempre.
Ana, qualquer dia desses, em vez de "cair em si", você há de cair em outro (quem sabe... planeta). Seja onde for, suas palavras continuarão fazendo bonito sentido. :)

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