quarta-feira, 10 de setembro de 2008

LÍNGUAS >> Carla Dias >>

Eu falo gírias, dialetos, doidices. Minha voz é aguda durante o dia e gravemente pranteada nas madrugadas. Mas se assisto reprise de novela, então pranteio à tarde mesmo, dependendo do enredo. E se acordo desarrumada por dentro, aí pranteio o dia inteiro, faça chuva ou faça sol; noite estrelada ou enegrecida pra alimentar bicho arredio.

Já pranteei com a cara grudada na parede, o nariz amassado. E quis entrar no buraco negro só pra plantar no seu centro um buquê de fogos de artifício. Sabe o centro? Onde a gente escorrega os dedos dos pés como fosse bailarina desenhando a cara da dança na areia? Onde a gente se esparrama para os lados, criando saídas, rotas de fuga. Onde é crucificado nosso entendimento sobre a capacidade de dizimar solidão.

E me ofereceram ser fluente somente nas belezas, mas me engasguei no aprendizado ao enveredar pela diversidade dos idiomas. Hoje eu falo estranhezas, labirintos. Sou fluente em inquietações e assimetrias, vez ou outra dou palestras sobre a felicidade, esculpindo no concreto da indecente tristeza, um sorriso carmesim. Falo a língua dos temerários que, após detida consulta aos verbetes da coragem, vestem-se de esperança e saem em busca de si mesmos, até o topo das montanhas, onde fincam bandeiras que se contorcem na tentativa de seduzir a paz.

Já sorri engolindo o som do riso, esmerando-me para não libertar gargalhada. E ao contrário do que parece, foi sorriso dos bons, apesar de engolido, porque tingiu de caleidoscópio o meu dentro. Enfeitiçou minha alma com cores que jamais vira antes.

Conto histórias pra dormir a mim mesma; cantarolo orações. Já me declararam insana, delicada, cética, decente, vulgar; classificaram-me caso perdido, mais vezes do que manda o figurino. São as gírias, os dialetos, as doidices, essa combinação kamikaze de rompantes. Mas pra quem já pranteou de tanto engolir lógica sem nela confiar, creio estar na hora de verter lágrimas de fascinação pelos encontros e pelas descobertas. E, neste caso, só abrindo os braços e berrando alegrias.

Eu falo a língua de quem se desespera e depois amansa, sem desacreditar que a vida é poliglota, e nos entende e atende mesmo quando a estranhamos.


www.carladias.com



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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Carla, que poesia linda de se ler, de se ouvir, de se memorizar para repetir aos os amigos em momentos especiais. :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita, que essa semana a mulherada do Crônica resolveu soltar as perfeições todas na rua. Maravilha de crônica, Carla! Plantar buquê de fogos de artifício no centro do buraco negro é demais, né? :)

Carla Dias disse...

Marisa,
Meu sonho é, dia desses, conciliar direitinho a prosa e a poesia, aproximando-me com jeitinho de uma agradável (e vezes histérica e catártica) prosa poética. Por isso, seu comentário me caiu bem. Obrigada!

Eduardo,
Outro dia eu vi imagens lindas dos fogos de artifício... Eles parecem buquês, às vezes, não? E parece que tudo em volta deles se apaga para contemplar o espetáculo. Acho que o buraco negro carece desse buquê.