sexta-feira, 27 de outubro de 2017

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ? >> Paulo Meireles Barguil


Do desconhecido ou do conhecido?
 
Do escuro: de dentro ou de fora?

De mudar ou de não mudar?
 
De ser ferido de novo ou de não ter mais o discurso de vítima?
 
De nem tentar ou de não obter o que gostaria?

De ser amado ou de não ser amado (de novo)?

De passar vergonha ou da vergonha não passar?

De cair no abismo ou de não sair dele?

De ficar de (novo de) castigo?

De morrer ou de não viver?
 
Você sabe quais são as suas feridas?
 
Você sabe que precisa ter coragem para curá-las, pois ninguém pode fazer isso por você?
 
Qual é o seu bicho-papão de estimação?
 
Até quando você vai dormir com ele?
 
Até quando ele não deixará você acordar?
 
Pelo menos o medo de não escrever a crônica quinzenal eu consegui superar!
 
Daqui a 2 semanas, ele volta...


[Recife – Pernambuco]

[Foto de minha autoria. 20 de março de 2004]


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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

CHAPEUZINHO PANTONE 17-1463>> Analu Faria

                                          Para as minhas avós, Lourdinha e Maria (in memoriam).



Passando pela floresta, com uma cesta de frutas orgânicas e doces fit para a vovó, deparo-me com uma pegada de lobo que leva ao meu destino. Já sei que vai dar merda.

Chegando à casa da vovozinha, lá está o lobo, péssimo ator e maquiador que é, tentando ridiculamente se passar por ela. Minha vontade é desmascará-lo logo, porque eu tenho aula de yoga em uma hora e não posso me atrasar. Contudo, com a paciência que Shiva me deu e tentando ter alguma empatia -  afinal nunca se sabe o que levou o lobo a ser lobo - finjo que acredito que ele é a vovó.

_ Olá, vovó.
_ RRRRRR Olá, minha netinha.
_ É impressão minha ou a senhora rosnou, vovó?
_ ...
_ Vovó?
_ Impressão sua.
_ Vovó, onde deixo as frutas e os doces?
_ Aqui,comigo, eu como agora.
_ A fruta é orgânica e o doce é de batata doce. Fit, aliás.
_ Então, não.
_ A senhora deve estar cheia, né, vovó? Deve ter comido há pouco tempo, não?
_ RRRRRR por que você diz isso? - faz o lobo, tentando esconder o bucho inchado por ter comido a minha pobre vovozinha.
_ Nada.
_ Vem aqui mais perto, minha netinha.
_ Não, vovó, a senhora tá com um bafo horrível. Eu já estou de saída, tenho aquela aula de yoga que te falei. Mas antes... me responde umas perguntas, vovó?
_ Que perguntas?
_ Será que esses seus olhos grandes não são uma metáfora do consumismo desenfreado da nossa época?
_ Hein?
_ E essas mãos grandes, será que elas não seriam para massagear o seu ego?
_ Não, são pra passar nas novi... digo, para te abraçar.
_ Sabe o que é, vovó... eu andei pensando que a senhora está meio estranha ultimamente. Lá fora, por exemplo, caída na varanda, tem uma camiseta com os dizeres "Artista é tudo vagabundo".
_ Err... não sei como foi parar ali.
_ Seus amigos também não a veem há muito tempo. O Rogério e o namorado reclamaram que a senhora anda sumida.
_ VÁ DE RETRO! EU NÃO TENHO AMIGO VIADO!
_ O que a senhora anda lendo, vovó? Que influências estão mudando essa cabecinha?
_ Só leio coisa boa, para o seu governo! Quer dizer, eu abro uma exceção às vezes e leio aquela porcaria que você escreve.
_ Às vezes, vovó?
_ Tá bom, vai. Eu leio sempre.  Também te sigo no Facebook, no Twitter e no Instagram.
_ Nossa, a senhora tá muito stalker, vovó.
_ Aliás, sua pentelha - O lobo muda de repente de tom - Quem tem que te fazer umas perguntas sou eu.
_ Ah, é, vovó?
_  De onde você tira aquilo ali, hein?  Pra mim o que você escreve só pode ser...
_ Só pode ser o que, vovó?
_ Dor de cotovelo, falta de louça pra lavar, falta de...
_ A dor é no pé, vovó, fraturei fazendo stand-up paddle, lembra? E tem uma pilha de louça suja aí atrás da senhora também...
_ Velha bagunceira - balbucia o lobo.
_ O que disse, vovó?
_ Eu disse que lugar de mulher é na cozinha.
_ Que é isso, vovó?? A senhora nunca foi assim.

Nesse instante, ouço uma voz abafada que vem de dentro do lobo :

_ Já chega, usa a serra elétrica que eu comprei no Mercado Livre! Tá perto da porta!

Rapidamente abro a porta da frente, pego a serra elétrica e parto para cima do lobo. Preciso acabar logo com o sofrimento de minha avó. Além disso, que Shakti me perdoe, mas eu dei muitas chances para esse lobinho  tosco  com sérios problemas de autoimagem. Antes, porém, de cortá-lo da virilha ao pescoço, ainda pergunto:

_ Quais são suas últimas palavras?
_ Bolsonaro 2018.
_  Cooooooortaaaa!!! - ouço minha vovozinha gritar de dentro do bicho.

Contra uma serra elétrica ninguém pode. Nem um lobo bolsominion. Pena é ter voado sangue para tudo quanto é lado - sujou meu tapetinho de yoga, minha roupa, o cabelo que eu tinha acabado de hidratar com uma máscara de ojon. O importante é que vovó está bem e inteira.

_ Não entendi por que você demorou tanto, minha filha.
_ Tentei a empatia, vovó.
_ A gente tem sempre que tentar, né, minha querida? Boa menina!





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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

AOS INQUIETOS >> Carla Dias >>


De todos os sonhos
Arrastados pela vida afora
Aquele que mais me assombra
É o que nunca sonhei


Às vezes, ela age assim, como se nunca tivessem lhe confidenciado sobre a vida e seus desafios. Como se não tivesse sido educada para lidar com abandonos. São dias em que a vulnerabilidade a cerceia, vestida – elegância desalinhada – em realidade crua. Só que de crueza profunda, feito corte que não é na carne.

Pronto-socorro não adianta.

Vulnerabilidade a deixa assim, zonza, feito um Bobo da Corte parido para distrair distraídos. Munido com os piores truques para incitar gargalhadas. Destinado ao fracasso.

Zonza, mas apenas até encarar seu destino, porque já aprendeu que lidar com infortúnios exige uma coragem que não desabona o medo. É ele, o medo, que mantém sua percepção afiada.

Não raramente, aprofunda-se em si, em outros. Então, enxerga além, acompanha entrelinhas, envereda por espantos. Desvela silêncios.

Pode até não sorrir o sorriso esperado, dizer as palavras adequadas. Pode até não se comportar com o requinte de quem decorou manual de etiqueta ou respeitar tempo estabelecido. Mas continua ali, a lidar com os destemperos da sua existência, em dias em que a vida lhe parece tão frágil, capaz de se romper em um espirro.

Acontece de ela não caber em retrato, roupa, desejo alheio ou dentro de casa. Basta cair uma chuvinha e ela sai em passeio. Durante longas caminhadas, é capaz de reorganizar pensamentos gritantes, esses rebeldes que se aproveitam da ocasião para badernarem os sentimentos dela. Quando tudo se mistura no seu dentro, o barulho a incomoda. Ainda assim, ela escuta o tal, durante esse show particular que tem como meta impacientar sua paz de espírito.

Paz de espírito necessária. Feito pausa, respiro.

Então, vem a taquicardia para enfeitar a vulnerabilidade com um pouco de ritmo.

Ela se deleita durante a jornada de descoberta sobre o que muda o andamento das batidas do coração e que também é capaz de estremecer a alma. Passou tanto tempo erguendo seus muros, vigiando seus limites, reverberando normas e vivendo rótulos. Especializou-se em se preservar, até o dia em que se deu conta de que preservar-se, quando se trata de ser, é o mesmo que anular-se.

Aos apegados às manchetes sensacionalistas: ela aprecia redenções e chá de gengibre. Ama, ainda que não a amem em contrapartida. Quebra silêncios hostis com a maior delicadeza. Encanta-se facilmente por mistérios. Tem pudor nenhum em fazer escândalo diante de injustiças.

Aos curiosos: sim, seu coração é partido mais vezes do que gostaria. Não, ela não sonha que um dia será diferente. Ela já teve esse sonho. Hoje, ela vive essa realização.

Imagem © Carolina Bicudo
Conheça outras obras da artista em Flogoníssima.




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sábado, 21 de outubro de 2017

CAIO >> Sergio Geia

 
Beber dessa bebida amarga (e doce ao mesmo tempo). Entrevistas, YouTube, crônicas, contos, romances, biografias, Caio, Caio, Caio. 

Vítima dessa AIDS que levou, além dele, outros gênios como Cazuza, Renato Russo, Betinho (e tantos outros), todos contemporâneos seus, Caio nos deixou muito cedo. Por conta dessa morte prematura, à exceção de sua literatura, há pouca coisa, principalmente na internet, sobre ele.
Não lembro como tudo começou. O que lembro, é que sempre tive na mira o “Morangos Mofados”, seu livro de maior sucesso. Também não lembro o motivo pelo qual eu o tinha na mira. Não sei se alguém falou bem do livro — aquele papo de “Nossa, esse livro mudou a minha vida!”, ou “Nossa, aquele disco de fulano de tal mudou a minha vida!” —, talvez alguém tenha dito “Nossa, o ‘Morangos’ do Caio Fernando Abreu mudou a minha vida!”, afinal, “Morangos Mofados” e “Feliz Ano Velho” marcaram uma geração. O que sei é que nenhum livro mudou a minha vida. Nenhum disco. Nenhum filme. O que me ocorre agora é que, talvez, tenha sido o título do livro que tenha me chamado a ele. Os títulos sempre me chamam. “Olhai os lírios do campo” me chamou. Lembro que um dia, entrei no Submarino e comprei “Morangos Mofados”. Desde então, respiro Caio (respiro do ponto de vista intelectual e artístico, é óbvio; mas como gostaria de ter respirado o mesmo ar de Caio; poderia ter sido no Ritz?), e “Morangos Mofados” virou o meu livro de cabeceira, quem sabe, candidatíssimo a mudar a minha vida.
Neste momento leio “Para sempre teu, Caio F.”, da Paula Dip, que foi colega de trabalho e amicíssima de Caio. É uma biografia, e como toda biografia, me oferece um mergulho na vida do autor. Conhecer a sua infância, a sua vida antes de se tornar o escritor famoso, a visão que os amigos tinham antes dele se tornar o escritor famoso, hábitos, preferências, personalidade. Está recheado de passagens da sua vida (claro), cartas — Caio adorava escrever cartas —, bilhetes, textos, crônicas, fotos, os bastidores de diversos contos, inclusive dos “Morangos”, a vida a mil, visceral, muito Caio, sem medo de ser infeliz.
Outro dia estava lendo a crônica “Ao momento presente” que está no livro “Pequenas Epifanias”, da Editora Nova Fronteira, em que Caio reverencia esse momento esquecido. Depois li “Lições para pentear pensamentos matinais” (Caio era ótimo para escolher o título dos seus textos), depois “O livro da minha vida”, e depois “A cidade dos entretons”. Adorei “Quando setembro vier”. E que sacada! Depois pensei: “Esse Caio é realmente fascinante!”
Inimigo dessas de preservar estabilidades, absolutamente aberto ao mundo, a tudo e a todos, Caio é uma fonte inesgotável de ser. Intensidade plena. Luz e Sombra. Dia e noite. Medo é uma palavra que não existe no seu dicionário. Sofrimento, amargura, depressão, angústia, agonia, fracasso, constrangimento, até broxadas, foras, furadas monumentais. Isso é vida, e Caio não tem medo dela. Abrir mão dessas coisas é abrir mão da própria existência.
Lembro que algum tempo depois de lançar o meu romance, uma querida ligou dizendo que tinha gostado da história e, principalmente, dos personagens, que não tiveram medo, segundo ela, de fazer escolhas que significaram, no universo ficcional da obra, uma guinada de 360 graus, ainda que tais escolhas significassem também problemas. Disse que se arrependia de suas escolhas. Diferentemente dos personagens do livro, a leitura a fez entender que sua opção fora sempre a opção do conforto, do controle absoluto, do medo do novo, do não-viver, do não-arriscar. Uma escolha, digamos, não-Caio, não-vida.
Esse sentimento traduzido no livro eu senti anos atrás, tanto que mal ou bem, consegui transportá-lo para os personagens, de modo a fazer com que eles fossem diferentes do que eu tinha sido até então. Não tenho dúvidas de que gostaria de ter a personalidade marcante do padre-narrador.
Sinto que Caio vem dar um refinamento a esse sentimento.


P.S.: Um amigo me falou coisas: “que os problemas vão se acalmar com o fim do período de retrógrado”, “que o Sol estará em Virgem, enquanto a Lua estará em Peixes”, “que ouviremos boas notícias sobre conquistas sociais, econômicas, culturais, humanas e espirituais”. Lembrei-me na hora de outra das muitas facetas do Caio.
“Nossa, como você hoje está Caio Fernando Abreu!”, respondi.
E arrematei:
“Com Sol em Virgem e ascendente em Libra”.
Momento Caio.
Total.


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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC - 2a PARTE >> Zoraya Cesar.

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC 1ª parte  Meu tio encontrara uma estátua antiga que, aparentemente, pertencera ao misteriosamente desaparecido povo Ineltepnac. Chamou o eminente Professor Sondaar-Dief para atestar a veracidade de sua descoberta. Achava, meu tio, tratar-se de uma deusa da fertilidade. Não podia estar mais enganado. Perigosamente enganado.

Que bonita era! Uma mulher alada de mais ou menos 1,60 m, em terracota, fresca e conservada, como se esculpida recentemente. Ela parecia... macia! Tive o bom senso de não a tocar, ao contrário de meu tio e do Professor Sondaar-Dief, que lhe passavam as mãos, fascinados. 

Nua, suas formas arredondadas e cheias traziam promessas de noites longas e sensuais, sugerindo fertilidade, exultava meu tio. Não, contradizia o Professor: as mãos estendidas, súplices, o sorriso lúbrico, o cabelo comprido e encaracolado demonstravam ser uma deusa do amor dos Ineltepnac. 

Embora indubitavelmente bela, mas continha uma malignidade tão óbvia, que me espantava eles não o perceberem. O riso de seus lábios era sardônico e cruel; o olhar, oblíquo; suas asas, pontiagudas e angulosas, não sugeriam benignidade, mas beligerância. As mãos nodosas, os dedos curtos, ligeiramente encurvados, mais pareciam garras, e não ofereciam nada de bom. Eram, antes, um chamado à decadência, à destruição, ao excesso. Lembrei das palavras da minha tia: “aquela coisa era desgraçada”. 

Nesse momento aconteceu-me algo totalmente inusitado e extremamente estranho: um raio de lua escapou por entre as nuvens, iluminando meu rosto; minha mente desligou-se do instante presente e tive um vislumbre de memórias ancestrais reveladoras, lendas, rituais, magias dos Ineltepnac - e de quem era a deusa representada por aquela estátua. Juro a vocês que vi os olhos dela se voltarem para mim, estreitando-se de ódio.

(Não me perguntem, por favor, como isso aconteceu. Até hoje não sei explicar; e, se não fossem as sequelas que até hoje carrego, duvidaria de tudo o que ocorreu depois. Mas estou me adiantando. Voltemos, pois).  

Tudo passou muito rápido. As memórias, no entanto, ficaram. Ficou também algo, ou alguém,  uma espécie de entidade, não sei - e acho que nunca saberei - dentro de mim, partilhando minha mente. Confesso a vocês que estava apavorado. Nunca tivera uma experiência mística em toda minha vida. 

Até que convenci-os a voltar, dizendo que, cansado como me sentia, não conseguiria decifrar os dizeres esculpidos na base da estátua - sou linguista com especialização em línguas antigas (e mortas, como o ineltepnateco). Meu tio e o Professor discutiam, alterados, seus pontos de vista, mas seguros de que estavam diante de uma descoberta arqueológica que lhes traria fama e fortuna, revolucionaria a história da região, e explicaria, talvez, o desaparecimento súbito do povo Ineltepnac. 

Grandes Deuses! A magia negra da deusa da destruição já estava fazendo efeito! Contei tudo à minha tia, que baixou a cabeça, desconsolada. A chegada da deusa Nshtabala significava ruína. Ganância, cupidez, luxúria, violência, alcoolismo, loucura. Os sentimentos mais sórdidos que aprisionamos no fundo de nossa alma afloravam e explodiam, incontroláveis e iracundos, sob a influência dela. 

E eu, eu não era mais dono de mim desde que o raio do luar me atingira. Minha mente consciente não entendia o que estava acontecendo, mas aquele "algo" que não minha persona controlava e guiava minhas ações: fui ao depósito onde minha tia guardava suas magias e preparei um alforje com sal, óleo de olíbano, incenso de sálvia, fósforos. Por mim, teria ficado em meu quarto escondido debaixo das cobertas, mas, como disse, não tinha mais controle sobre meus atos.

Voltei à noite fria, para ler a inscrição na base da estátua. Senti que não teria dificuldades em decifrá-la. 

O vento soprava forte. Soprava uma poeira pedregosa e afiada, que cortava minha pele e arranhava meus olhos. Soprava ameaças veladas, que enregelavam meu coração e me davam ânsias de fugir correndo, aterrorizado. 

A estátua, acreditem, emitia um zunido baixo e constante, como se uma grande colmeia estivesse dentro dela. Aquela coisa estava viva, apenas aguardando para que sua influência nefasta atraísse incautos para adorá-la. E, depois, tudo desapareceria numa nuvem de dor e sangue. 

A inscrição estava em ineltepnacteco pré-tristaniano. O esforço para me concentrar apesar do zunido e do medo me davam ânsias e engulhos.  Ainda assim, eis o que consegui traduzir, grosseiramente, com a ajuda, não duvidem, da entidade dentro de mim: 

Eu sou Nshtabala, a Destruidora. 
Malditos sejam meus inimigos e também meus adoradores. 
Vim do fogo e só ao fogo retornarei,
Se você tiver não tiver o coração forte consumirei sua vida. 

Não tenho coração forte, posso lhes assegurar. Quis fugir dali na mesma hora, mas não consegui. Por falta de opção, fechei os olhos e me entreguei à entidade que me ocupava o corpo e o espírito – que, ao menos, pelo que intuí, era um oponente daquele ser medonho. 

Entoando cânticos cujo significado desconhecia, mas que me vinham naturalmente à boca, cerquei a mim e a estátua num círculo de sal. Untei-nos com óleo de olíbano. Acendi uma fogueira com algodão-sagrado, sálvia e artemísia. O vento parara de soprar.

Acendi um círculo de fogo.
 Sabia, em alguma parte da minha mente, que deveria derreter a estátua.
Só não sabia o que ia acontecer comigo. 

Foi horrendo, quase enlouqueci. Gritos de gente torturada ressoavam em meus ouvidos, senti dentes afiados rasgarem a minha carne e quebrarem meus ossos. Parecia que eu também, assim como a estátua, estava derretendo. A dor era insuportável; eu me contorcia e urrava, pensei que fosse morrer. Aliás, eu queria mesmo morrer para acabar com aquilo. Se me perguntarem como resisti ou porque não saí, terei de responder com o silêncio. Pois não sei com certeza. Acho, apenas, que o oponente de Nshtabala era mais forte que eu. Mais forte que ela.

Apresso-me, agora, pois prometi-lhes contar essa história em somente dois capítulos. A estátua só derreteu inteiramente ao amanhecer, e, talvez por sortilégios de minha tia, ninguém interrompeu meu ritual. Quando tudo terminou, desmaiei e só acordei com o sol a pino. Misturei sal às cinzas e espalhei-os no ar. Nshtabala e seu poder desapareceram. (Pelo menos, naquela forma).

Finalizo esse longo relato. Sou, novamente, dono de mim. Restaram-me algumas sequelas daquela noite incrível: queimaduras, músculos distendidos e pesadelos - que perduraram por bem mais de um ano. O Professor Sondaar-Dief prometeu me denunciar como vândalo, e meu tio ameaçou deserdar-me. Não me importei com um nem com outro. Pela primeira vez na minha existência pacata eu vivenciei uma aventura heroica, cumprindo uma missão sagrada. O que pode haver de mais importante que isso?

Eu agora sabia o que acontecera ao povo Ineltepnac, meu povo ancestral. Detinha um segredo que jamais, nem por toda a glória vã desse insensato mundo eu revelaria. Até porque ninguém iria acreditar.

Foto: Skitterphoto in pixabay


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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

SUA TRAGÉDIA NÃO É MINHA >> Carla Dias >>


Sua tragédia não será reconhecida, no caso da impossibilidade de enquadrá-la na televisão. Entre o comercial de amaciante de roupas e do carro de design exclusivo. Logo depois da propaganda eleitoral. Se ela não couber em discussão conduzida para transformar direitos em item opcional, muito menos importante do que instalar o ar condicionado.

Tem feito muito calor.

Sua tragédia passará despercebida, mas a culpa só pode ser sua, quem nasceu na forma, no tom, no lugar, na classe social, na cor errada. Nasceu para ser esquecido diariamente. Para ser lembrado somente quando sua luta reverberar mais do que deveria. Para calá-la, melhor conduzi-la com enredo que você jamais determinará. Enfim, ela servirá para contenção de desejo de mudança. Servirá aos que entortam seu espírito, enquanto vendem a ideia de estarem salvando sua vida.

Sua tragédia não importa. Não será discutida à mesa do jantar, durante as conversas entre os amigos a celebrarem suas conquistas, tampouco nas salas de aula. Será esquecida, como você tem sido esquecido, diariamente. Cairá no silêncio, será ocultada pelas facilidades da vida. Ela se perderá no medo.

Sua voz não ecoará, a não ser que a verdade que ela traga possa ser adaptada, de forma a caber naquele ângulo ideal para campanhas publicitárias que vendam o necessário de promessas para a próxima eleição. Sua tragédia servirá de atriz principal para promessas criadas para não serem cumpridas. Não havendo espaço na política, alguns itens cosméticos?

Quem não precisa de ajuda para parecer mais interessante na foto?

É óbvio que a sua tragédia não é somente sua. Ignorá-la é um exercício que muitos têm feito com muita dedicação, abraçando a passividade como conforto que dizem de direito. Meritocracia existencial? Um dane-se retumbante ao semelhante.

Sua tragédia não cabe perfeitamente na linha geográfica do gosto pessoal de muitos. Ah, se ela ficasse em outro continente; se fosse banhada por outro oceano. Se fosse em outro idioma, tivesse outra moeda, carregasse outra história.

Não digo que todos observem sua tragédia com a mesma indiferença, ou enxergando a chance de se aproveitar dela. Aproveitar-se de tragédias é função de muitos. Há quem ganhe a vida nessa lida. Sei que há quem, legitimamente, deseja que você supere sua tragédia, sem ter que se curvar ainda mais. Sofrer, ainda mais. Aqueles que enxergam sua tragédia, além da panfletagem, da politicagem, do olhar e poder de manipulação dos profissionais das tragédias.

Sim, aqui também cabem a Somália e o Brasil. Cabem as tragédias silenciosas, abafadas pela desigualdade social. Cabe o desfalque no país e no espírito do brasileiro. Cabem as tragédias em nome do amor, que de amor não tem nada. As que acontecem para o proveito de poucos, que deixam muitos à mercê da miséria.

Não consigo deixar de me perguntar: quando o homem vai parar de cometer tragédias? Ao menos, deixar de ignorá-las?

Imagem © Francis Picabia


carladias.com

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terça-feira, 17 de outubro de 2017

SEU NOME NUNCA MAIS SERÁ O MESMO >> Clara Braga

Renata, coitada, será sempre ingrata!

Juliana curte rock n' roll. Juliana não quer sambar. Ah, samba Juliana! O que que custa? Samba Juliana, SAMBA!

Ninguém sabe o que é passar os últimos 9 anos da sua vida ouvindo a mesma piada a respeito do seu nome. Inara sabe! Só Inara sabe o que é entrar em um recinto e ver um grupo de pessoas fingindo tocar pandeiro com as mãos e cantando: Inara, Inara, Inara, Inaraí! O pior de tudo é que esse grupo sempre acha que está sendo criativo. Inara finge que esteve privada de vida social todo esse tempo e nunca ouviu essa piada! Ou então finge ser fã número 1 de Katinguelê, dá aquela sambadinha marota, aquele sorriso amarelo e segue sua vida.

Janainas nunca serão mulheres diurnas, acordam todo dia às quatro e meia e já na hora de ir pra cama Janaina pensa que o dia não passou. Mas também né Janaina, 16:30 nem o banco está mais aberto.

Se você só pensa nela então o nome dela não é Ana, não é Denise, não é Roberta nem Marisa. Se você só pensa nela, o nome dela é Daniela.

Carolina não entrou para o grupo das mulheres estigmatizadas por terem seus nomes citados em músicas. Ela foi pouco sacaneada, em sua música ela só é elogiada. Ninguém pratica bullying com elogios. 

E o que dizer das Beatrizes, das Madalenas e das Luizas? Essas sim fugiram das piadas, receberam verdadeiras homenagens em suas músicas, não tem graça nem tentar pensar em zoar. 

Mas a Carla... Oh Carla, ele te amou como jamais um outro alguém vai te amar! Se você não corresponder vai ficar feio, você quase vai passar por ingrata, só não vai ser porque seu nome não é Renata!


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sábado, 14 de outubro de 2017

VOZ >> Cristiana Moura

Passei um tempo muda de palavras escritas. Andava sem ar. Um dia depois do outro, um dia depois do outro, um dia depois do outro. Obrigações, afazeres, afetos intensos e turbulentos, implosões, muito amor. Tanta gente, tantas palavras a serem lidas, necessidades muitas a serem supridas. Faltou eu para mim. Nem percebi.

Agora, ouço uma música desenhada de vento e silêncio a reger a leitura das crônicas que escrevi antes dos meses de mutismo. Nas órbitas engendradas entre os escritos e as memórias estou reaprendendo a mim mesma.

Estou a petiscar trechos:

‘Tenho que me desapegar de mim, me abandonar.’

‘A gente vai fazendo nascer o que já existe.’

‘Os trovões explodem como os sentimentos secretos que por vezes implodem em mim.’

'A arte tem dessas coisas — adentra a vida da gente e oferece outros itinerários ao cotidiano.'

Que coisa mais linda esta: uma vez desaprendida de mim,  poder revisitar-me. É como bater palmas defronte à casa da vizinha e ser convidada para um pedaço de bolo, um café, um fuxico.

Recuperei a voz.




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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

PÓ >> Paulo Meireles Barguil

   
"Todos vão para o mesmo lugar;
vieram todos do pó e ao pó todos retornarão."
(Ecl 3, 20)
 
Aceitar e reverenciar o efêmero é planar, com esperança, na eternidade.
 
Rejeitar e desdenhar o transitório é aprisionar-se, com desespero, no presente.
 
Energias tão distintas: uma vê o  mundo em cores; a outra em preto e branco, quando não em cinza... 
 
Uma interage no mundo com as mãos abertas, distribuindo o que é; a outra só as abre para receber, quando não para tomar...
 
Como lidar com vampiros que atacam, sem qualquer cerimônia, à luz do dia?
 
O que fazer com a luz interior: converter ou perverter?
 
"Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada."
(Humberto Gessinger, Toda forma de poder)
 
 
[Conceição do Mato Dentro  Minas Gerais]
 
[Foto de minha autoria. 18 de julho de 2012]


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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

ESTAÇÃO: ESPERA >> Carla Dias >>


Houve dia em que ficou à toa. E à toa deu de se perder no tempo. E o mistério do tempo foi lhe resumindo a vida. Então, que naquele dia o dia se tornou insuportavelmente inteiro. Não tinha fim, início, meio. Esparramava-se nele, engolindo suas vontades. Uma a uma, aos pares, tantas ao mesmo tempo. Até se fartar delas.

Os pés se esqueceram da cadência do passo. Cimentaram-se no chão desse dia, arrematados por um cansaço do qual não era possível se descansar. Um gemido miúdo saia dele. Um alerta mirrado, parecido com a dor mais intensa encapsulada em um desabafo exausto.

Sabia nada sobre dias que duravam uma vida. Sabia nada sobre lidar com esperas tão longas, de quando o tempo de um segundo reverberava feito semanas, meses, anos. Então, que aquele fio de tristeza se expandiu, aos berros, aos soluços, aos adjetivos desprovidos de cuidado. Foi rabiscando tudo com sua unha afiada por insolências.

Perdeu-se nesse dia, a alma condenada à indiferença da delicadeza. Nunca foi das declarações de afeto, mas as declamaria, agora, mil e todas, durante esse dia sem fim, feito novena, soubesse como fugir desse dia engolido pelo desaprumo do tempo.

Sempre teve suas diferenças com o tempo, com o hábito dele de passar apressado durante o prazer; de seguir arrastado, ao longo do padecimento. Ainda assim, nunca experimentara de tal estiramento. De cada tomada de fôlego acontecendo feito capítulo de novela. Do pensamento se desdobrando numa lentidão que o incapacitava a se lembrar do início dele, do que se tratava.

Seu corpo domesticado pelo dia que dura o quê? Semana e meia... Mês. Suando frio, padece de espera pelo o que não controla. É tormento inadequado, que vandaliza com sua sempre tão domesticada capacidade de lidar com as coisas da vida. Aquelas coisas básicas, que não berram em seus ouvidos a brutalidade do desejo por algo mais.

Algo mais vandaliza com a paz de espírito dele.

Feito esse dia ao qual ele sobrevive como se tivesse envelhecido décadas. Talvez, possa até se enxergar no espelho do tempo-capataz que o domina, cabelos grisalhos, pele lasseada.

Deseja o fim do destempero do tempo que passa sem passar. Torna-se religioso ao recorrer ao Deus, lançando um pedido de liberdade. Quer sair desse círculo do tempo, dessa espera que já dura cinco vidas e cento suspiros. Quer recuperar a mobilidade do corpo travado pela espera e por todos os significados que ela abarca.

Então, que os sons despontaram, amplificados, plurais, misturados. Os cheiros se manifestaram: comida, flores e perfumes. O tempo o libertou, assim que esse dia, que parecia ter durado dez vidas de aprisionamento, voltou ao seu ritmo, devidamente combinado à irreverente taquicardia que o tomou, ao vê-la entrar no restaurante.

Imagem: The Lovers © George Tooker

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terça-feira, 10 de outubro de 2017

PARADOXOS >>Clara Braga

Um dia um nasce, no outro dia um outro morre. Esse é o ciclo da vida, estamos sempre lidando com nascimentos e mortes, literais ou não.

Nascimento e morte são duas coisas que não poderiam parecer mais opostas, afinal, uma é vista como o começo enquanto a outra é o fim. Mas se você parar para observar, vai perceber que existem mais semelhanças nesses opostos do que você poderia imaginar. Aliás, todo fim não seria a chance de um novo começo?

Tanto o nascer quanto o morrer une as pessoas e provoca em nós um estado reflexivo de extrema importância para que a gente defina o que vai ser da nossa vida a partir desse novo acontecimento.

Tanto o nascer quanto o morrer podem ser acompanhados de um sentimento de alívio. No nascer o alívio vem com a alegria de ter por perto uma nova vida, o que gera um sentimento de esperança muito louco nas pessoas. E no morrer o alívio vem acompanhado da tristeza de saber que não será mais possível conviver com aquele que se foi, mas ainda assim foi melhor a pessoa parar de sofrer (claro que nesse caso não estou incluindo as mortes repentinas, essas geram um outro sentimento).

Tanto o nascer quanto o morrer podem nos transformar em pessoas totalmente dependentes umas das outras.

Tanto o nascer quanto o morrer são capazes de romper ou reatar laços.

Tanto o nascer quanto o morrer emocionam até as pessoas mais racionais.

Tanto o nascer quanto o morrer geram momentos que vamos levar para a vida toda.

Enfim, poderia enumerar diversas semelhanças, mas a questão é que o nascer e o morrer são tão marcantes na vida das pessoas pois um nos faz enfrentar o “para sempre” enquanto o outro nos coloca cara a cara com o “nunca mais”, não podia ser fácil...

   


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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

CASO ENCONTRE UM LOUCO, CORRA >> André Ferrer

Fecharam-se os manicômios e gerações de loucos foram jogados no mundo. A família e a sociedade, ainda que despreparados técnica e emocionalmente, passaram a arcar com as consequências.

Os manicômios, de fato, constituíam uma calamidade, mas a alternativa escolhida foi, no mínimo, irresponsável. Em vez de modernizar o modelo de confinamento (que, a cada dia, prova-se necessário), adotou-se a solução mais fácil: cada qual que cuide do seu próprio louco domesticamente. Quando muito, em visitas a um Centro Psicossocial.

O modelo de assistência oferecido pelo poder público é remoto. Foi pensado para situações controláveis e nunca para tratar verdadeiras bombas-relógio. Tudo indica, ainda, que não está aberto para mudanças e concessões.

Casos como o do incendiário da creche deveriam provocar uma discussão nacional, mas um tiroteio em Las Vegas encanta muito mais a opinião pública do que uma carnificina em Janaúba. Deveria, no mínimo, levantar questões do tipo: será “mesmo” que os nossos velhos "depósitos de gente" eram, de todo, ruins? Será que uma reestruturação do modelo não diminuiria, pelo menos, a presença de potenciais incineradores de crianças aqui fora?

Anos atrás, um desses loucos entrou numa livraria, em plena Avenida Paulista e escolheu alguém sem motivo algum. Sorrateiro, aproximou-se de um homem que, tranquila e distraidamente, escolhia um livro.

O desequilibrado trazia um taco de basebol escondido na mochila (onde encontraram um facão logo em seguida). O golpe foi no alto da cabeça. Depois de meses numa UTI, a vítima faleceu.

Quando eu soube do ocorrido na creche mineira, lembrei-me do caso da Livraria Cultura. Pessoas doentes, famílias despreparadas ou relapsas, o Estado e a sua incapacidade irreversível. Oremos fervorosamente por Las Vegas.


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sábado, 7 de outubro de 2017

ZANZANDO PELA PRAIA DESERTA >> Sergio Geia



Está só. À medida que ele anda, deixa marcas no caminho. O rastro não é linear, é sinuoso. As pegadas às vezes seguem na direção do mar, como se ele fosse entrar, molhar os pés, dar um mergulho, depois voltam em sentido contrário, mais fundas, disformes, atrapalhadas, como se a tentativa agora fosse fugir. De vez em quando ele para, olha pra trás, analisa atentamente a sinuosidade das pegadas que o seguem, abaixa, toca com as mãos as mais próximas — a delicadeza é tanta que tem a sensação de tocar um corpo de mulher. Parece gozar da textura, da maciez, experimenta a profundidade, parece sentir as curvas. Em seguida, recolhe a mão do buraco, bate uma palma na outra pra se livrar da areia, esfrega, depois endireita-se, levanta-se, olha de novo pra frente, e uma sensação de ausência lhe bate quando não vê algumas marcas que ficaram pra trás. Dá uma olhada no mar, nas ondas miúdas que quebram.
Do lado oposto vem um homem com um pedaço de pau nas mãos; é seguido por cachorros. Quatro, ele conta. Parecem crianças numa espécie de Playcenter, tamanha a felicidade.  Eles correm, entram no mar, pulam um sobre o outro, depois seguem para a areia, brincam mais um pouco, até alcançarem a calçada; os quatro, sempre juntos, sempre unidos. Até que um deles se desgarra, o de pelos pretos, sai em carreira atrás de uma gaivota, como se pudesse apanhá-la. A ave parece gostar da brincadeira, dá rasantes, o cão se anima com a possibilidade de captura; ela beija o mar, depois sobe, sobe alto, mas ainda assim o cão não desiste. Vão brincando por longos dois ou três minutos, um atrás do outro. Depois o animal se cansa, dá-se por vencido, volta devagar para o seu grupo. Ele a tudo observa e gosta do que vê, especialmente a alegria da cachorrada, e sente, ainda que sutilmente, um pequeno músculo facial saindo da inércia, mexendo-se levemente na vã tentativa de fazê-lo sorrir.
Cruza com o homem dos cães que parece caminhar encharcado de liberdade, e sente uma ponta de inveja. Inveja o despojamento, apenas uma bermuda de tactel, um colar de rodelas em feltro, pulseiras de macramê, um pau na mão.
“Boa tarde!”, ele diz.
 “Boa tarde!”, o outro responde.
Segue agora mais próximo à borda do mar. O restinho de onda que o encontra é gelado, e desperta uma sensação de refazimento. Ele sabe que o mar o conserta. Ele sabe que precisa do mar. São ondas que vêm. Ondas que vão. Olha o horizonte e pensa: “Quantos pés já não passaram aqui? Quantos pés já não deixaram suas marcas na areia, e sentiram a água gelada? Quantos olhos não avistaram o horizonte que ele agora contempla?” Pés e olhos que talvez, muitos deles, não existam mais, comidos que foram pelo fim implacável. Ele pode ser mais um. Amanhã serão outros. Mas o mar, ah, o mar será o mesmo e ficará ali por décadas, séculos, milênios. O pensamento é estranho.
Sente vontade de entrar, mas está frio. O vento é cortante. Deixa os chinelos que levava nas mãos no chão, prepara uma espécie de assento, larga-se sobre o banquinho de borracha, a vista longe num barquinho de pescador.
Não tem noção de como as coisas acontecem, mas uma certeza sólida desaba sobre ele agora: sabia desde o início que um dia terminaria assim, zanzando pela praia deserta, caminhando só numa tarde fria. Sempre soube. Tal como um déjà-vu. Uma escolha pensada. A solidão sempre lhe fora uma boa companheira. E a escolha pela solidão sempre fora consciente. 
Tira a blusa démodé de lã escura, velha, a camisa surrada de listras verticais, a bermuda bege de sarja. Amarra com firmeza a sunga preta, e sem pensar, sai andando, devagar, na direção do mar. As águas geladas o recebem, e ele, a princípio, recusa. Pensa em desistir, o frio é absurdo. Mas, à medida que vai entrando no freezer, vai ficando, e à medida que vai ficando, o corpo vai gostando. Já com água no umbigo, olha para o céu e agradece mais uma oportunidade de beber do mar.
Fica uma meia hora, depois sai e para próximo às roupas que deixara na areia. Treme. Ainda molhado, mas sem paciência de esperar a secagem natural, veste-se com a camisa de botão, a blusa. Põe a bermuda em cima da sunga molhada e dá uma olhada em tudo, como se fosse a última vez. Depois sobe até a calçada e desaparece entre os coqueirais.



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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC- 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Havia esquecido quão longe ficava meu povoado. E do calor absurdo que fazia durante o dia, nessa época do ano. Encharcadas de suor, as roupas grudavam na pele úmida e pegajosa. O sol entrava por todas as frestas e poros, insidioso e inescapável. Mesmo o mais ínfimo grão de poeira trazia em si um resto de calor. Sentia-me cozido por dentro. 

Olhei discretamente para meu companheiro de viagem. O Professor Sondaar-Dief permanecia calado, o suor porejando em grossas gotas pelo corpo. Tinha fama de grande especialista em arte primitiva, e viera atestar a autenticidade de uma descoberta arqueológica a convite de meu tio, pesquisador diletante e cientista frustrado. A peça fora encontrada em suas terras poucos meses antes, e pertenceria, segundo ele, ao povo Ineltepnac, que habitara a região antes de sumir misteriosamente. Uma raridade, portanto, de valor inestimável – se fosse verdadeira.

E eu, o que fazia eu ali, a dez extenuantes horas de viagem de minha residência? Atendia à exortação de minha tia, para que acompanhasse o Professor. Um pedido de meus amados tios era irrecusável - larguei meus afazeres, portanto, e voltei às minhas origens. 

Assim que chegamos, o Professor - recebido como um paxá, diga-se – pediu para descansar. Meu tio estava eufórico. Se autenticada a descoberta, ele empreenderia mais escavações, transformaria o lugar em sítio arqueológico. A comunidade científica o convidaria a dar palestras e... meu tio sonhava, envaidecido. Minha tia, porém, exalava ansiedade. A casa estava cheia de vizinhos e amigos que foram me ver, não tivemos sequer um momento a sós; fui obrigado a controlar minha curiosidade e impaciência.  

Somente quando todos foram embora, um pouco antes do jantar, ela me puxou para o lado e falou, baixo e urgentemente: “Querido, você precisa convencer seu tio a destruir aquela coisa. Aquela coisa é desgraçada.” 

Confesso que fiquei perturbado. Minha tia descendia de uma tradicional família de sacerdotisas da Antiga Religião, mas nunca fora afeita a superstições. Formada em economia, era a pessoa mais pragmática do mundo. Cuidava dos negócios da família com tino comercial e mão de ferro. Sim, fiquei perturbado.

Durante o jantar meu tio contou sobre sua descoberta e me surpreendeu, ao revelar que havia inscrições esculpidas na base da estátua, as quais ele gostaria que eu tentasse decifrar. Tratava-se, segundo concluíra, da representação de uma deusa da fertilidade, cultuada durante a fase próxima ao desaparecimento do povo Ineltepnac. E, se assim fosse, ele daria imediatamente início aos rituais pagãos que faziam parte da história daquela terra, desde tempos imemoriais. Vi minha tia empalidecer. 

- Minha mulher – disse – não acha que seja uma deusa da fertilidade, mas, afinal, o estudioso aqui sou eu, certo? – e deu uma de suas profundas e roucas risadas. 

O Professor Sondaar-Dief ouvia meu tio atentamente, os olhos brilhando. Se a estátua realmente fosse tudo aquilo, ele também ganharia fama, ao atestar sua autenticidade. E, se não fosse, ao menos ele comera uma excelente refeição e, de qualquer maneira, seria regiamente pago por seu incômodo.   

O jantar terminou. Minha tia deu-me um olhar de alerta antes de sairmos ao encontro da estátua, mas nada falou. Creio que ela queria que eu tirasse minhas próprias conclusões. 

 Nada parecia normal.
Não queria estragar a alegria de meu tio,
 mas havia, definitivamente,
algo estranho naquela história toda. 
Havia algo de anormal naquela noite, algo de pressago e inquietante. A lua, embora cheia, estava baça, ensombrecendo nosso caminho e, também, meu coração. Não havia o alegre zunido ou cricrilar dos insetos, nem o ruflar de asas das aves noturnas, nem mesmo o abafado rosnar dos predadores cautelosos. Não. Havia apenas um silêncio pesado e lúgubre. 

Avistamos, finalmente, a estátua. Enquanto meu tio e o Professor corriam, excitados, em sua direção, eu fiquei paralisado, o suor escorrendo pelo meu corpo, apesar da noite gelada. 

Mesmo a certa distância, eu senti minha alma se confranger violentamente, na certeza inequívoca de que 'aquilo' podia representar muita coisa. Menos coisa boa. 


Continua dia 20 de outubro a 2a e última parte


Foto: Criado por Jeswin Thomas @Jeswin - Freepik.com



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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

QUANDO OS VIVOS SE AUSENTAM DA VIDA
>> Carla Dias >>


Reconhecer-se em Para fugir dos vivos é o que nos permite a autora, Eltânia André. Isso porque as personagens do livro, especialmente o escritor avesso ao convívio social, leva o leitor a território possível. Não é difícil se imaginar no lugar dele, enquanto se lê sua história. Não é difícil se imaginar no lugar de qualquer um deles. Essa facilidade conduz o leitor a cenários complexos, nublados pela simplicidade de uma vida privada de privilégios.

Dividido em duas partes, o Livro 1 é narrado pelo escritor, que saiu de casa aos dezessete anos e tem de voltar a sua cidade, após se especializar em evitá-la. Durante a viagem, o adulto revisita a infância, mergulhando em suas tragédias particulares. Em Livro do Miguel, o ponto de vista do irmão desnivela a realidade do outro, apontando o quanto a percepção escolhe o caminho a ser percorrido, ao ter de se lidar com a aridez de uma vida desviada do afeto.

“Aprendi muito cedo que a vida é solidão.”

Entregue à solidão, reconhecida na infância, o menino se descobre capaz de se refugiar na imaginação que, mais tarde, garante a ele uma vida dedicada às palavras, ao intelecto. O pai, Fonseca, carpinteiro em um cemitério que, não raro ajudava com o serviço de coveiro, lidava melhor com os mortos do que com os vivos, principalmente os filhos. Às vezes, castigava os moleques, ainda que dele ansiassem pelo abraço. “Essas mãos, grosseiras, desajeitadas, não serviam à delicadeza de um gesto de carinho, nunca ao afago paterno”.

Apesar da falta de afeto do pai, não era ele quem agoniava mais o menino. “Ela”, como se referia à mãe, era quem ampliava o horizonte de agonias dele. Ele reconhecia a mulher como um ser dedicado ao tormento causado pela tristeza, incapaz de inspirar amor e alegria. “Ela não era feliz, então ninguém poderia ser.” Ismália Maria, a Maria Comprida, tornou-se o avesso das buscas do menino. Ao sair de casa, aos poucos, mas efetivamente, ele vai se desconectando dela. Ao menos, é assim que ele pensa, até ser obrigado a voltar ao convívio materno e ser tomado pelas lembranças.

Durante o Livro 1, o leitor trafega pelas descobertas do menino, as nuances de seu relacionamento estéril com os pais, a distância estabelecida com o irmão. Sair de casa foi como sair de cena daquela vida que o fazia encarar abandonos, o tempo todo. Foi tentar se encontrar em algum lugar que o permitisse exercer sua solidão e sua vaidade, longe do olhar desviado, porém sempre contestador e cruel da mãe, quem se torna ainda mais distante com a morte do marido.

"Um novo medo; de ficar a sós com Ela, sem o pai para, pelo menos, fazer sombra entre nós."

Ao mudar o narrador, em o Livro do Miguel a autora cria conflito com a primeira narrativa. Tudo no qual o leitor mergulhou, por meio do ponto de vista do escritor, torna-se frágil quando ele se depara com o ponto de vista daquele que ficou, conviveu com a mãe, construiu seu próprio exílio em um casamento adquirido, de acordo com o que deveria ser, não o desejado. E o desprezo pelas conquistas do irmão, o que partiu, mostra como ficar avariou o espírito do que ficou.

"Eu sei que o meu irmão já ganhou uns prêmios por aí, de que vale isso? Ele aparece nesses programas de cultura, dando entrevista. Esnobe e vaidoso."

Porém, a autora não desacredita um ou outro, e sim cria espaço para o leitor reconhecer que, talvez, haja uma terceira, quarta, quinta versão dos fatos. Principalmente ao considerar o que  ambos pensam sobre a mãe e o relacionamento do outro com ela.

No romance Para fugir dos vivos, a autora leva o leitor a uma autoanálise, uma viagem interior por meio das solidões desses personagens. E, durante essa jornada, o próprio leitor se vê em conflito, ao se deparar com as percepções daqueles meninos, estampadas nas revelações dos adultos que se tornaram.

PARA FUGIR DOS VIVOS
Eltânia André

Editora Patuá

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"Não somos necessários à sobrevivência de ninguém"



carladias.com




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