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Mostrando postagens de Outubro, 2017

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ? >> Paulo Meireles Barguil

 Do desconhecido ou do conhecido? Do escuro: de dentro ou de fora?

De mudar ou de não mudar? De ser ferido de novo ou de não ter mais o discurso de vítima? De nem tentar ou de não obter o que gostaria?

De ser amado ou de não ser amado (de novo)?

De passar vergonha ou da vergonha não passar?
De cair no abismo ou de não sair dele?

De ficar de (novo de) castigo?
De morrer ou de não viver?
Você sabe quais são as suas feridas? Você sabe que precisa ter coragem para curá-las, pois ninguém pode fazer isso por você? Qual é o seu bicho-papão de estimação? Até quando você vai dormir com ele? Até quando ele não deixará você acordar? Pelo menos o medo de não escrever a crônica quinzenal eu consegui superar! Daqui a 2 semanas, ele volta...


[Recife – Pernambuco]

[Foto de minha autoria. 20 de março de 2004]

CHAPEUZINHO PANTONE 17-1463>> Analu Faria

Para as minhas avós, Lourdinha e Maria (in memoriam).



Passando pela floresta, com uma cesta de frutas orgânicas e doces fit para a vovó, deparo-me com uma pegada de lobo que leva ao meu destino. Já sei que vai dar merda.
Chegando à casa da vovozinha, lá está o lobo, péssimo ator e maquiador que é, tentando ridiculamente se passar por ela. Minha vontade é desmascará-lo logo, porque eu tenho aula de yoga em uma hora e não posso me atrasar. Contudo, com a paciência que Shiva me deu e tentando ter alguma empatia -  afinal nunca se sabe o que levou o lobo a ser lobo - finjo que acredito que ele é a vovó.
_ Olá, vovó. _ RRRRRR Olá, minha netinha. _ É impressão minha ou a senhora rosnou, vovó? _ ... _ Vovó? _ Impressão sua. _ Vovó, onde deixo as frutas e os doces? _ Aqui,comigo, eu como agora. _ A fruta é orgânica e o doce é de batata doce. Fit, aliás. _ Então, não. _ A senhora deve estar cheia, né, vovó? Deve ter comido há pouco tempo, não? _ RRRRR…

AOS INQUIETOS >> Carla Dias >>

De todos os sonhos Arrastados pela vida afora Aquele que mais me assombra É o que nunca sonhei

Às vezes, ela age assim, como se nunca tivessem lhe confidenciado sobre a vida e seus desafios. Como se não tivesse sido educada para lidar com abandonos. São dias em que a vulnerabilidade a cerceia, vestida – elegância desalinhada – em realidade crua. Só que de crueza profunda, feito corte que não é na carne.
Pronto-socorro não adianta.
Vulnerabilidade a deixa assim, zonza, feito um Bobo da Corte parido para distrair distraídos. Munido com os piores truques para incitar gargalhadas. Destinado ao fracasso.
Zonza, mas apenas até encarar seu destino, porque já aprendeu que lidar com infortúnios exige uma coragem que não desabona o medo. É ele, o medo, que mantém sua percepção afiada.
Não raramente, aprofunda-se em si, em outros. Então, enxerga além, acompanha entrelinhas, envereda por espantos. Desvela silêncios.

Pode até não sorrir o sorriso esperado, dizer as palavras adequadas. Pode até não se co…

CAIO >> Sergio Geia

Beber dessa bebida amarga (e doce ao mesmo tempo). Entrevistas, YouTube, crônicas, contos, romances, biografias, Caio, Caio, Caio. 

Vítima dessa AIDS que levou, além dele, outros gênios como Cazuza, Renato Russo, Betinho (e tantos outros), todos contemporâneos seus, Caio nos deixou muito cedo. Por conta dessa morte prematura, à exceção de sua literatura, há pouca coisa, principalmente na internet, sobre ele. Não lembro como tudo começou. O que lembro, é que sempre tive na mira o “Morangos Mofados”, seu livro de maior sucesso. Também não lembro o motivo pelo qual eu o tinha na mira. Não sei se alguém falou bem do livro — aquele papo de “Nossa, esse livro mudou a minha vida!”, ou “Nossa, aquele disco de fulano de tal mudou a minha vida!” —, talvez alguém tenha dito “Nossa, o ‘Morangos’ do Caio Fernando Abreu mudou a minha vida!”, afinal, “Morangos Mofados” e “Feliz Ano Velho” marcaram uma geração. O que sei é que nenhum livro mudou a minha vida. Nenhum disco. Nenhum filme. O que me ocorr…

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC - 2a PARTE >> Zoraya Cesar.

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC 1ª parteMeu tio encontrara uma estátua antiga que, aparentemente, pertencera ao misteriosamente desaparecido povo Ineltepnac. Chamou o eminente Professor Sondaar-Dief para atestar a veracidade de sua descoberta. Achava, meu tio, tratar-se de uma deusa da fertilidade. Não podia estar mais enganado. Perigosamente enganado.
Que bonita era! Uma mulher alada de mais ou menos 1,60 m, em terracota, fresca e conservada, como se esculpida recentemente. Ela parecia... macia! Tive o bom senso de não a tocar, ao contrário de meu tio e do Professor Sondaar-Dief, que lhe passavam as mãos, fascinados. 
Nua, suas formas arredondadas e cheias traziam promessas de noites longas e sensuais, sugerindo fertilidade, exultava meu tio. Não, contradizia o Professor: as mãos estendidas, súplices, o sorriso lúbrico, o cabelo comprido e encaracolado demonstravam ser uma deusa do amor dos Ineltepnac. 
Embora indubitavelmente bela, mas continha uma malignidade tão óbvia, que me espantava eles…

SUA TRAGÉDIA NÃO É MINHA >> Carla Dias >>

Sua tragédia não será reconhecida, no caso da impossibilidade de enquadrá-la na televisão. Entre o comercial de amaciante de roupas e do carro de design exclusivo. Logo depois da propaganda eleitoral. Se ela não couber em discussão conduzida para transformar direitos em item opcional, muito menos importante do que instalar o ar condicionado.

Tem feito muito calor.

Sua tragédia passará despercebida, mas a culpa só pode ser sua, quem nasceu na forma, no tom, no lugar, na classe social, na cor errada. Nasceu para ser esquecido diariamente. Para ser lembrado somente quando sua luta reverberar mais do que deveria. Para calá-la, melhor conduzi-la com enredo que você jamais determinará. Enfim, ela servirá para contenção de desejo de mudança. Servirá aos que entortam seu espírito, enquanto vendem a ideia de estarem salvando sua vida.

Sua tragédia não importa. Não será discutida à mesa do jantar, durante as conversas entre os amigos a celebrarem suas conquistas, tampouco nas salas de aula. Se…

SEU NOME NUNCA MAIS SERÁ O MESMO >> Clara Braga

Renata, coitada, será sempre ingrata!
Juliana curte rock n' roll. Juliana não quer sambar. Ah, samba Juliana! O que que custa? Samba Juliana, SAMBA!
Ninguém sabe o que é passar os últimos 9 anos da sua vida ouvindo a mesma piada a respeito do seu nome. Inara sabe! Só Inara sabe o que é entrar em um recinto e ver um grupo de pessoas fingindo tocar pandeiro com as mãos e cantando: Inara, Inara, Inara, Inaraí! O pior de tudo é que esse grupo sempre acha que está sendo criativo. Inara finge que esteve privada de vida social todo esse tempo e nunca ouviu essa piada! Ou então finge ser fã número 1 de Katinguelê, dá aquela sambadinha marota, aquele sorriso amarelo e segue sua vida.
Janainas nunca serão mulheres diurnas, acordam todo dia às quatro e meia e já na hora de ir pra cama Janaina pensa que o dia não passou. Mas também né Janaina, 16:30 nem o banco está mais aberto.
Se você só pensa nela então o nome dela não é Ana, não é Denise, não é Roberta nem Marisa. Se você só pensa nela, …

VOZ >> Cristiana Moura

Passei um tempo muda de palavras escritas. Andava sem ar. Um dia depois do outro, um dia depois do outro, um dia depois do outro. Obrigações, afazeres, afetos intensos e turbulentos, implosões, muito amor. Tanta gente, tantas palavras a serem lidas, necessidades muitas a serem supridas. Faltou eu para mim. Nem percebi.
Agora, ouço uma música desenhada de vento e silêncio a reger a leitura das crônicas que escrevi antes dos meses de mutismo. Nas órbitas engendradas entre os escritos e as memórias estou reaprendendo a mim mesma.
Estou a petiscar trechos:
‘Tenho que me desapegar de mim, me abandonar.’
‘A gente vai fazendo nascer o que já existe.’
‘Os trovões explodem como os sentimentos secretos que por vezes implodem em mim.’

'A arte tem dessas coisas — adentra a vida da gente e oferece outros itinerários ao cotidiano.'
Que coisa mais linda esta: uma vez desaprendida de mim, poder revisitar-me. É como bater palmas defronte à casa da vizinha e ser convidada para um pedaço de bolo, um …

PÓ >> Paulo Meireles Barguil

"Todos vão para o mesmo lugar; vieram todos do pó e ao pó todos retornarão."
(Ecl 3, 20) Aceitar e reverenciar o efêmero é planar, com esperança, na eternidade. Rejeitar e desdenhar o transitório é aprisionar-se, com desespero, no presente. Energias tão distintas: uma vê o  mundo em cores; a outra em preto e branco, quando não em cinza...  Uma interage no mundo com as mãos abertas, distribuindo o que é; a outra só as abre para receber, quando não para tomar... Como lidar com vampiros que atacam, sem qualquer cerimônia, à luz do dia? O que fazer com a luz interior: converter ou perverter? "Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada." (Humberto Gessinger, Toda forma de poder) [Conceição do Mato Dentro – Minas Gerais] [Foto de minha autoria. 18 de julho de 2012]

ESTAÇÃO: ESPERA >> Carla Dias >>

Houve dia em que ficou à toa. E à toa deu de se perder no tempo. E o mistério do tempo foi lhe resumindo a vida. Então, que naquele dia o dia se tornou insuportavelmente inteiro. Não tinha fim, início, meio. Esparramava-se nele, engolindo suas vontades. Uma a uma, aos pares, tantas ao mesmo tempo. Até se fartar delas.

Os pés se esqueceram da cadência do passo. Cimentaram-se no chão desse dia, arrematados por um cansaço do qual não era possível se descansar. Um gemido miúdo saia dele. Um alerta mirrado, parecido com a dor mais intensa encapsulada em um desabafo exausto.

Sabia nada sobre dias que duravam uma vida. Sabia nada sobre lidar com esperas tão longas, de quando o tempo de um segundo reverberava feito semanas, meses, anos. Então, que aquele fio de tristeza se expandiu, aos berros, aos soluços, aos adjetivos desprovidos de cuidado. Foi rabiscando tudo com sua unha afiada por insolências.

Perdeu-se nesse dia, a alma condenada à indiferença da delicadeza. Nunca foi das declarações…

PARADOXOS >>Clara Braga

Um dia um nasce, no outro dia um outro morre. Esse é o ciclo da vida, estamos sempre lidando com nascimentos e mortes, literais ou não.
Nascimento e morte são duas coisas que não poderiam parecer mais opostas, afinal, uma é vista como o começo enquanto a outra é o fim. Mas se você parar para observar, vai perceber que existem mais semelhanças nesses opostos do que você poderia imaginar. Aliás, todo fim não seria a chance de um novo começo?
Tanto o nascer quanto o morrer une as pessoas e provoca em nós um estado reflexivo de extrema importância para que a gente defina o que vai ser da nossa vida a partir desse novo acontecimento.
Tanto o nascer quanto o morrer podem ser acompanhados de um sentimento de alívio. No nascer o alívio vem com a alegria de ter por perto uma nova vida, o que gera um sentimento de esperança muito louco nas pessoas. E no morrer o alívio vem acompanhado da tristeza de saber que não será mais possível conviver com aquele que se foi, mas ainda assim foi melhor a p…

CASO ENCONTRE UM LOUCO, CORRA >> André Ferrer

Fecharam-se os manicômios e gerações de loucos foram jogados no mundo. A família e a sociedade, ainda que despreparados técnica e emocionalmente, passaram a arcar com as consequências.
Os manicômios, de fato, constituíam uma calamidade, mas a alternativa escolhida foi, no mínimo, irresponsável. Em vez de modernizar o modelo de confinamento (que, a cada dia, prova-se necessário), adotou-se a solução mais fácil: cada qual que cuide do seu próprio louco domesticamente. Quando muito, em visitas a um Centro Psicossocial.
O modelo de assistência oferecido pelo poder público é remoto. Foi pensado para situações controláveis e nunca para tratar verdadeiras bombas-relógio. Tudo indica, ainda, que não está aberto para mudanças e concessões.
Casos como o do incendiário da creche deveriam provocar uma discussão nacional, mas um tiroteio em Las Vegas encanta muito mais a opinião pública do que uma carnificina em Janaúba. Deveria, no mínimo, levantar questões do tipo: será “mesmo” que os nossos velho…

ZANZANDO PELA PRAIA DESERTA >> Sergio Geia

Está só. À medida que ele anda, deixa marcas no caminho. O rastro não é linear, é sinuoso. As pegadas às vezes seguem na direção do mar, como se ele fosse entrar, molhar os pés, dar um mergulho, depois voltam em sentido contrário, mais fundas, disformes, atrapalhadas, como se a tentativa agora fosse fugir. De vez em quando ele para, olha pra trás, analisa atentamente a sinuosidade das pegadas que o seguem, abaixa, toca com as mãos as mais próximas — a delicadeza é tanta que tem a sensação de tocar um corpo de mulher. Parece gozar da textura, da maciez, experimenta a profundidade, parece sentir as curvas. Em seguida, recolhe a mão do buraco, bate uma palma na outra pra se livrar da areia, esfrega, depois endireita-se, levanta-se, olha de novo pra frente, e uma sensação de ausência lhe bate quando não vê algumas marcas que ficaram pra trás. Dá uma olhada no mar, nas ondas miúdas que quebram. Do lado oposto vem um homem com um pedaço de pau nas mãos; é seguido por cachorros. Quatro, ele …

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC- 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Havia esquecido quão longe ficava meu povoado. E do calor absurdo que fazia durante o dia, nessa época do ano. Encharcadas de suor, as roupas grudavam na pele úmida e pegajosa. O sol entrava por todas as frestas e poros, insidioso e inescapável. Mesmo o mais ínfimo grão de poeira trazia em si um resto de calor. Sentia-me cozido por dentro. 
Olhei discretamente para meu companheiro de viagem. O Professor Sondaar-Dief permanecia calado, o suor porejando em grossas gotas pelo corpo. Tinha fama de grande especialista em arte primitiva, e viera atestar a autenticidade de uma descoberta arqueológica a convite de meu tio, pesquisador diletante e cientista frustrado. A peça fora encontrada em suas terras poucos meses antes, e pertenceria, segundo ele, ao povo Ineltepnac, que habitara a região antes de sumir misteriosamente. Uma raridade, portanto, de valor inestimável – se fosse verdadeira.
E eu, o que fazia eu ali, a dez extenuantes horas de viagem de minha residência? Atendia à exortação de m…

QUANDO OS VIVOS SE AUSENTAM DA VIDA
>> Carla Dias >>

Reconhecer-se em Para fugir dos vivos é o que nos permite a autora, Eltânia André. Isso porque as personagens do livro, especialmente o escritor avesso ao convívio social, leva o leitor a território possível. Não é difícil se imaginar no lugar dele, enquanto se lê sua história. Não é difícil se imaginar no lugar de qualquer um deles. Essa facilidade conduz o leitor a cenários complexos, nublados pela simplicidade de uma vida privada de privilégios.

Dividido em duas partes, o Livro 1 é narrado pelo escritor, que saiu de casa aos dezessete anos e tem de voltar a sua cidade, após se especializar em evitá-la. Durante a viagem, o adulto revisita a infância, mergulhando em suas tragédias particulares. Em Livro do Miguel, o ponto de vista do irmão desnivela a realidade do outro, apontando o quanto a percepção escolhe o caminho a ser percorrido, ao ter de se lidar com a aridez de uma vida desviada do afeto.

“Aprendi muito cedo que a vida é solidão.”

Entregue à solidão, reconhecida na infânci…