sábado, 14 de outubro de 2017

VOZ >> Cristiana Moura

Passei um tempo muda de palavras escritas. Andava sem ar. Um dia depois do outro, um dia depois do outro, um dia depois do outro. Obrigações, afazeres, afetos intensos e turbulentos, implosões, muito amor. Tanta gente, tantas palavras a serem lidas, necessidades muitas a serem supridas. Faltou eu para mim. Nem percebi.

Agora, ouço uma música desenhada de vento e silêncio a reger a leitura das crônicas que escrevi antes dos meses de mutismo. Nas órbitas engendradas entre os escritos e as memórias estou reaprendendo a mim mesma.

Estou a petiscar trechos:

‘Tenho que me desapegar de mim, me abandonar.’

‘A gente vai fazendo nascer o que já existe.’

‘Os trovões explodem como os sentimentos secretos que por vezes implodem em mim.’

'A arte tem dessas coisas — adentra a vida da gente e oferece outros itinerários ao cotidiano.'

Que coisa mais linda esta: uma vez desaprendida de mim,  poder revisitar-me. É como bater palmas defronte à casa da vizinha e ser convidada para um pedaço de bolo, um café, um fuxico.

Recuperei a voz.




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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

PÓ >> Paulo Meireles Barguil

   
"Todos vão para o mesmo lugar;
vieram todos do pó e ao pó todos retornarão."
(Ecl 3, 20)
 
Aceitar e reverenciar o efêmero é planar, com esperança, na eternidade.
 
Rejeitar e desdenhar o transitório é aprisionar-se, com desespero, no presente.
 
Energias tão distintas: uma vê o  mundo em cores; a outra em preto e branco, quando não em cinza... 
 
Uma interage no mundo com as mãos abertas, distribuindo o que é; a outra só as abre para receber, quando não para tomar...
 
Como lidar com vampiros que atacam, sem qualquer cerimônia, à luz do dia?
 
O que fazer com a luz interior: converter ou perverter?
 
"Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada."
(Humberto Gessinger, Toda forma de poder)
 
 
[Conceição do Mato Dentro  Minas Gerais]
 
[Foto de minha autoria. 18 de julho de 2012]


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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

ESTAÇÃO: ESPERA >> Carla Dias >>


Houve dia em que ficou à toa. E à toa deu de se perder no tempo. E o mistério do tempo foi lhe resumindo a vida. Então, que naquele dia o dia se tornou insuportavelmente inteiro. Não tinha fim, início, meio. Esparramava-se nele, engolindo suas vontades. Uma a uma, aos pares, tantas ao mesmo tempo. Até se fartar delas.

Os pés se esqueceram da cadência do passo. Cimentaram-se no chão desse dia, arrematados por um cansaço do qual não era possível se descansar. Um gemido miúdo saia dele. Um alerta mirrado, parecido com a dor mais intensa encapsulada em um desabafo exausto.

Sabia nada sobre dias que duravam uma vida. Sabia nada sobre lidar com esperas tão longas, de quando o tempo de um segundo reverberava feito semanas, meses, anos. Então, que aquele fio de tristeza se expandiu, aos berros, aos soluços, aos adjetivos desprovidos de cuidado. Foi rabiscando tudo com sua unha afiada por insolências.

Perdeu-se nesse dia, a alma condenada à indiferença da delicadeza. Nunca foi das declarações de afeto, mas as declamaria, agora, mil e todas, durante esse dia sem fim, feito novena, soubesse como fugir desse dia engolido pelo desaprumo do tempo.

Sempre teve suas diferenças com o tempo, com o hábito dele de passar apressado durante o prazer; de seguir arrastado, ao longo do padecimento. Ainda assim, nunca experimentara de tal estiramento. De cada tomada de fôlego acontecendo feito capítulo de novela. Do pensamento se desdobrando numa lentidão que o incapacitava a se lembrar do início dele, do que se tratava.

Seu corpo domesticado pelo dia que dura o quê? Semana e meia... Mês. Suando frio, padece de espera pelo o que não controla. É tormento inadequado, que vandaliza com sua sempre tão domesticada capacidade de lidar com as coisas da vida. Aquelas coisas básicas, que não berram em seus ouvidos a brutalidade do desejo por algo mais.

Algo mais vandaliza com a paz de espírito dele.

Feito esse dia ao qual ele sobrevive como se tivesse envelhecido décadas. Talvez, possa até se enxergar no espelho do tempo-capataz que o domina, cabelos grisalhos, pele lasseada.

Deseja o fim do destempero do tempo que passa sem passar. Torna-se religioso ao recorrer ao Deus, lançando um pedido de liberdade. Quer sair desse círculo do tempo, dessa espera que já dura cinco vidas e cento suspiros. Quer recuperar a mobilidade do corpo travado pela espera e por todos os significados que ela abarca.

Então, que os sons despontaram, amplificados, plurais, misturados. Os cheiros se manifestaram: comida, flores e perfumes. O tempo o libertou, assim que esse dia, que parecia ter durado dez vidas de aprisionamento, voltou ao seu ritmo, devidamente combinado à irreverente taquicardia que o tomou, ao vê-la entrar no restaurante.

Imagem: The Lovers © George Tooker

carladias.com



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terça-feira, 10 de outubro de 2017

PARADOXOS >>Clara Braga

Um dia um nasce, no outro dia um outro morre. Esse é o ciclo da vida, estamos sempre lidando com nascimentos e mortes, literais ou não.

Nascimento e morte são duas coisas que não poderiam parecer mais opostas, afinal, uma é vista como o começo enquanto a outra é o fim. Mas se você parar para observar, vai perceber que existem mais semelhanças nesses opostos do que você poderia imaginar. Aliás, todo fim não seria a chance de um novo começo?

Tanto o nascer quanto o morrer une as pessoas e provoca em nós um estado reflexivo de extrema importância para que a gente defina o que vai ser da nossa vida a partir desse novo acontecimento.

Tanto o nascer quanto o morrer podem ser acompanhados de um sentimento de alívio. No nascer o alívio vem com a alegria de ter por perto uma nova vida, o que gera um sentimento de esperança muito louco nas pessoas. E no morrer o alívio vem acompanhado da tristeza de saber que não será mais possível conviver com aquele que se foi, mas ainda assim foi melhor a pessoa parar de sofrer (claro que nesse caso não estou incluindo as mortes repentinas, essas geram um outro sentimento).

Tanto o nascer quanto o morrer podem nos transformar em pessoas totalmente dependentes umas das outras.

Tanto o nascer quanto o morrer são capazes de romper ou reatar laços.

Tanto o nascer quanto o morrer emocionam até as pessoas mais racionais.

Tanto o nascer quanto o morrer geram momentos que vamos levar para a vida toda.

Enfim, poderia enumerar diversas semelhanças, mas a questão é que o nascer e o morrer são tão marcantes na vida das pessoas pois um nos faz enfrentar o “para sempre” enquanto o outro nos coloca cara a cara com o “nunca mais”, não podia ser fácil...

   


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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

CASO ENCONTRE UM LOUCO, CORRA >> André Ferrer

Fecharam-se os manicômios e gerações de loucos foram jogados no mundo. A família e a sociedade, ainda que despreparados técnica e emocionalmente, passaram a arcar com as consequências.

Os manicômios, de fato, constituíam uma calamidade, mas a alternativa escolhida foi, no mínimo, irresponsável. Em vez de modernizar o modelo de confinamento (que, a cada dia, prova-se necessário), adotou-se a solução mais fácil: cada qual que cuide do seu próprio louco domesticamente. Quando muito, em visitas a um Centro Psicossocial.

O modelo de assistência oferecido pelo poder público é remoto. Foi pensado para situações controláveis e nunca para tratar verdadeiras bombas-relógio. Tudo indica, ainda, que não está aberto para mudanças e concessões.

Casos como o do incendiário da creche deveriam provocar uma discussão nacional, mas um tiroteio em Las Vegas encanta muito mais a opinião pública do que uma carnificina em Janaúba. Deveria, no mínimo, levantar questões do tipo: será “mesmo” que os nossos velhos "depósitos de gente" eram, de todo, ruins? Será que uma reestruturação do modelo não diminuiria, pelo menos, a presença de potenciais incineradores de crianças aqui fora?

Anos atrás, um desses loucos entrou numa livraria, em plena Avenida Paulista e escolheu alguém sem motivo algum. Sorrateiro, aproximou-se de um homem que, tranquila e distraidamente, escolhia um livro.

O desequilibrado trazia um taco de basebol escondido na mochila (onde encontraram um facão logo em seguida). O golpe foi no alto da cabeça. Depois de meses numa UTI, a vítima faleceu.

Quando eu soube do ocorrido na creche mineira, lembrei-me do caso da Livraria Cultura. Pessoas doentes, famílias despreparadas ou relapsas, o Estado e a sua incapacidade irreversível. Oremos fervorosamente por Las Vegas.


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sábado, 7 de outubro de 2017

ZANZANDO PELA PRAIA DESERTA >> Sergio Geia



Está só. À medida que ele anda, deixa marcas no caminho. O rastro não é linear, é sinuoso. As pegadas às vezes seguem na direção do mar, como se ele fosse entrar, molhar os pés, dar um mergulho, depois voltam em sentido contrário, mais fundas, disformes, atrapalhadas, como se a tentativa agora fosse fugir. De vez em quando ele para, olha pra trás, analisa atentamente a sinuosidade das pegadas que o seguem, abaixa, toca com as mãos as mais próximas — a delicadeza é tanta que tem a sensação de tocar um corpo de mulher. Parece gozar da textura, da maciez, experimenta a profundidade, parece sentir as curvas. Em seguida, recolhe a mão do buraco, bate uma palma na outra pra se livrar da areia, esfrega, depois endireita-se, levanta-se, olha de novo pra frente, e uma sensação de ausência lhe bate quando não vê algumas marcas que ficaram pra trás. Dá uma olhada no mar, nas ondas miúdas que quebram.
Do lado oposto vem um homem com um pedaço de pau nas mãos; é seguido por cachorros. Quatro, ele conta. Parecem crianças numa espécie de Playcenter, tamanha a felicidade.  Eles correm, entram no mar, pulam um sobre o outro, depois seguem para a areia, brincam mais um pouco, até alcançarem a calçada; os quatro, sempre juntos, sempre unidos. Até que um deles se desgarra, o de pelos pretos, sai em carreira atrás de uma gaivota, como se pudesse apanhá-la. A ave parece gostar da brincadeira, dá rasantes, o cão se anima com a possibilidade de captura; ela beija o mar, depois sobe, sobe alto, mas ainda assim o cão não desiste. Vão brincando por longos dois ou três minutos, um atrás do outro. Depois o animal se cansa, dá-se por vencido, volta devagar para o seu grupo. Ele a tudo observa e gosta do que vê, especialmente a alegria da cachorrada, e sente, ainda que sutilmente, um pequeno músculo facial saindo da inércia, mexendo-se levemente na vã tentativa de fazê-lo sorrir.
Cruza com o homem dos cães que parece caminhar encharcado de liberdade, e sente uma ponta de inveja. Inveja o despojamento, apenas uma bermuda de tactel, um colar de rodelas em feltro, pulseiras de macramê, um pau na mão.
“Boa tarde!”, ele diz.
 “Boa tarde!”, o outro responde.
Segue agora mais próximo à borda do mar. O restinho de onda que o encontra é gelado, e desperta uma sensação de refazimento. Ele sabe que o mar o conserta. Ele sabe que precisa do mar. São ondas que vêm. Ondas que vão. Olha o horizonte e pensa: “Quantos pés já não passaram aqui? Quantos pés já não deixaram suas marcas na areia, e sentiram a água gelada? Quantos olhos não avistaram o horizonte que ele agora contempla?” Pés e olhos que talvez, muitos deles, não existam mais, comidos que foram pelo fim implacável. Ele pode ser mais um. Amanhã serão outros. Mas o mar, ah, o mar será o mesmo e ficará ali por décadas, séculos, milênios. O pensamento é estranho.
Sente vontade de entrar, mas está frio. O vento é cortante. Deixa os chinelos que levava nas mãos no chão, prepara uma espécie de assento, larga-se sobre o banquinho de borracha, a vista longe num barquinho de pescador.
Não tem noção de como as coisas acontecem, mas uma certeza sólida desaba sobre ele agora: sabia desde o início que um dia terminaria assim, zanzando pela praia deserta, caminhando só numa tarde fria. Sempre soube. Tal como um déjà-vu. Uma escolha pensada. A solidão sempre lhe fora uma boa companheira. E a escolha pela solidão sempre fora consciente. 
Tira a blusa démodé de lã escura, velha, a camisa surrada de listras verticais, a bermuda bege de sarja. Amarra com firmeza a sunga preta, e sem pensar, sai andando, devagar, na direção do mar. As águas geladas o recebem, e ele, a princípio, recusa. Pensa em desistir, o frio é absurdo. Mas, à medida que vai entrando no freezer, vai ficando, e à medida que vai ficando, o corpo vai gostando. Já com água no umbigo, olha para o céu e agradece mais uma oportunidade de beber do mar.
Fica uma meia hora, depois sai e para próximo às roupas que deixara na areia. Treme. Ainda molhado, mas sem paciência de esperar a secagem natural, veste-se com a camisa de botão, a blusa. Põe a bermuda em cima da sunga molhada e dá uma olhada em tudo, como se fosse a última vez. Depois sobe até a calçada e desaparece entre os coqueirais.



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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC- 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Havia esquecido quão longe ficava meu povoado. E do calor absurdo que fazia durante o dia, nessa época do ano. Encharcadas de suor, as roupas grudavam na pele úmida e pegajosa. O sol entrava por todas as frestas e poros, insidioso e inescapável. Mesmo o mais ínfimo grão de poeira trazia em si um resto de calor. Sentia-me cozido por dentro. 

Olhei discretamente para meu companheiro de viagem. O Professor Sondaar-Dief permanecia calado, o suor porejando em grossas gotas pelo corpo. Tinha fama de grande especialista em arte primitiva, e viera atestar a autenticidade de uma descoberta arqueológica a convite de meu tio, pesquisador diletante e cientista frustrado. A peça fora encontrada em suas terras poucos meses antes, e pertenceria, segundo ele, ao povo Ineltepnac, que habitara a região antes de sumir misteriosamente. Uma raridade, portanto, de valor inestimável – se fosse verdadeira.

E eu, o que fazia eu ali, a dez extenuantes horas de viagem de minha residência? Atendia à exortação de minha tia, para que acompanhasse o Professor. Um pedido de meus amados tios era irrecusável - larguei meus afazeres, portanto, e voltei às minhas origens. 

Assim que chegamos, o Professor - recebido como um paxá, diga-se – pediu para descansar. Meu tio estava eufórico. Se autenticada a descoberta, ele empreenderia mais escavações, transformaria o lugar em sítio arqueológico. A comunidade científica o convidaria a dar palestras e... meu tio sonhava, envaidecido. Minha tia, porém, exalava ansiedade. A casa estava cheia de vizinhos e amigos que foram me ver, não tivemos sequer um momento a sós; fui obrigado a controlar minha curiosidade e impaciência.  

Somente quando todos foram embora, um pouco antes do jantar, ela me puxou para o lado e falou, baixo e urgentemente: “Querido, você precisa convencer seu tio a destruir aquela coisa. Aquela coisa é desgraçada.” 

Confesso que fiquei perturbado. Minha tia descendia de uma tradicional família de sacerdotisas da Antiga Religião, mas nunca fora afeita a superstições. Formada em economia, era a pessoa mais pragmática do mundo. Cuidava dos negócios da família com tino comercial e mão de ferro. Sim, fiquei perturbado.

Durante o jantar meu tio contou sobre sua descoberta e me surpreendeu, ao revelar que havia inscrições esculpidas na base da estátua, as quais ele gostaria que eu tentasse decifrar. Tratava-se, segundo concluíra, da representação de uma deusa da fertilidade, cultuada durante a fase próxima ao desaparecimento do povo Ineltepnac. E, se assim fosse, ele daria imediatamente início aos rituais pagãos que faziam parte da história daquela terra, desde tempos imemoriais. Vi minha tia empalidecer. 

- Minha mulher – disse – não acha que seja uma deusa da fertilidade, mas, afinal, o estudioso aqui sou eu, certo? – e deu uma de suas profundas e roucas risadas. 

O Professor Sondaar-Dief ouvia meu tio atentamente, os olhos brilhando. Se a estátua realmente fosse tudo aquilo, ele também ganharia fama, ao atestar sua autenticidade. E, se não fosse, ao menos ele comera uma excelente refeição e, de qualquer maneira, seria regiamente pago por seu incômodo.   

O jantar terminou. Minha tia deu-me um olhar de alerta antes de sairmos ao encontro da estátua, mas nada falou. Creio que ela queria que eu tirasse minhas próprias conclusões. 

 Nada parecia normal.
Não queria estragar a alegria de meu tio,
 mas havia, definitivamente,
algo estranho naquela história toda. 
Havia algo de anormal naquela noite, algo de pressago e inquietante. A lua, embora cheia, estava baça, ensombrecendo nosso caminho e, também, meu coração. Não havia o alegre zunido ou cricrilar dos insetos, nem o ruflar de asas das aves noturnas, nem mesmo o abafado rosnar dos predadores cautelosos. Não. Havia apenas um silêncio pesado e lúgubre. 

Avistamos, finalmente, a estátua. Enquanto meu tio e o Professor corriam, excitados, em sua direção, eu fiquei paralisado, o suor escorrendo pelo meu corpo, apesar da noite gelada. 

Mesmo a certa distância, eu senti minha alma se confranger violentamente, na certeza inequívoca de que 'aquilo' podia representar muita coisa. Menos coisa boa. 


Continua dia 20 de outubro a 2a e última parte


Foto: Criado por Jeswin Thomas @Jeswin - Freepik.com



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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

QUANDO OS VIVOS SE AUSENTAM DA VIDA
>> Carla Dias >>


Reconhecer-se em Para fugir dos vivos é o que nos permite a autora, Eltânia André. Isso porque as personagens do livro, especialmente o escritor avesso ao convívio social, leva o leitor a território possível. Não é difícil se imaginar no lugar dele, enquanto se lê sua história. Não é difícil se imaginar no lugar de qualquer um deles. Essa facilidade conduz o leitor a cenários complexos, nublados pela simplicidade de uma vida privada de privilégios.

Dividido em duas partes, o Livro 1 é narrado pelo escritor, que saiu de casa aos dezessete anos e tem de voltar a sua cidade, após se especializar em evitá-la. Durante a viagem, o adulto revisita a infância, mergulhando em suas tragédias particulares. Em Livro do Miguel, o ponto de vista do irmão desnivela a realidade do outro, apontando o quanto a percepção escolhe o caminho a ser percorrido, ao ter de se lidar com a aridez de uma vida desviada do afeto.

“Aprendi muito cedo que a vida é solidão.”

Entregue à solidão, reconhecida na infância, o menino se descobre capaz de se refugiar na imaginação que, mais tarde, garante a ele uma vida dedicada às palavras, ao intelecto. O pai, Fonseca, carpinteiro em um cemitério que, não raro ajudava com o serviço de coveiro, lidava melhor com os mortos do que com os vivos, principalmente os filhos. Às vezes, castigava os moleques, ainda que dele ansiassem pelo abraço. “Essas mãos, grosseiras, desajeitadas, não serviam à delicadeza de um gesto de carinho, nunca ao afago paterno”.

Apesar da falta de afeto do pai, não era ele quem agoniava mais o menino. “Ela”, como se referia à mãe, era quem ampliava o horizonte de agonias dele. Ele reconhecia a mulher como um ser dedicado ao tormento causado pela tristeza, incapaz de inspirar amor e alegria. “Ela não era feliz, então ninguém poderia ser.” Ismália Maria, a Maria Comprida, tornou-se o avesso das buscas do menino. Ao sair de casa, aos poucos, mas efetivamente, ele vai se desconectando dela. Ao menos, é assim que ele pensa, até ser obrigado a voltar ao convívio materno e ser tomado pelas lembranças.

Durante o Livro 1, o leitor trafega pelas descobertas do menino, as nuances de seu relacionamento estéril com os pais, a distância estabelecida com o irmão. Sair de casa foi como sair de cena daquela vida que o fazia encarar abandonos, o tempo todo. Foi tentar se encontrar em algum lugar que o permitisse exercer sua solidão e sua vaidade, longe do olhar desviado, porém sempre contestador e cruel da mãe, quem se torna ainda mais distante com a morte do marido.

"Um novo medo; de ficar a sós com Ela, sem o pai para, pelo menos, fazer sombra entre nós."

Ao mudar o narrador, em o Livro do Miguel a autora cria conflito com a primeira narrativa. Tudo no qual o leitor mergulhou, por meio do ponto de vista do escritor, torna-se frágil quando ele se depara com o ponto de vista daquele que ficou, conviveu com a mãe, construiu seu próprio exílio em um casamento adquirido, de acordo com o que deveria ser, não o desejado. E o desprezo pelas conquistas do irmão, o que partiu, mostra como ficar avariou o espírito do que ficou.

"Eu sei que o meu irmão já ganhou uns prêmios por aí, de que vale isso? Ele aparece nesses programas de cultura, dando entrevista. Esnobe e vaidoso."

Porém, a autora não desacredita um ou outro, e sim cria espaço para o leitor reconhecer que, talvez, haja uma terceira, quarta, quinta versão dos fatos. Principalmente ao considerar o que  ambos pensam sobre a mãe e o relacionamento do outro com ela.

No romance Para fugir dos vivos, a autora leva o leitor a uma autoanálise, uma viagem interior por meio das solidões desses personagens. E, durante essa jornada, o próprio leitor se vê em conflito, ao se deparar com as percepções daqueles meninos, estampadas nas revelações dos adultos que se tornaram.

PARA FUGIR DOS VIVOS
Eltânia André

Editora Patuá

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"Não somos necessários à sobrevivência de ninguém"



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terça-feira, 3 de outubro de 2017

BENZENDO A INVEJA >> Clara Braga

Quem não conhece um invejoso que atire a primeira pedra. Os invejosos estão por toda parte, e todos acabamos tendo que conviver com um ou outro. De membros da nossa família até um colega distante do trabalho, não adianta, ninguém está livre dos olhos de um invejoso.

Verdade seja dita, no fundo todos nós já sentimos uma pontinha de inveja em algum momento, mas não passou de algo momentâneo e não prejudicial, que é a chamada inveja branca. Além do invejoso branco tem também o invejoso descarado, que é aquele que quando você comenta que vai fazer uma viagem ou algo do tipo ele fala logo: nossa, que inveja! Mas também não passa disso, algo não prejudicial. Aí tem o invejoso falso amigo, que é aquele que finge que está super feliz por alguma conquista sua, mas no fundo ele está se mordendo por dentro. E se alguma coisa dá errado no meio do caminho, ele vai ser o primeiro a dizer que sente muito, mas no fundo estará feliz.

Nesse último tipo as coisas já começam a ficar mais complicadas, mas o que eu considero o pior de todos é o invejoso curioso. O invejoso curioso parece não ter mais nada para fazer da vida, então passa o tempo cuidando da vida dos outros. Fale que vai casar e ele quer logo saber se vai ser convidado, que é para poder avaliar quanto você gastou, se a festa foi bonita, se seu vestido estava bom e etc. Fale que está grávida ele quer logo saber quanto você engordou, se muita gente esteve presente no chá de fraldas, se o menino nasceu parecido com o pai ou com a mãe, se o parto teve alguma complicação e assim por diante. A energia que esse tipo de invejoso libera para cima de você não é nada agradável, e assim surgiram as tais mandingas que se faz para não pegar o tal do olho gordo.

Até a pessoa menos supersticiosa do mundo conhece alguma mandinga. Tem o clássico banho de sal grosso ou então banho com pétalas de rosas brancas. Tem a famosa rezadeira que pode benzer. Tem a pimentinha que filtra esse tipo de energia. Enfim, o que não falta são soluções para se livrar do mal olhado. Mas se você for do tipo que não acredita muito nessas coisas, mas ainda assim acha melhor prevenir do que remediar, vai achar que essas atividades são um tanto trabalhosas, afinal, como é que se toma banho de sal grosso? Onde eu vou arrumar uma benzedeira? A pimentinha tem que molhar de quantos em quantos dias? Todas as plantas que tive acabaram morrendo por falta de cuidados.

Se, assim como eu, você não é uma pessoa com disciplina suficiente para tomar um banho de sal grosso, vou lhe apresentar um novo mantra que aprendi com uma amiga e que é a forma mais simples que já me ensinaram de lidar com o olho gordo. Ela disse ter aprendido com a mãe dela, que é do Piauí. Ela criou duas filhas usando esse mantra e nenhum olho gordo pegou, então agora que sou mãe, ela compartilhou comigo para que olho gordo nenhum chegue no meu filho.

Pegue a caneta e o papel, a receita é muito simples. Quando alguém chegar elogiando demais, querendo saber demais sobre algo, demonstrando aquela inveja que não é bacana, você apenas repete mentalmente a seguinte frase: beija meu c*! Sim, é simples assim! Basta ficar repetindo mentalmente essa frase e olho gordo nenhum se aproximará.

Achei tão simples que já estou testando, agora sempre que sinto uma inveja batendo ou uma energia não muito interessante por perto já começo a mentalizar o mantra. Meu problema é só lembrar de não verbalizar, afinal um mantra desse em voz alta pode pegar muito mal!


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