segunda-feira, 9 de outubro de 2017

CASO ENCONTRE UM LOUCO, CORRA >> André Ferrer

Fecharam-se os manicômios e gerações de loucos foram jogados no mundo. A família e a sociedade, ainda que despreparados técnica e emocionalmente, passaram a arcar com as consequências.

Os manicômios, de fato, constituíam uma calamidade, mas a alternativa escolhida foi, no mínimo, irresponsável. Em vez de modernizar o modelo de confinamento (que, a cada dia, prova-se necessário), adotou-se a solução mais fácil: cada qual que cuide do seu próprio louco domesticamente. Quando muito, em visitas a um Centro Psicossocial.

O modelo de assistência oferecido pelo poder público é remoto. Foi pensado para situações controláveis e nunca para tratar verdadeiras bombas-relógio. Tudo indica, ainda, que não está aberto para mudanças e concessões.

Casos como o do incendiário da creche deveriam provocar uma discussão nacional, mas um tiroteio em Las Vegas encanta muito mais a opinião pública do que uma carnificina em Janaúba. Deveria, no mínimo, levantar questões do tipo: será “mesmo” que os nossos velhos "depósitos de gente" eram, de todo, ruins? Será que uma reestruturação do modelo não diminuiria, pelo menos, a presença de potenciais incineradores de crianças aqui fora?

Anos atrás, um desses loucos entrou numa livraria, em plena Avenida Paulista e escolheu alguém sem motivo algum. Sorrateiro, aproximou-se de um homem que, tranquila e distraidamente, escolhia um livro.

O desequilibrado trazia um taco de basebol escondido na mochila (onde encontraram um facão logo em seguida). O golpe foi no alto da cabeça. Depois de meses numa UTI, a vítima faleceu.

Quando eu soube do ocorrido na creche mineira, lembrei-me do caso da Livraria Cultura. Pessoas doentes, famílias despreparadas ou relapsas, o Estado e a sua incapacidade irreversível. Oremos fervorosamente por Las Vegas.


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