Pular para o conteúdo principal

CHAPEUZINHO PANTONE 17-1463>> Analu Faria

                                          Para as minhas avós, Lourdinha e Maria (in memoriam).



Passando pela floresta, com uma cesta de frutas orgânicas e doces fit para a vovó, deparo-me com uma pegada de lobo que leva ao meu destino. Já sei que vai dar merda.

Chegando à casa da vovozinha, lá está o lobo, péssimo ator e maquiador que é, tentando ridiculamente se passar por ela. Minha vontade é desmascará-lo logo, porque eu tenho aula de yoga em uma hora e não posso me atrasar. Contudo, com a paciência que Shiva me deu e tentando ter alguma empatia -  afinal nunca se sabe o que levou o lobo a ser lobo - finjo que acredito que ele é a vovó.

_ Olá, vovó.
_ RRRRRR Olá, minha netinha.
_ É impressão minha ou a senhora rosnou, vovó?
_ ...
_ Vovó?
_ Impressão sua.
_ Vovó, onde deixo as frutas e os doces?
_ Aqui,comigo, eu como agora.
_ A fruta é orgânica e o doce é de batata doce. Fit, aliás.
_ Então, não.
_ A senhora deve estar cheia, né, vovó? Deve ter comido há pouco tempo, não?
_ RRRRRR por que você diz isso? - faz o lobo, tentando esconder o bucho inchado por ter comido a minha pobre vovozinha.
_ Nada.
_ Vem aqui mais perto, minha netinha.
_ Não, vovó, a senhora tá com um bafo horrível. Eu já estou de saída, tenho aquela aula de yoga que te falei. Mas antes... me responde umas perguntas, vovó?
_ Que perguntas?
_ Será que esses seus olhos grandes não são uma metáfora do consumismo desenfreado da nossa época?
_ Hein?
_ E essas mãos grandes, será que elas não seriam para massagear o seu ego?
_ Não, são pra passar nas novi... digo, para te abraçar.
_ Sabe o que é, vovó... eu andei pensando que a senhora está meio estranha ultimamente. Lá fora, por exemplo, caída na varanda, tem uma camiseta com os dizeres "Artista é tudo vagabundo".
_ Err... não sei como foi parar ali.
_ Seus amigos também não a veem há muito tempo. O Rogério e o namorado reclamaram que a senhora anda sumida.
_ VÁ DE RETRO! EU NÃO TENHO AMIGO VIADO!
_ O que a senhora anda lendo, vovó? Que influências estão mudando essa cabecinha?
_ Só leio coisa boa, para o seu governo! Quer dizer, eu abro uma exceção às vezes e leio aquela porcaria que você escreve.
_ Às vezes, vovó?
_ Tá bom, vai. Eu leio sempre.  Também te sigo no Facebook, no Twitter e no Instagram.
_ Nossa, a senhora tá muito stalker, vovó.
_ Aliás, sua pentelha - O lobo muda de repente de tom - Quem tem que te fazer umas perguntas sou eu.
_ Ah, é, vovó?
_  De onde você tira aquilo ali, hein?  Pra mim o que você escreve só pode ser...
_ Só pode ser o que, vovó?
_ Dor de cotovelo, falta de louça pra lavar, falta de...
_ A dor é no pé, vovó, fraturei fazendo stand-up paddle, lembra? E tem uma pilha de louça suja aí atrás da senhora também...
_ Velha bagunceira - balbucia o lobo.
_ O que disse, vovó?
_ Eu disse que lugar de mulher é na cozinha.
_ Que é isso, vovó?? A senhora nunca foi assim.

Nesse instante, ouço uma voz abafada que vem de dentro do lobo :

_ Já chega, usa a serra elétrica que eu comprei no Mercado Livre! Tá perto da porta!

Rapidamente abro a porta da frente, pego a serra elétrica e parto para cima do lobo. Preciso acabar logo com o sofrimento de minha avó. Além disso, que Shakti me perdoe, mas eu dei muitas chances para esse lobinho  tosco  com sérios problemas de autoimagem. Antes, porém, de cortá-lo da virilha ao pescoço, ainda pergunto:

_ Quais são suas últimas palavras?
_ Bolsonaro 2018.
_  Cooooooortaaaa!!! - ouço minha vovozinha gritar de dentro do bicho.

Contra uma serra elétrica ninguém pode. Nem um lobo bolsominion. Pena é ter voado sangue para tudo quanto é lado - sujou meu tapetinho de yoga, minha roupa, o cabelo que eu tinha acabado de hidratar com uma máscara de ojon. O importante é que vovó está bem e inteira.

_ Não entendi por que você demorou tanto, minha filha.
_ Tentei a empatia, vovó.
_ A gente tem sempre que tentar, né, minha querida? Boa menina!



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …