sábado, 14 de outubro de 2017

VOZ >> Cristiana Moura

Passei um tempo muda de palavras escritas. Andava sem ar. Um dia depois do outro, um dia depois do outro, um dia depois do outro. Obrigações, afazeres, afetos intensos e turbulentos, implosões, muito amor. Tanta gente, tantas palavras a serem lidas, necessidades muitas a serem supridas. Faltou eu para mim. Nem percebi.

Agora, ouço uma música desenhada de vento e silêncio a reger a leitura das crônicas que escrevi antes dos meses de mutismo. Nas órbitas engendradas entre os escritos e as memórias estou reaprendendo a mim mesma.

Estou a petiscar trechos:

‘Tenho que me desapegar de mim, me abandonar.’

‘A gente vai fazendo nascer o que já existe.’

‘Os trovões explodem como os sentimentos secretos que por vezes implodem em mim.’

'A arte tem dessas coisas — adentra a vida da gente e oferece outros itinerários ao cotidiano.'

Que coisa mais linda esta: uma vez desaprendida de mim,  poder revisitar-me. É como bater palmas defronte à casa da vizinha e ser convidada para um pedaço de bolo, um café, um fuxico.

Recuperei a voz.




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4 comentários:

sergio geia disse...

E que voz.
Não nos abandone.

Cristiana Moura disse...

😉

Eden disse...

Bela voz manuscrita. :-)

Zoraya Cesar disse...

Que doçura, Cris. Belíssimo texto, maravilhosa reflexão!