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ESTAÇÃO: ESPERA >> Carla Dias >>


Houve dia em que ficou à toa. E à toa deu de se perder no tempo. E o mistério do tempo foi lhe resumindo a vida. Então, que naquele dia o dia se tornou insuportavelmente inteiro. Não tinha fim, início, meio. Esparramava-se nele, engolindo suas vontades. Uma a uma, aos pares, tantas ao mesmo tempo. Até se fartar delas.

Os pés se esqueceram da cadência do passo. Cimentaram-se no chão desse dia, arrematados por um cansaço do qual não era possível se descansar. Um gemido miúdo saia dele. Um alerta mirrado, parecido com a dor mais intensa encapsulada em um desabafo exausto.

Sabia nada sobre dias que duravam uma vida. Sabia nada sobre lidar com esperas tão longas, de quando o tempo de um segundo reverberava feito semanas, meses, anos. Então, que aquele fio de tristeza se expandiu, aos berros, aos soluços, aos adjetivos desprovidos de cuidado. Foi rabiscando tudo com sua unha afiada por insolências.

Perdeu-se nesse dia, a alma condenada à indiferença da delicadeza. Nunca foi das declarações de afeto, mas as declamaria, agora, mil e todas, durante esse dia sem fim, feito novena, soubesse como fugir desse dia engolido pelo desaprumo do tempo.

Sempre teve suas diferenças com o tempo, com o hábito dele de passar apressado durante o prazer; de seguir arrastado, ao longo do padecimento. Ainda assim, nunca experimentara de tal estiramento. De cada tomada de fôlego acontecendo feito capítulo de novela. Do pensamento se desdobrando numa lentidão que o incapacitava a se lembrar do início dele, do que se tratava.

Seu corpo domesticado pelo dia que dura o quê? Semana e meia... Mês. Suando frio, padece de espera pelo o que não controla. É tormento inadequado, que vandaliza com sua sempre tão domesticada capacidade de lidar com as coisas da vida. Aquelas coisas básicas, que não berram em seus ouvidos a brutalidade do desejo por algo mais.

Algo mais vandaliza com a paz de espírito dele.

Feito esse dia ao qual ele sobrevive como se tivesse envelhecido décadas. Talvez, possa até se enxergar no espelho do tempo-capataz que o domina, cabelos grisalhos, pele lasseada.

Deseja o fim do destempero do tempo que passa sem passar. Torna-se religioso ao recorrer ao Deus, lançando um pedido de liberdade. Quer sair desse círculo do tempo, dessa espera que já dura cinco vidas e cento suspiros. Quer recuperar a mobilidade do corpo travado pela espera e por todos os significados que ela abarca.

Então, que os sons despontaram, amplificados, plurais, misturados. Os cheiros se manifestaram: comida, flores e perfumes. O tempo o libertou, assim que esse dia, que parecia ter durado dez vidas de aprisionamento, voltou ao seu ritmo, devidamente combinado à irreverente taquicardia que o tomou, ao vê-la entrar no restaurante.

Imagem: The Lovers © George Tooker

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Sensacional! Maravilha de texto. Incrível sensibilidade para captar sentimentos. Valeu, Carla Dias! Abraços, Enio.
Carla Dias disse…
Enio, sempre bom tê-lo por aqui. Obrigada! Beijo.

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