A ESTÁTUA DOS INELTEPNAC- 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Havia esquecido quão longe ficava meu povoado. E do calor absurdo que fazia durante o dia, nessa época do ano. Encharcadas de suor, as roupas grudavam na pele úmida e pegajosa. O sol entrava por todas as frestas e poros, insidioso e inescapável. Mesmo o mais ínfimo grão de poeira trazia em si um resto de calor. Sentia-me cozido por dentro. 

Olhei discretamente para meu companheiro de viagem. O Professor Sondaar-Dief permanecia calado, o suor porejando em grossas gotas pelo corpo. Tinha fama de grande especialista em arte primitiva, e viera atestar a autenticidade de uma descoberta arqueológica a convite de meu tio, pesquisador diletante e cientista frustrado. A peça fora encontrada em suas terras poucos meses antes, e pertenceria, segundo ele, ao povo Ineltepnac, que habitara a região antes de sumir misteriosamente. Uma raridade, portanto, de valor inestimável – se fosse verdadeira.

E eu, o que fazia eu ali, a dez extenuantes horas de viagem de minha residência? Atendia à exortação de minha tia, para que acompanhasse o Professor. Um pedido de meus amados tios era irrecusável - larguei meus afazeres, portanto, e voltei às minhas origens. 

Assim que chegamos, o Professor - recebido como um paxá, diga-se – pediu para descansar. Meu tio estava eufórico. Se autenticada a descoberta, ele empreenderia mais escavações, transformaria o lugar em sítio arqueológico. A comunidade científica o convidaria a dar palestras e... meu tio sonhava, envaidecido. Minha tia, porém, exalava ansiedade. A casa estava cheia de vizinhos e amigos que foram me ver, não tivemos sequer um momento a sós; fui obrigado a controlar minha curiosidade e impaciência.  

Somente quando todos foram embora, um pouco antes do jantar, ela me puxou para o lado e falou, baixo e urgentemente: “Querido, você precisa convencer seu tio a destruir aquela coisa. Aquela coisa é desgraçada.” 

Confesso que fiquei perturbado. Minha tia descendia de uma tradicional família de sacerdotisas da Antiga Religião, mas nunca fora afeita a superstições. Formada em economia, era a pessoa mais pragmática do mundo. Cuidava dos negócios da família com tino comercial e mão de ferro. Sim, fiquei perturbado.

Durante o jantar meu tio contou sobre sua descoberta e me surpreendeu, ao revelar que havia inscrições esculpidas na base da estátua, as quais ele gostaria que eu tentasse decifrar. Tratava-se, segundo concluíra, da representação de uma deusa da fertilidade, cultuada durante a fase próxima ao desaparecimento do povo Ineltepnac. E, se assim fosse, ele daria imediatamente início aos rituais pagãos que faziam parte da história daquela terra, desde tempos imemoriais. Vi minha tia empalidecer. 

- Minha mulher – disse – não acha que seja uma deusa da fertilidade, mas, afinal, o estudioso aqui sou eu, certo? – e deu uma de suas profundas e roucas risadas. 

O Professor Sondaar-Dief ouvia meu tio atentamente, os olhos brilhando. Se a estátua realmente fosse tudo aquilo, ele também ganharia fama, ao atestar sua autenticidade. E, se não fosse, ao menos ele comera uma excelente refeição e, de qualquer maneira, seria regiamente pago por seu incômodo.   

O jantar terminou. Minha tia deu-me um olhar de alerta antes de sairmos ao encontro da estátua, mas nada falou. Creio que ela queria que eu tirasse minhas próprias conclusões. 

 Nada parecia normal.
Não queria estragar a alegria de meu tio,
 mas havia, definitivamente,
algo estranho naquela história toda. 
Havia algo de anormal naquela noite, algo de pressago e inquietante. A lua, embora cheia, estava baça, ensombrecendo nosso caminho e, também, meu coração. Não havia o alegre zunido ou cricrilar dos insetos, nem o ruflar de asas das aves noturnas, nem mesmo o abafado rosnar dos predadores cautelosos. Não. Havia apenas um silêncio pesado e lúgubre. 

Avistamos, finalmente, a estátua. Enquanto meu tio e o Professor corriam, excitados, em sua direção, eu fiquei paralisado, o suor escorrendo pelo meu corpo, apesar da noite gelada. 

Mesmo a certa distância, eu senti minha alma se confranger violentamente, na certeza inequívoca de que 'aquilo' podia representar muita coisa. Menos coisa boa. 


Continua dia 20 de outubro a 2a e última parte


Foto: Criado por Jeswin Thomas @Jeswin - Freepik.com

Comentários

Anônimo disse…
Vou aguardar a segunda parte
Já detectei vários candidatos a "defunto".
E deusa da fertilidade rima com sexo, espero que eles "se divirtam" um pouco antes de serem mortos, etc..., hehehe...
Unknown disse…
Indiana Jones, a missão kkk
Marcio disse…
Elogiar o estilo e a segurança seria uma redundância imperdoável.
Então, eu vou praguejar contra a crueldade da autora.
Cada vez é mais difícil aguardar duas semanas até seu próximo texto.
E, neste caso específico, a ansiedade até a última parte foi meticulosamente incutida no público pela sacerdotisa, ops, autora malévola.
Clarisse Pacheco disse…
Ávida pela continuação...
Soraya disse…
Como sempre, irretocável! Aguarda-se avidamente a continuação e desfecho!!!
Eu concordo que é muita maldade nos fazer esperar tanto pelo desfecho, o suspense já está me corroendo!!!!

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