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Mostrando postagens de Dezembro, 2017

TEMPO DE BALANÇO >> Sergio Geia

Neste momento, neste exato momento, o cronista deve estar dando um mergulho no mar de Ubatuba. Data venia (como dizem os advogados), ele pede a sua compreensão. A crônica volta na próxima quinzena. Lindo 2018 para você!

UM VISITANTE INESPERADO NA FESTA DE NATAL DO VELHO PADRE >> Zoraya Cesar

Comecemos pelo quintal – Uma acácia (contemporânea, diziam,  daquela que servira para fazer a Arca de Noé), uma mangueira, um carvalho mais antigo que o céu e incontáveis pés de lavanda e alecrim. Não esqueçamos do lago, também, quase uma poça em sua pequenez, mas cujas águas já refrescaram muitos pés cansados. E, por fim, o caramanchão, coberto de maracujás. Sem falar dos pássaros. Assim era o quintal escondido na parte de trás de uma igreja. 
Debaixo do caramanchão havia um Presépio. Bom, ao menos, essa era a idéia. Uma cadeira cheia de almofadas macias, um berço e um banco rústicos, todos de madeira, feitos e entalhados à mão. Mas, onde as pessoas que deveriam estar a completar o Presépio?
Um instante. Primeiro, vamos ao anfitrião (ou anfitriões, que não estou para me indispor com o gato preto) – Vestia a batina de linho preto que só usava em ocasiões especiais, calçava sandálias franciscanas e trazia um sorriso que iluminaria a mais negra escuridão.

Sua idade era imprecisa; seu tempo…

BREAKING BAD>> Analu Faria

_ Ei, tá aqui o que você pediu.
_ Pode cheirar aqui?
_ Vamo ali pro cantinho.
(cheira)
_ Hum... é bom, hein?
_ Essa é da boa.
_ É, sim.
_ É daquele amigo seu?
_ Da mulher dele. Ela compra direto com o pessoal lá que produz.
_ Direto? Nem sabia que se podia comprar direto...
_ Pois é, ela descobriu esse canal, agora é bom que elimina o atravessador, né?
_ É de fora, essa? Ou é brasileira?
_ Ah, é de fora... dessa aí não fazem aqui.
_ Pô, vale o preço, hein.
_ É, compensa. Sabe-se lá se não misturam alguma coisa aí nessa que a gente comprou de atravessador.
_ Mas a galera aqui é de confiança...
_ É, mas a gente começou agora, né! Cê saberia a diferença de uma "batizada" pra essa daí que você tem na mão?
_ É, saberia, não. Foda essas coisas, né? Tem que ser na base da confiança.
_ É.
...
_ Mas e aí, vai levar um pouco pras festas de fim de ano?
_ Ô se vou! Fica tudo melhor né?
_ Hahahahaha. Mas você usa como? Você vai lá pro quarto, pro banheiro e cheira ou... o quê?
_ Nada! Us…

NADA TALENTOSA LEITORA DE MAPAS >> Carla Dias >>

Não vou lhe desejar as mudanças que você contempla há tempos, interpretando o papel de quem as repele, enquanto as deseja. Desapeguei-me de lhe indicar caminhos, depois de a vida me desqualificar para tal função.

Que sou péssima em definir itinerários, atirando-me, envolvida por uma coragem desmiolada, às trilhas que levam aonde jamais chegaria, fosse apegada à sanidade dos meus desejos.

Bem que me disseram que desejo é bicho difícil de se domar, que mora em alguns uma rebeldia que torna a busca pela realização uma estrada longa e complicada. Como quando eu insistia que sabia qual era o melhor caminho a se seguir, sem me ater ao fato de que não tenho talento para ler mapas.

Principalmente os que levassem ao lugar que eu desconhecia.

Não vou lhe desejar um ano novo em folha, para servir de cenário a uma vida nova em folha, cercado por pessoas de sempre, arrebatadas por um comportamento novo em folha. Esse frescor do novo em folha nunca me convenceu. Pode me chamar de péssima delineado…

RELAÇÕES >> Paulo Meireles Barguil

 A matéria é composta por partículas — átomos e moléculas — que interagem entre si, resultando, daí, as suas características. A propriedade física da matéria é a configuração macroscópica dos objetos, a qual está vinculada à velocidade do movimento — energia cinética — das partículas. A agitação das partículas é diretamente proporcional à sua energia e à distância entre elas. A água, no estado sólido, possui moléculas muito próximas e com baixa energia cinética; no estado gasoso, por outro lado, as moléculas estão bastante separadas e com alta energia cinética. Aprendi, há um bom tempo, que os estados físicos da matéria são três: sólido, líquido e gasoso. Atualmente, além desses, há alguns nomeados e outros postulados, sendo o plasma o estado da maioria da matéria do Universo! Zygmunt Bauman postula que a sociedade atual é líquida, característica que se manifesta nas relações, daí ter cunhado a expressão "amor líquido". Embora ache pertinente e interessante a análise des…

TORTA DE SARDINHA >> Carla Dias >>

Não sou uma pessoa que embarca no Natal. Ainda ontem, falando com minha mãe ao telefone, lembrei a ela que o que mais gostava do Natal era a torta de sardinha, e no dia seguinte. Café da manhã.

Não me levem à mal, que aprecio a felicidade do outro. O Natal lhe faz bem, fico feliz por ele lhe fazer bem. E não, eu não me esqueci do que realmente significa a data. Porém, acho que sou desconfiada desde lá, de quando era menina de tudo, escondendo-me nos cômodos livres da casa em festa. Louca para assistir a um filme qualquer na televisão, no silêncio, mas sem sucesso, que Clara Nunes e Peppino di Capri disputavam o palco da sala de estar.

Eu sempre torcia pela Clara, porque, depois que o mar serenou...

Mas essa sou eu, que tenho lá minhas questões com o calendário.

Não falo da questão religiosa, que cada um abraça a crença que lhe toca. Falo de todo o resto: as quinhentas prestações que fazemos para comprar coisas que não precisaríamos adquirir de imediato. A imagem de Papai Noel vestido…

CONFUSÕES NATALINAS >> Clara Braga

Assim começava mais um dia. Ela acordava mais disposta, teve a oportunidade de dormir mais do que imaginava.
Sorriu, se espreguiçou e viu que, além de ter dormido mais, ainda tinha uns minutinhos para ler umas notícias e olhar suas redes sociais antes de levantar para tomar café.
Olhou, leu, riu, curtiu, compartilhou, enfim, fez o que tinha direito. Quando estava desligando o celular viu que tinha recebido uma mensagem de texto. Ao abrir se deparou com um recado do banco avisando que uma compra havia sido feita em seu cartão. Primeiro pensamento: lá vai esse povo tentar enganar a gente até por mensagem de texto, nesse golpe não caio!
Continuou sua rotina quando de repente lembrou que há mais ou menos um mês havia recebido uma mensagem semelhante e, quando olhou o extrato da conta o débito havia de fato sido feito e seu cartão estava clonado.
Na mesma hora foi consultar seu saldo e lá estava, a compra havia mesmo sido feita! Não era possível, duas vezes em tão pouco tempo, será que es…

BOAS FESTAS MEIO ASSIM... >> Sergio Geia

Dezembro de festas, amigo, gostaria de escrever coisas bonitas para você. Sabe como é, ano se encerrando, estamos aqui vivinhos da silva, somente isso já seria um bom motivo para agradecer. Agradeça então. Agradeço daqui. Mas não quero só agradecer, quero dizer coisas bonitas — afinal, você quinzenalmente me acompanha aqui no “Crônica” (espero) —, falar da esperança de um ano melhor, desejar sucesso, momentos de alegria, felicidade (essa coisa mágica) em todas as dimensões de sua vida. Ocorre que está difícil. É que vivemos no Brasil, e o Brasil está de dar pena. Parece que encalacrou o sete a um em nossa vida de vez. Não sai mais. Culpa desses políticos que só pensam neles e em seus partidos (ouço na televisão um deputado dizer que os partidos têm de fechar questão sobre a previdência, assim, o deputado tem como se defender diante de seu eleitor, afinal, foi obrigado pelo partido; pode uma coisa dessas?). Estão lá para nos representar e NÃO NOS REPRESENTAM. Falta legitimidade. Tínhamo…

O AMOR QUANDO INESPERADO. MAKTUB >> Zoraya Cesar

Era um antiquário, por certo. Mas eu não o chamaria assim. Havia objetos realmente valiosos, de inacreditável ancestralidade; todavia, misturados com outros de menor qualidade e extração. Sou elitista, confesso. 
Vi quando ela entrou na loja, os cabelos cacheados presos por uma fita vermelha, um batom rosado a colorir-lhe a boca. De joias, apenas um pingente de cristal. O vestido já vira melhores dias, mas era bonito e primaveril. Como ela.
Vi quando chegou em casa, desembrulhou os pacotes e limpou os objetos que comprara. Inclusive minha lâmpada de estanho e ferro.
– Ahhhh – suspirei, exitoso, esticando os músculos, respirando fundo. Vocês não sabem como o interior de uma lâmpada pode ser desconfortável.
Ela não pareceu surpresa com minha súbita aparição, o que me causou certo espanto; mas, enfim, seres humanos são estranhos. E eu queria ir embora o quanto antes.
– Querida, serei direto. Vou conceder três desejos. Escolha sabiamente, não seja espertinha – no fundo, temia que ela fosse sup…

ARMADILHAS EXISTENCIAIS >> Carla Dias >>

Há intranquilidade aqui. Observe de perto… Mais de perto. Aproxime-se sem medo. Intranquilidade. Um profundo questionamento, talhado em silêncio, sobre um infinito de observações descartáveis, que não podemos reciclar, feito copos de plástico. Não podemos aceitar, feito desastres naturais.

Abra a porta de logo ali, onde jazem nossos planos. Quantos foram, ano passado? Quantos serão, amanhã? Deixe entrar a importância imposta das coisas que se sobrepuseram às pessoas e escandalizaram religiosos ao anteverem fins de mundo que só fazem falhar. Temo que deuses imaginados jamais nos abençoarão com fim de mundo que nos valha. Continuaremos assim, andando em círculos, anestesiados por sonhos débeis e o gosto medíocre de doce mofado na boca.

Achegue-se aqui, nessa imensa sala de aula que é a semana. Seus sete dias que passam sem nos dar importância. Que desejávamos amanhecer às segundas, abençoados com delícias. Deu errado. Amanhecemos solitários e displicentes. Ansiávamos por sextas reverbe…

CANÇÕES DE NINAR >> Clara Braga

Sei que o cravo e a rosa brigaram, um saiu ferido e a outra despedaçada, mas e depois? Lembro que teve algo como uma visita, mas não lembro do final da história, eles ficam juntos? A música tem um final feliz?
E a estrelinha? Eu sei que ela brilha lá no céu, mas tenho certeza que apesar de curta, essa música tem mais do que duas frases.
Tem também a Dona Aranha, essa sim era guerreira, lembro que subia a parede, vinha a chuva tentando atrapalhar mas ela estava sempre lá, continuava sempre a subir, mas ela chega onde queria? Não lembro se no final ela venceu a chuva ou a chuva a derrubou de vez.
E o balão? Que tipo de música é a música do balão? A gente cantava mesmo pedindo pro balão cair? E ele cai?
Lembro da música dos Escravos de Jó, eles jogavam alguma coisa que eu nunca descobri o que era. Inclusive, essa música foi uma das que menos cantei, minha dislexia não me permitia participar do jogo e ainda cantar ao mesmo tempo, era demais para mim.
O Alecrim conseguiu nascer no campo s…

FÉ >> Paulo Meireles Barguil

  "Nos galhos secos de uma árvore qualquer
Onde ninguém jamais pudesse imaginar
O Criador vê uma flor a brotar." (Desconhecido, Galhos secos) Espinhos nas flores, nas palavras e na cabeça. Sorrisos no silêncio, no rosto e na alma. Sangue nos rios, nas veias e nas lágrimas. Beleza nos frutos, no corpo e nos sonhos. Nascer e morrer todos os dias: convite (-convocatório) da vida. Fé na Luz, que pode surgir em qualquer lugar, apesar da escuridão.
Fé no Amor, que pode brotar a qualquer momento, apesar das pedras: no chão, no ar e dentro de cada um de nós...
[Foto de minha autoria. 30 de novembro de 2017]

CABOU!>>Analu Faria

Cabou o ano. Cabou a seca e a chuva. Cabou o relento, cabou a luva e a mão, cabou imagem, cabou som, cabou luz. Cabou escuridão. Cabou a cruz. Cabou medo de falar, cabou sonho, cabou medo medonho da morte, cabou a sorte, cabou caminho. Cabou O Caminho. Cabou tudo o que eu senti e cabou tudo o que eu comi (cabou os dois chupados pela pele da terra ou puxado pela boca do céu).
Depois disso cabou amor e cabou desamor também (ainda bem!). Cabou chorare, cabou cara manchada, cabou cama desarrumada. Cabou medo do silêncio e de repente cabou o antes e o depois (pra mais tarde voltar do mesmo jeito os dois). Cabou a barba dum e a barba doutro. E eu não entendo, mas cabou solidão. Nesse mesmo tempo, cabou briga e cabou aquela velha distância. Cabou a ânsia de que nunca ia se resolver aquela rinha. Cabou  mulherzinha, cabou implicância, cabou aquela pose de rainha.
E ainda, no fim, cabou o suor da lida, cabou um livro (cabou a vida!).  Num susto, cabou a confiança na eterna presença e aí... a…

JURO QUE TE AMO >> Carla Dias >>

Despe-se sem tirar os olhos da TV.

Amanhã aproveitará a promoção para economizar na revisão do carro.

Despe-se sem tirar os olhos da porta.

Torce para que nenhuma das crianças acorde e corra para sua cama.

Tudo o que quer é dormir. Tudo o que quer é uma revisão digna no seu perfeitamente conservado carro. E daí que é velho? E daí que ele é o quinto dono? Ele sabe cuidar do dito.

Tudo o que quer é dormir, que teve um dia difícil, ensinando crianças a gostarem de aprender, antes de efetivamente aprenderem.

Ela se deita na cama. Ele se deita sobre ela. TV ligada no episódio 134 da novela.

Gosta de chamá-la de professorinha. Ela pensa que é por carinho, fetiche, mas na verdade, ele acha a profissão dela uma bobagem.

Gosta de chamá-lo de doutor, porque ele aprecia ser reconhecido advogado. Pena que ele só atenda cliente de porta de cadeia. Ela acha que ele é intelectualmente prejudicado.

Gozam suas mágoas, sempre antes das dez da noite. Nunca dormem sem dizer “juro que te amo” um ao outro…

SOU INOCENTE, EU JURO! >> Clara Braga

Aí você reencontra aquele amigo que não via tinha tempo. Logo percebe que estão se falando diariamente sobre tudo quanto é assunto. Sendo assim, melhor começar a sair.
As saídas se tornam frequentes e quando você menos espera já está namorando. Então um começa a frequentar a casa do outro, apresenta pra família, leva no almoço de domingo e, sem que desse tempo de planejar alguma coisa, já estão viajando para passar ano novo juntos na praia.
Depois da primeira viagem pouquíssimo tempo se passa e, sem que percebam estão morando juntos.
Uns meses a mais e descobrem que um filho está a caminho.
O menino nasce e muda a vida de todos os envolvidos, transforma todo mundo em um poço de nostalgia. E é exatamente nesse momento da nostalgia dos avós e bisavós que você descobre algo importantíssimo que por algum motivo esconderam de você: esse cara com quem você dorme todos os dias, mais conhecido como seu marido pai do seu filho e que você jurava que conhecia muito bem, fez o Denis O Pimentinha…

ASSISTINDO "A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARIS" >> Sergio Geia

Sexta-feira quentíssima, manhã de dezembro, eu aqui, na frente da tevê, assistindo “A última vez que vi Paris”. O filme é de 1954, com Liz Taylor lindíssima no papel de Helen Ellswirth, uma americana que vive em Paris com a irmã Marion (Donna Reed – também lindíssima) e o pai, James (Walter Pidgeon). Helen se apaixona pelo soldado americano Charles Wills (papel de Van Johnson), o filme mostra a história de amor dos dois na mais romântica das cidades europeias. Helen, uma mulher e tanto, muito à frente de seu tempo, encanta-se com Charles. Casam-se, e, enquanto ela está feliz da vida e satisfeita e toda prosa, ele está obcecado por suas veleidades literárias. A obsessão torna a vida difícil para os dois a ponto de colocar o casamento em risco. “A última vez que vi Paris” tem direção de Richard Books, roteiro de Richard, de Julius J. Epstein e Philip G. Epstein, e se baseia no conto de F. Scott Fitzgerald chamado “Babilônia Revisitada”. Fitzgerald é o romancista de “O Grande Gatsby”, fa…

BLUE ANNE >> Zoraya Cesar

Azul nem sempre é a cor mais quente. Pode ser, até, glacial. Tudo depende do ponto de vista do narrador.
Atençâo: contém cenas de violência.
Madrugada. Àquela hora, poucas pessoas se aventurariam a procurar um bar exclusivo, nos recônditos da cidade. Num deles. uma mulher solitária bebia silenciosamente seu café. 
Grandes óculos escuros escondiam seus olhos e mechas de cabelo castanho cobriam parte da face. Desse quase nada entrevisto, arriscaríamos dizer que era bonita. Sorvia o café lentamente, gole a gole, sem afastar a xícara dos lábios. Não usava jóias e não se via bolsa por perto – provavelmente tinha crédito na casa.
A cena lembrava uma pintura de Ben Aronson – as roupas da mulher, o banco no qual sentava, a mesinha de café à frente e o painel da parede, todos praticamente no mesmo tom de azul.  A excetuar esse domínio azul prussiano, apenas um painel bege, a xícara e os sapatos brancos – esses, uma espécie de tênis feitos sob encomenda, não encontrados em lojas comuns. 
A mulher, q…