sábado, 30 de dezembro de 2017

TEMPO DE BALANÇO >> Sergio Geia

 

Neste momento, neste exato momento, o cronista deve estar dando um mergulho no mar de Ubatuba.
Data venia (como dizem os advogados), ele pede a sua compreensão.
A crônica volta na próxima quinzena.
Lindo 2018 para você!


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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

UM VISITANTE INESPERADO NA FESTA DE NATAL DO VELHO PADRE >> Zoraya Cesar

Comecemos pelo quintal – Uma acácia (contemporânea, diziam,  daquela que servira para fazer a Arca de Noé), uma mangueira, um carvalho mais antigo que o céu e incontáveis pés de lavanda e alecrim. Não esqueçamos do lago, também, quase uma poça em sua pequenez, mas cujas águas já refrescaram muitos pés cansados. E, por fim, o caramanchão, coberto de maracujás. Sem falar dos pássaros. Assim era o quintal escondido na parte de trás de uma igreja. 
Flores e frutos de maracujá
cobriam o
caramanchão

Debaixo do caramanchão havia um Presépio. Bom, ao menos, essa era a idéia. Uma cadeira cheia de almofadas macias, um berço e um banco rústicos, todos de madeira, feitos e entalhados à mão. Mas, onde as pessoas que deveriam estar a completar o Presépio?

Um instante. Primeiro, vamos ao anfitrião (ou anfitriões, que não estou para me indispor com o gato preto) – Vestia a batina de linho preto que só usava em ocasiões especiais, calçava sandálias franciscanas e trazia um sorriso que iluminaria a mais negra escuridão.

Sua idade era imprecisa; seu tempo de vida sobre a Terra não poderia ser contado em anos. Era velho, sim bastante, até - as inúmeras rugas cinzeladas em seu rosto não deixando dúvidas quanto a isso. 

A seus pés, acompanhava-o um enorme gato preto de olhar protetor. E que ouvia pacientemente, pela enésima vez, o Velho Padre dizer o quanto adorava festas de aniversário. 

Os convidados, ah, os convidados – sendo, todos, amigos de longa data (e, quando eu digo “longa data”, por favor, levem ao pé da letra), estavam à vontade, como em suas próprias casas.

Marta e Lourenço cuidavam que ninguém ficasse sem comer ou beber por muito tempo. Antonio ajudava Pedro a encontrar uma chave. Cecília tocava harpa, Anjos cantavam em coro com os pássaros. Pequenos Querubins batiam suas asas douradas em torno dos convidados, para afastar o calor. Maria, Mônica e Benedito brincavam com o Menino. José, sentado ao chão, comia lentilhas e arroz (não me perguntem se tinha passas, não vi), ouvindo Cristóvão relatar suas aventuras de andarilho. Brás e Luzia trocavam receitas para os males dos olhos e da garganta. Sebastião dormitava à sombra da acácia. O Velho Padre conversava filosofias com Teresinha das Rosas. Diversos outros se espalhavam pelo quintal, numa mistura de bençãos, milagres, cores.

Tudo era paz, alegria e amor. 

Pouco depois da meia-noite, porém, algo na delicada dimensão do tempo e espaço foi rompido, repentinamente. Todos silenciaram, entreolhando-se, espantados. Somente o gato, os pelos eriçados,
Algo provocou um distúrbio
na corrente do tempo e espaço:
um visitante inesperado.
miava, enfurecido e estridente. 

Alguém bateu palmas ao portão.

Se já não tivesse visto e vivido tanta coisa, o Velho Padre não teria acreditado. Mas ele sabia de quem se tratava. 

Levantou-se e foi atender. 

O convidado inesperado – um homem alto, de beleza indescritível, esperava junto ao portão. Emanava uma força extraordinária e atemorizadora. Imponente que fosse, no entanto, o visitante era educado. Cumprimentou o Velho Padre gentilmente e falou, a voz profunda e melodiosa:

- Sei que não fui convidado. Não espero ser bem-vindo e peço desculpas por interromper. Mas estou cansado. Muito cansado. E, nessa noite, gostaria de um pouso. Um lugar para descansar. Um lugar para não ser encontrado.

O Velho Padre respeitava o poder do visitante, mas não o temia. Não depois de tantos anos e vidas. Ademais, os outros convidados também eram poderosos. E, por fim, desde quando ele, o Velho Padre, recusava pouso a quem lhe pedia?

Sorriu. Afastou-se para o recém-chegado passar. 

A entrada da Estrela da Manhã (pois não era outro o visitante) - não causou qualquer constrangimento aos presentes, alegro-me em dizer. Logo alguém colocou em suas mãos um prato de salada de castanhas, que ele comeu sentado à beira do lago, as pernas mergulhadas na água fria. Depois, recostou-se, suspirou e fechou os olhos, descansando como não fazia desde o início dos tempos. 

Ao acordar, viu que Miguel lhe oferecia um sorvete - estava muito quente aquela noite. Encetaram uma conversa amena sobre as coisas de um outro mundo, e deve ter sido interessante, pois, em diversos momentos, sorriram. De vez em quando, o visitante acenava com as mãos, fazendo soprar uma brisa fresca e suave e espalhando, no ar, cintilantes e pequeninas estrelas, embelezando ainda mais o ambiente. O único que parecia desassossegado era o gato preto. Conhecia Estrela da Manhã há mais vidas do que poderia contar. A humanidade os associara tempo demais e isso não lhe trazia, absolutamente, boas lembranças.

Tudo continuava em paz, alegria, amor.

Ouviu-se, então, o primeiro cantar do galo. O inusitado convidado respirou fundo, e, levantando-se, apertou a mão do Velho Padre, revelando que, em agradecimento à acolhida, enquanto estivera ali nenhum mal ocorrera no mundo. 

Ao segundo cantar do galo, virou-se para Maria, José e o Menino, curvando-se profunda e respeitosamente.

Ao terceiro cantar, ele abriu gigantescas asas prateadas e desapareceu, voltando ao mundo que tentava conquistar desde sempre. 

A festa continuou normalmente, como se fosse muito natural que o Portador da Luz procurasse abrigo entre Santos, Anjos e a Sagrada Família para descansar e confraternizar em paz. 

O Velho Padre sentou, acariciando o gato, pensando que, realmente, não há nada tão emocionante quanto festas de aniversário. E que o Natal era, mesmo, uma data afeita ao extraordinário.

Outras histórias de Natal do Velho Padre e do gato preto


Que o Espírito de Natal permaneça em suas vidas por todo o ano de 2018, trazendo momentos extraordinários e abençoados. Que todos tenham uma vida por inteiro!
São os votos do Velho Padre, do gato preto... e os meus!


E obrigada pela leitura e comentários, compartilhamentos, por tudo!

Ah, sim, para não deixar dúvidas, Estrela da Manhã é um dos nomes de Lúcifer, também conhecido como Portador da Luz. É. Ele mesmo.

Fotos:
Flor de Maracujá: pace52 on Pixabay
Maracujá: disoniador on Pixabay
Distúrbio espaço-temporal:Tobias Polinder on Unsplash


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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

BREAKING BAD>> Analu Faria

_ Ei, tá aqui o que você pediu.
_ Pode cheirar aqui?
_ Vamo ali pro cantinho.
(cheira)
_ Hum... é bom, hein?
_ Essa é da boa.
_ É, sim.
_ É daquele amigo seu?
_ Da mulher dele. Ela compra direto com o pessoal lá que produz.
_ Direto? Nem sabia que se podia comprar direto...
_ Pois é, ela descobriu esse canal, agora é bom que elimina o atravessador, né?
_ É de fora, essa? Ou é brasileira?
_ Ah, é de fora... dessa aí não fazem aqui.
_ Pô, vale o preço, hein.
_ É, compensa. Sabe-se lá se não misturam alguma coisa aí nessa que a gente comprou de atravessador.
_ Mas a galera aqui é de confiança...
_ É, mas a gente começou agora, né! Cê saberia a diferença de uma "batizada" pra essa daí que você tem na mão?
_ É, saberia, não. Foda essas coisas, né? Tem que ser na base da confiança.
_ É.
...
_ Mas e aí, vai levar um pouco pras festas de fim de ano?
_ Ô se vou! Fica tudo melhor né?
_ Hahahahaha. Mas você usa como? Você vai lá pro quarto, pro banheiro e cheira ou... o quê?
_ Nada! Uso na frente de todo mundo.
_ Na frente da família???
_ É, na frente da família. Lá em casa todo mundo já sabe.
_ Sério? E aceitaram numa boa?
_ Ah,  no começo galera fica meio ressabiada né, mas depois todo mundo compra a ideia, porque tem os benefícios... é um negócio visível e rápido, você sabe. No fim, todo mundo gosta.
_ E seus pais...usam também?
_ Depende. Tem uns tipos que funcionam com meu pai, outros não. Com minha mãe, todos funcionam. Todo tipo. Na real, tenho uns parentes que querem vender.
_ Deve dar dinheiro, né?
_ Tem que ter os canais certos.
_ Ah, Ana, eu sou mais usuário mesmo, saca?
_ Mas não dá nada, não, comercializar é tranquilo, mas é o que te falei: tem que ter os contatos...
...
_ Sabia que já uso pra fazer umas coisas mais potentes, né?
_  Ah, eu tb faço isso. É que vicia.
_ E como!
_ É um caminho sem volta...bem que tinham me falado, mas eu não botava fé, não.
_ Tá a fim de fazer uma mistura agora? Eu te ensino. Essa vai pro cérebro na hora!
_ Só vamo!
_ Pega o borrifador aí do seu lado e enche d´água.
_ Você dilui em água?????
_ Diluir não dilui, né? Digamos que "espalha". Vamos borrifar na sala antes de geral chegar.
_ E funciona?
_ Funciona! Tô dizendo! Cê vai ver a cara de alegria da galera.
_ Tá. Borrifador cheio. E agora?
_ Agora pinga aí 10 gotas de óleo essencial de lavanda e 10 gotas de óleo essencial de laranja doce.
_ Ah, essa mistura aí até eu conheço. Eu chamo de "blend antitreta".
Risos.
...
_ Às vezes eu me sinto uma versão bruxa-zen do Walter White, de Breaking Bad*.
_ Nossa Ana, você viaja demais. De repente era bom investir no óleo essencial de turmérico, hein. Ajuda a "pôr o pé no chão", uma gotinha só por dia, cê tá precisando.
_ É que mexer com essas coisas naturais, plantas, óleos essenciais... você mesmo disse, vicia. E te olhando daqui, cê bem que parece o  Jesse Pinkman**.
_ Cadê seu colar aromático, hein? Eu mesmo vou pingar uma gotinha de turmérico pra você.
_ Tá dentro da minha bolsa, Jesse.


* Breaking Bad é um seriado americano de ficção, que conta a história de Walter White, um químico que "cozinha" metanfetamina de forma artesanal.
** Jesse Pinkman é uma espécie de "ajudante" de White.



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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

NADA TALENTOSA LEITORA DE MAPAS >> Carla Dias >>


Não vou lhe desejar as mudanças que você contempla há tempos, interpretando o papel de quem as repele, enquanto as deseja. Desapeguei-me de lhe indicar caminhos, depois de a vida me desqualificar para tal função.

Que sou péssima em definir itinerários, atirando-me, envolvida por uma coragem desmiolada, às trilhas que levam aonde jamais chegaria, fosse apegada à sanidade dos meus desejos.

Bem que me disseram que desejo é bicho difícil de se domar, que mora em alguns uma rebeldia que torna a busca pela realização uma estrada longa e complicada. Como quando eu insistia que sabia qual era o melhor caminho a se seguir, sem me ater ao fato de que não tenho talento para ler mapas.

Principalmente os que levassem ao lugar que eu desconhecia.

Não vou lhe desejar um ano novo em folha, para servir de cenário a uma vida nova em folha, cercado por pessoas de sempre, arrebatadas por um comportamento novo em folha. Esse frescor do novo em folha nunca me convenceu. Pode me chamar de péssima delineadora de itinerários, incapaz leitora de mapas, mas não me acuse de ignorar a importância do que foi vivido, no bom tom da elegância existencial ou na esbórnia da vida jorrando a indecência de acontecer, apesar da insistência em se permanecer em silêncio, na quietude do raso, à mercê da insignificância.

Não vou lhe desejar um tempo de paz, se ela for apenas um cartaz para se grudar na parede da sala de estar, porque fica simpático entre um e outro quadro. Tampouco forjarei verdades para agradar ao seu paladar emocional.

Não vou lhe desejar, não daqui em diante. Não vou traçar caminhos para levá-lo aonde você não desejaria chegar, não fosse minha conversa fiada, essa afinada convencedora de que, depois do ali, daquele lugar onde dormem seus segredos, onde permanecem seus silêncios mais significativos; aquele espaço no qual pequenas revoluções antecedem grandes transformações, você encontrará mais do que um ano novo trazendo empoeiradas propostas, habilmente apresentadas como novidades.

Que nunca fui hábil em traçar caminhos, tampouco ler mapas. Vivo a me distrair com esses lugares nos quais escolho permanecer. Vivo a me dedicar às pessoas que me dizem, com a honestidade no desejo, para eu ficar. Assim, os mapas me confundem. Os calendários, também.

Você está por conta própria, já que sou a pior leitora de mapas que você poderia ter. Enquanto você busca caminhos, eu: livros.

Imagem © George Cochran Lambdin

carladias.com




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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

RELAÇÕES >> Paulo Meireles Barguil


A matéria é composta por partículas — átomos e moléculas — que interagem entre si, resultando, daí, as suas características.
 
A propriedade física da matéria é a configuração macroscópica dos objetos, a qual está vinculada à velocidade do movimento — energia cinética — das partículas.
 
A agitação das partículas é diretamente proporcional à sua energia e à distância entre elas.
 
A água, no estado sólido, possui moléculas muito próximas e com baixa energia cinética; no estado gasoso, por outro lado, as moléculas estão bastante separadas e com alta energia cinética.
 
Aprendi, há um bom tempo, que os estados físicos da matéria são três: sólido, líquido e gasoso.
 
Atualmente, além desses, há alguns nomeados e outros postulados, sendo o plasma o estado da maioria da matéria do Universo!
 
Zygmunt Bauman postula que a sociedade atual é líquida, característica que se manifesta nas relações, daí ter cunhado a expressão "amor líquido".
  
Embora ache pertinente e interessante a análise desse Filósofo polonês, ouso postular que atingimos o estado gasoso.

Talvez seja prudente esclarecer que essa metáfora indica a tendência das relações sociais, uma vez que, na História da Humanidade, esses tipos sempre me manifestaram com intensidade variada, a depender do espaço-tempo.
 
Creio ser importante dizer que, embora a configuração social nos influencie, somos capazes de escolher a nossa proximidade com as demais partículas da natureza e o nosso grau de agitação.

Não sou tolo de achar que nossa seleção é acatada integralmente pelo Cosmos, mas acredito que precisamos exercer, com serenidade e firmeza, esse direito, que, na verdade, significa assumir a responsabilidade pelo que acontece em nossas vidas.
 
Penso, também, que não é razoável crer que todas as pessoas possuem a mesma configuração e que, portanto, são impactadas de forma semelhante pelas condições sociais.
 
Necessário, finalmente, que nos lembremos de que distância e energia são mutáveis, as quais podem alterar não somente o estado físico da matéria, mas, principalmente, a sua natureza química! 
 
Conectar-se com o permanente escondido no transitório é a magia que evita o espírito apodrecer no corpo, sua morada passageira, e expressar, mesmo que de modo acanhado, a sua plenitude.
 
Desligar-se do efêmero para vincular-se, com humildade, respeito e gratidão ao eterno, que se manifesta mediante texturas, cores, odores, sabores e sons...


[Torre de Pisa — Pisa — Itália]

[Foto de minha autoria. 17 de março de 2013]  


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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

TORTA DE SARDINHA >> Carla Dias >>


Não sou uma pessoa que embarca no Natal. Ainda ontem, falando com minha mãe ao telefone, lembrei a ela que o que mais gostava do Natal era a torta de sardinha, e no dia seguinte. Café da manhã.

Não me levem à mal, que aprecio a felicidade do outro. O Natal lhe faz bem, fico feliz por ele lhe fazer bem. E não, eu não me esqueci do que realmente significa a data. Porém, acho que sou desconfiada desde lá, de quando era menina de tudo, escondendo-me nos cômodos livres da casa em festa. Louca para assistir a um filme qualquer na televisão, no silêncio, mas sem sucesso, que Clara Nunes e Peppino di Capri disputavam o palco da sala de estar.

Eu sempre torcia pela Clara, porque, depois que o mar serenou...

Mas essa sou eu, que tenho lá minhas questões com o calendário.

Não falo da questão religiosa, que cada um abraça a crença que lhe toca. Falo de todo o resto: as quinhentas prestações que fazemos para comprar coisas que não precisaríamos adquirir de imediato. A imagem de Papai Noel vestido com aquela roupa, quando os dias aqui estão quentes pra dedéu. Só de olhar para ele, suamos. A conexão duvidosa que estabelecemos com caixas de presente que custam quase que o valor do presente. As roupas...  Mais prestações. Mais roupas usadas somente uma vez.

A rotina é abatida por uma pressa que não consigo entender, que supera dia de final de campeonato de futebol e véspera de feriado prolongado. Dezembro é o mês em que me transformo na pessoa mais mal-humorada que conheço. Tudo fica gritante, impaciente, deslocado. Os motoristas reinventam as leis de trânsito e os transeuntes se adaptam a elas, como se nada de estranho estivesse acontecendo. Como se fosse natural se safar de acidentes, com mais frequência do que a usual.

E os presentes...

Nem pensem o contrário: eu adoro presentear. Gosto ainda mais quando consigo encontrar algo que se encaixe na história das pessoas. Presentear com a intimidade do conhecimento a respeito do outro. Eu sei...  As lembrancinhas, para aquelas pessoas que, apesar de não conhecermos tão bem, foram gentis conosco. Merecem um agrado.

Confesso que não comprei presente pra ninguém. Meus sobrinhos vão ter de esperar eu respirar, dezembro passar, a vida ficar menos insana. Ainda bem que eles já me conhecem, sabem que tenho dificuldade imensa de me adequar ao gosto do calendário.

Claro que tenho apreço pela felicidade deles, assim como respeito a sua, porque se o Natal lhe faz feliz, eu fico feliz por isso. Minhas questões a respeito do Natal englobam esse barulho todo. Quando dezembro chega, já estou no ponto de necessitada de silêncio interno, e as buzinas não ajudam. A correria, nem. A inflação não colabora em nada. As mil parcelas para adquirir um possível agrado, já sabe.

Além disso tudo, dessas banalidades que são minhas, que em nada interferem no seu apreço pelas celebrações ou o dezembro, há o fato de que eu adoraria poder celebrar mais, muito mais do que o meu Natal, meu panetone, minha comida delícia, minha roupa nova. Eu gostaria muito, mas muito mesmo, de comemorar uma conquista coletiva, que tornasse a nossa vida mais descomplicada. Que abrandasse os discursos unilaterais e nos colocasse do mesmo lado. Aquele lado que nem lado é. Trata-se apenas do justo e de direito. Eu gostaria muito, mas muito mesmo, que não nos tratassem como se não valêssemos nada. Como se não soubéssemos de nada. Como se não sentíssemos nada. Gostaria do tipo de presente que Papai Noel e magazines não podem oferecer. Nem mesmo o empréstimo pré-aprovado no banco ou a promessa que já chega anunciando que não será cumprida. O presente que só nós podemos dar a nós mesmos ao compreendermos que temos de nos unir para celebrar, mas também para mudar as coisas que precisam ser mudadas.

Mas essa sou eu, quem faz festa com uma torta de sardinha, amanhecida, e um bom gole de café, em qualquer dia do ano.

Imagem: Il risveglio © Angelo Morbelli

carladias.com

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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

CONFUSÕES NATALINAS >> Clara Braga

Assim começava mais um dia. Ela acordava mais disposta, teve a oportunidade de dormir mais do que imaginava.

Sorriu, se espreguiçou e viu que, além de ter dormido mais, ainda tinha uns minutinhos para ler umas notícias e olhar suas redes sociais antes de levantar para tomar café.

Olhou, leu, riu, curtiu, compartilhou, enfim, fez o que tinha direito. Quando estava desligando o celular viu que tinha recebido uma mensagem de texto. Ao abrir se deparou com um recado do banco avisando que uma compra havia sido feita em seu cartão. Primeiro pensamento: lá vai esse povo tentar enganar a gente até por mensagem de texto, nesse golpe não caio!

Continuou sua rotina quando de repente lembrou que há mais ou menos um mês havia recebido uma mensagem semelhante e, quando olhou o extrato da conta o débito havia de fato sido feito e seu cartão estava clonado.

Na mesma hora foi consultar seu saldo e lá estava, a compra havia mesmo sido feita! Não era possível, duas vezes em tão pouco tempo, será que estão clonando por causa de compras online? Não podia ser, se não fosse seguro não teria tanta gente usando!

Bom, seja lá o que fosse teria que ligar no banco e, nas vésperas do natal, dizer que não identificava a compra, pedir seu dinheiro de volta, mandar bloquear o cartão e esperar chegar um novo!

Quando já estava indo, tentando olhar o lado positivo da situação e pensando que pelo menos o ladrão tinha bom gosto, pois havia feito uma compra que ela adoraria ter feito, recebeu uma mensagem do seu marido avisando que havia usado o cartão, foi só aí que ela - que eu me recuso a dizer que na verdade sou eu - novata nessa vida de casada, lembrou que não é a única que movimenta a conta e percebeu que por muito pouco não acabou bloqueando seu próprio presente de natal! Que tragédia seria! 


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sábado, 16 de dezembro de 2017

BOAS FESTAS MEIO ASSIM... >> Sergio Geia



Dezembro de festas, amigo, gostaria de escrever coisas bonitas para você. Sabe como é, ano se encerrando, estamos aqui vivinhos da silva, somente isso já seria um bom motivo para agradecer.
Agradeça então.
Agradeço daqui.
Mas não quero só agradecer, quero dizer coisas bonitas — afinal, você quinzenalmente me acompanha aqui no “Crônica” (espero) —, falar da esperança de um ano melhor, desejar sucesso, momentos de alegria, felicidade (essa coisa mágica) em todas as dimensões de sua vida.
Ocorre que está difícil.
É que vivemos no Brasil, e o Brasil está de dar pena. Parece que encalacrou o sete a um em nossa vida de vez. Não sai mais. Culpa desses políticos que só pensam neles e em seus partidos (ouço na televisão um deputado dizer que os partidos têm de fechar questão sobre a previdência, assim, o deputado tem como se defender diante de seu eleitor, afinal, foi obrigado pelo partido; pode uma coisa dessas?). Estão lá para nos representar e NÃO NOS REPRESENTAM. Falta legitimidade. Tínhamos de ter o direito de tirá-los se não há uma conexão entre a nossa vontade e os seus projetos e votos. Assombra-me esse senhor Temer (mais sacrifícios para o povo?). Não está na hora de chamar as grandes fortunas para o sacrifício?  Como dizer que o Brasil precisa disso, que o Brasil precisa daquilo, se o Brasil somos nós, e a nós ele não ouve? Que direito tem de falar por nós? E o Rio de Janeiro então? Um desastre. Outro dia assistia Tropa de Elite 2, e parecia estar vendo o Jornal Nacional.
Stop, digo a mim mesmo.
Não tenho inspiração para lhe dizer coisas bonitas, não vou ficar aqui lhe dizendo coisas feias.
Pensei não dizer nada como já fiz noutra crônica, mas aí tive uma ideia. Uma santa ajudinha. Sim, pedir um auxílio para o meu santinho, cuja imagem tenho aqui na estante; Francisco saberia o que dizer. Abro “O irmão de Assis”, de Inácio Larrañaga, numa página qualquer e encontro esta mensagem:
“Irmãos caríssimos, Deus é nossa esposa. Deus é nosso fogão. Deus é nosso banquete. Deus é nossa festa. Se tivermos Deus na alma, a neve aquecerá, os invernos transformar-se-ão em primavera.”
Que as palavras do pequenino de Assis se transformem em realidade para o sofrido povo brasileiro.
Que a neve nos aqueça, que o inverno se transforme em primavera.
De Taubaté, no Vale do Paraíba, terra de Monteiro Lobato, para você, amigo, os meus sinceros votos de um Natal em paz, e um 2018 com saúde, e muitos, muitos momentos felizes.
 


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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O AMOR QUANDO INESPERADO. MAKTUB >> Zoraya Cesar

Era um antiquário, por certo. Mas eu não o chamaria assim. Havia objetos realmente valiosos, de inacreditável ancestralidade; todavia, misturados com outros de menor qualidade e extração. Sou elitista, confesso. 

Vi quando ela entrou na loja, os cabelos cacheados presos por uma fita vermelha, um batom rosado a colorir-lhe a boca. De joias, apenas um pingente de cristal. O vestido já vira melhores dias, mas era bonito e primaveril. Como ela.

Vi quando chegou em casa, desembrulhou os pacotes e limpou os objetos que comprara. Inclusive minha lâmpada de estanho e ferro.

– Ahhhh – suspirei, exitoso, esticando os músculos, respirando fundo. Vocês não sabem como o interior de uma lâmpada pode ser desconfortável.

Ela não pareceu surpresa com minha súbita aparição, o que me causou certo espanto; mas, enfim, seres humanos são estranhos. E eu queria ir embora o quanto antes.

– Querida, serei direto. Vou conceder três desejos. Escolha sabiamente, não seja espertinha – no fundo, temia que ela fosse superficial e estúpida, do tipo “quero mais três desejos”; “quero ser rica”, ou algo parecido. Humanos são tão banais!

- Não me chame de ‘querida’. Não somos íntimos. Meu nome é Lenore. – Ela falou com doçura, mas firme. Seres humanos são tão surpreendentes. 

– Então, Le-no-re, quais os seus pedidos? – Estava curioso e ansioso.  Pelo desígnio de minha vida esses seriam os últimos desejos que eu deveria conceder. Allhamdulillah! Deus é grande! Então poderia ir aonde quisesse, ser quem eu quisesse. Livre. 

– Não tenho pedidos. Estou bem. Sério.

– Não seja idiota, mortal, vocês sempre querem alguma coisa – Por Alá! Os anos que passei enfurnado me transformaram num tosco. Logo eu, criado nos melhores salões de Bagdá. Meu instrutor morreria de vergonha. Ela, no entanto, não pareceu ofendida.

–Sei da minha finitude. Mas estou bem. E você, que tal um suco, um lanche… 

E foi então que me dei conta do tempo que passara sem comer ou beber, sem sentir o aroma de um chá de jasmim, o sabor de um figo recém colhido... ou de uma boa torta de rim com cerveja. 

Ela me fez sentar à mesa, e serviu-me café e bolo. Confesso que fiquei confuso. Nunca fui servido. Nós, gênios, fomos criados para servir. 

À noite, ela arrumou um colchonete no chão da sala. Meu apartamento é pequeno, disse. Pulei na oportunidade e perguntei, esperançoso, se ela não desejaria isso, um apartamento melhor. Ela riu, espontânea: não, obrigada, estou bem. Insisti, e que tal uma companhia, um namorado, namorada, talvez, nesses tempos modernos. Ela gargalhou, realmente gargalhou, e repetiu, não, obrigada. Estou bem. 

Minha liberdade estava a três desejos de distância, mas, ali, sozinho, eu só conseguia pensar que nunca provara refeição mais gostosa que aquela. E, quando amanheceu, tive a certeza de que nunca, nem no palácio do sultão Ibrahim, eu havia dormido tão bem.

Depois do café, Lenore me levou à praia. Ofereci-lhe um iate, visitar os sete mares, as ilhas gregas… ela riu e me fez pisar na areia com os pés descalços, entrar no mar, deitar ao sol. Reverenciei os seres invisíveis que regiam aquele templo divino e relaxei. Ela mudaria de idéia. Humanos são tão volúveis.

Enquanto os dias passavam e eu não descobria quais os seus desejos, ajudava-a como podia. Lenore dava aulas de arte em escolas caras e como voluntária em creches pobres. Eu organizava a casa e os afazeres, deixava tudo pronto para que ela, ao chegar, exausta, pudesse se dedicar à leitura, ao crochê... e às nossas conversas. Como era bom conversar com Lenore! Ela sempre ouvia com atenção e queria saber mais. Como era bom vê-la descansada, despreocupada, vê-la rir e chorar com minhas histórias. Eu ri e me emocionei várias vezes com a vida de Lenore. Como é frágil a existência dos humanos.

E, durante todo esse tempo, tentei saber o que poderia lhe dar. Queria minha liberdade.

Quando as noites frescas e as tardes douradas do outono
deram lugar às noites frias e tardes prateadas do inverno,
Lenore me chamou.
Quando o inverno chegou, trouxe com ele a saudade das folhas vermelhas do outono e o suspiro de anseio pela primavera. Foi então que Lenore me levou para dormir em sua cama. 

Passei a noite a olhar seu rosto tranquilo – nós, gênios, enxergamos muito bem no escuro –, o rosto de quem está bem, não precisa de nada; a ouvir seu ressonar, mais belo que o canto das mais belas huris; a sentir seu perfume de corpo limpo, de sua pele cheiro de maçã.

Ao acordar, seu sorriso iluminou até minhas vidas passadas. Espreguiçou-se, como só os felizes conseguem e, olhando-me bem dentro dos olhos, perguntou:

– Sabe de uma coisa? Me diga você, quais são seus três desejos?

A resposta veio a mim suavemente, como uma pluma voando no primeiro vento da primavera. Abracei Lenore, coloquei sua cabeça em meu ombro:

– Estou bem – respondi – Não preciso de nada.

(E, lá no fundo de minha alma, ou o que seja que os gênios têm, eu sabia que estava livre; e tinha não três, mas apenas dois desejos: ver Lenore para sempre feliz. E partir dessa vida junto com ela.)



foto Freepik: https://br.freepik.com/fotos-gratis/floresta-no-por-do-sol_946227.htm

Essa história foi inspirada num conto de Neil Gaiman, lido há muito tempo. Vou recuperar o título, prometo. 



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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

ARMADILHAS EXISTENCIAIS >> Carla Dias >>


Há intranquilidade aqui. Observe de perto… Mais de perto. Aproxime-se sem medo. Intranquilidade. Um profundo questionamento, talhado em silêncio, sobre um infinito de observações descartáveis, que não podemos reciclar, feito copos de plástico. Não podemos aceitar, feito desastres naturais.

Abra a porta de logo ali, onde jazem nossos planos. Quantos foram, ano passado? Quantos serão, amanhã? Deixe entrar a importância imposta das coisas que se sobrepuseram às pessoas e escandalizaram religiosos ao anteverem fins de mundo que só fazem falhar. Temo que deuses imaginados jamais nos abençoarão com fim de mundo que nos valha. Continuaremos assim, andando em círculos, anestesiados por sonhos débeis e o gosto medíocre de doce mofado na boca.

Achegue-se aqui, nessa imensa sala de aula que é a semana. Seus sete dias que passam sem nos dar importância. Que desejávamos amanhecer às segundas, abençoados com delícias. Deu errado. Amanhecemos solitários e displicentes. Ansiávamos por sextas reverberando paixões, mas vestimos as roupas da desolação. Elas nos apertam, afiadas, suas lâminas de verdades evitadas.

Até tentamos nos distrair com belezas possíveis. As flores a enfeitarem a casa. O perfume delas a disfarçar o odor do medo.

À frente: cenários desinteressantes. Um quadro em 3D de desconforto. Onde estão os acontecimentos prometidos, enquanto éramos educados por criaturas decididas a domesticar nossos instintos? Não era aprendizado, não. Tinha nada a ver com iluminação intelectual. Era servidão, curvar o espírito ao conhecimento em escombros. Era amputação da capacidade de pensar.

Não é ausência que nos agonia. Na ausência, sentimos falta. E a falta nos impulsiona a buscar por saídas, a repensar o cenário, a desejar companhia. É algo muito mais cruel. É abstinência, sabe-se lá do quê. É agonia pautada pela incapacidade de decifrarmos o que seria se não estivéssemos tão vazios de nós mesmos. Quem seríamos? A quem serviríamos? Para que serviríamos?

É abstinência, sabe-se lá de quem. Talvez o quem seja um resumo dessa nossa história em desuso. O quem nos criou? À sua imagem e imperfeição, e em bailes mal frequentados, aos sábados à noite; na conta das correrias diante da violência anunciada. No bojo das solidões irremediáveis e do desespero que se molda em nossa alma, em dias em que não temos energia para acreditar que pode ser diferente.

Diferente seria serenar o pensamento equivocado. Acalmá-lo até que ele se calasse de vez. Seria bom aproveitar essa quarta a aprender uma esperança e outra. Não das ocas, criadas para ocupar espaços que deveriam ser preenchidos com desejos que fossem desejos, não ecos de um comportamento que exige comedimento, quando a paixão é requisitada e necessária.

Que essa intranquilidade, ela que nos parece soberba ao primeiro olhar; ela que avilta nossa digesta rotina de “tudo no lugar onde deveria estar”, que ela possa nos guiar ao encontro de nós mesmos. Tenho por certo que não será um encontro pacífico. Ainda assim, seremos nós. A intranquilidade de quem busca a mudança a nos acompanhar.

Imagem © Herbert Draper

carladias.com



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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

CANÇÕES DE NINAR >> Clara Braga

Sei que o cravo e a rosa brigaram, um saiu ferido e a outra despedaçada, mas e depois? Lembro que teve algo como uma visita, mas não lembro do final da história, eles ficam juntos? A música tem um final feliz?

E a estrelinha? Eu sei que ela brilha lá no céu, mas tenho certeza que apesar de curta, essa música tem mais do que duas frases.

Tem também a Dona Aranha, essa sim era guerreira, lembro que subia a parede, vinha a chuva tentando atrapalhar mas ela estava sempre lá, continuava sempre a subir, mas ela chega onde queria? Não lembro se no final ela venceu a chuva ou a chuva a derrubou de vez.

E o balão? Que tipo de música é a música do balão? A gente cantava mesmo pedindo pro balão cair? E ele cai?

Lembro da música dos Escravos de Jó, eles jogavam alguma coisa que eu nunca descobri o que era. Inclusive, essa música foi uma das que menos cantei, minha dislexia não me permitia participar do jogo e ainda cantar ao mesmo tempo, era demais para mim.

O Alecrim conseguiu nascer no campo sem ser semeado, e por lá mesmo deve ter ficado porque não me lembro de mais o que poderia ter acontecido com ele.

É, histórias e músicas infantis são mesmo um problema de família. Passei a vida perturbando meu pai pois ele não conseguia contar nenhuma história até o fim sem dormir, então eu só fui saber o que aconteceu com João e Maria, por exemplo, muito tempo depois. 

Com meu filho vai ser igual, se ele demora mais do que 10 minutos para dormir já começa a ouvir um repertório repetido e, pra piorar, com as músicas todas pela metade. Tenho certeza que chega uma momento que ele dorme não por estar com sono, mas para não ouvir mais as metades das músicas que eu canto! Bom, de uma forma ou de outra, pelo menos meu objetivo de fazê-lo dormir é atingido.


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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

FÉ >> Paulo Meireles Barguil


 "Nos galhos secos de uma árvore qualquer
Onde ninguém jamais pudesse imaginar
O Criador vê uma flor a brotar."
(Desconhecido, Galhos secos)
 
Espinhos nas flores, nas palavras e na cabeça.
 
Sorrisos no silêncio, no rosto e na alma.
 
Sangue nos rios, nas veias e nas lágrimas.
 
Beleza nos frutos, no corpo e nos sonhos.
 
Nascer e morrer todos os dias: convite (-convocatório) da vida.
 
Fé na Luz, que pode surgir em qualquer lugar, apesar da escuridão.
 
Fé no Amor, que pode brotar a qualquer momento, apesar das pedras: no chão, no ar e dentro de cada um de nós...
 

[Foto de minha autoria. 30 de novembro de 2017]


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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

CABOU!>>Analu Faria

Cabou o ano. Cabou a seca e a chuva. Cabou o relento, cabou a luva e a mão, cabou imagem, cabou som, cabou luz. Cabou escuridão. Cabou a cruz. Cabou medo de falar, cabou sonho, cabou medo medonho da morte, cabou a sorte, cabou caminho. Cabou O Caminho. Cabou tudo o que eu senti e cabou tudo o que eu comi (cabou os dois chupados pela pele da terra ou puxado pela boca do céu).

Depois disso cabou amor e cabou desamor também (ainda bem!). Cabou chorare, cabou cara manchada, cabou cama desarrumada. Cabou medo do silêncio e de repente cabou o antes e o depois (pra mais tarde voltar do mesmo jeito os dois). Cabou a barba dum e a barba doutro. E eu não entendo, mas cabou solidão. Nesse mesmo tempo, cabou briga e cabou aquela velha distância. Cabou a ânsia de que nunca ia se resolver aquela rinha. Cabou  mulherzinha, cabou implicância, cabou aquela pose de rainha.

E ainda, no fim, cabou o suor da lida, cabou um livro (cabou a vida!).  Num susto, cabou a confiança na eterna presença e aí... ah, aí cabou o sono muitas e muitas vezes, foi preciso um par de meses para cabar o medo e a falta de fé. Cabou depois dor no pé e no gogó. Cabou também o dó. Cabou fraqueza e cabou vestígio da pena, cabou ser pequena, cabou o prestígio do sim. Às vezes cabou alegria (é muita sangria que a gente aguenta), cabou cetim, carmim, festim, mas a gente, no fim, não se apoquenta.


Cabou tudo, cabou o mundo, para começar sempre de novo, num ano ainda dentro do ovo, esperando o segundo de abrir.


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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

JURO QUE TE AMO >> Carla Dias >>



Despe-se sem tirar os olhos da TV.

Amanhã aproveitará a promoção para economizar na revisão do carro.

Despe-se sem tirar os olhos da porta.

Torce para que nenhuma das crianças acorde e corra para sua cama.

Tudo o que quer é dormir. Tudo o que quer é uma revisão digna no seu perfeitamente conservado carro. E daí que é velho? E daí que ele é o quinto dono? Ele sabe cuidar do dito.

Tudo o que quer é dormir, que teve um dia difícil, ensinando crianças a gostarem de aprender, antes de efetivamente aprenderem.

Ela se deita na cama. Ele se deita sobre ela. TV ligada no episódio 134 da novela.

Gosta de chamá-la de professorinha. Ela pensa que é por carinho, fetiche, mas na verdade, ele acha a profissão dela uma bobagem.

Gosta de chamá-lo de doutor, porque ele aprecia ser reconhecido advogado. Pena que ele só atenda cliente de porta de cadeia. Ela acha que ele é intelectualmente prejudicado.

Gozam suas mágoas, sempre antes das dez da noite. Nunca dormem sem dizer “juro que te amo” um ao outro.

Imagem: Gli amanti © Giulio Romano

carladias.com

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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

SOU INOCENTE, EU JURO! >> Clara Braga

Aí você reencontra aquele amigo que não via tinha tempo. Logo percebe que estão se falando diariamente sobre tudo quanto é assunto. Sendo assim, melhor começar a sair.

As saídas se tornam frequentes e quando você menos espera já está namorando. Então um começa a frequentar a casa do outro, apresenta pra família, leva no almoço de domingo e, sem que desse tempo de planejar alguma coisa, já estão viajando para passar ano novo juntos na praia.

Depois da primeira viagem pouquíssimo tempo se passa e, sem que percebam estão morando juntos.

Uns meses a mais e descobrem que um filho está a caminho.

O menino nasce e muda a vida de todos os envolvidos, transforma todo mundo em um poço de nostalgia. E é exatamente nesse momento da nostalgia dos avós e bisavós que você descobre algo importantíssimo que por algum motivo esconderam de você: esse cara com quem você dorme todos os dias, mais conhecido como seu marido pai do seu filho e que você jurava que conhecia muito bem, fez o Denis O Pimentinha parecer um santo quando era criança.

Você descobre que esse ser de luz que parece tão tranquilo ao seu lado fugia e se escondia em lugares inimagináveis só para deixar os pais procurando por ele por muito tempo. Praticava bullying com os irmãos mais novos antes mesmo do bullying ser inventado. Subia na janela do apartamento para fazer xixi nas pessoas que estavam passando embaixo do prédio. Colocou fogo no cabelo de um irmão e ensinou o outro a chamar a empregada de prostituta dizendo que isso era algo legal.

Essas são só algumas das histórias que tiveram coragem de me contar nesses curtos dois meses de vida do meu filho. Desde então começo a suar frio toda vez que alguém da família dele vem falar comigo e começa o assunto com a seguinte frase: é minha filha, reza para não puxar o pai, pois ele quando era criança... 

Me pergunto se guardaram essas informações com medo de que ele nunca arrumasse alguém que tivesse coragem de se relacionar com ele a ponto de ter filhos. Agora que não tem mais motivo para esconder as histórias, todos compartilham suas lembranças quase como um desabafo e eu fico só rezando diariamente e pedindo a Deus que lembre que eu não tive nada a ver com isso. 


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sábado, 2 de dezembro de 2017

ASSISTINDO "A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARIS" >> Sergio Geia



Sexta-feira quentíssima, manhã de dezembro, eu aqui, na frente da tevê, assistindo “A última vez que vi Paris”. O filme é de 1954, com Liz Taylor lindíssima no papel de Helen Ellswirth, uma americana que vive em Paris com a irmã Marion (Donna Reed – também lindíssima) e o pai, James (Walter Pidgeon). Helen se apaixona pelo soldado americano Charles Wills (papel de Van Johnson), o filme mostra a história de amor dos dois na mais romântica das cidades europeias.
Helen, uma mulher e tanto, muito à frente de seu tempo, encanta-se com Charles. Casam-se, e, enquanto ela está feliz da vida e satisfeita e toda prosa, ele está obcecado por suas veleidades literárias. A obsessão torna a vida difícil para os dois a ponto de colocar o casamento em risco.
“A última vez que vi Paris” tem direção de Richard Books, roteiro de Richard, de Julius J. Epstein e Philip G. Epstein, e se baseia no conto de F. Scott Fitzgerald chamado “Babilônia Revisitada”. Fitzgerald é o romancista de “O Grande Gatsby”, famoso por seus livros sobre a sociedade americana e a geração perdida, alcoólatra, boêmio, que morreu cedo, aos 44, de ataque cardíaco.    
Dou pause. Após alguma hesitação, levanto e coloco num copo uma dosinha de Jack Daniel’s com duas pedras de gelo. Na mesma proporção que vou saboreando a vida (e a bebida), vou me encantando com o filme, com a leveza de Liz, com o enredo (ingênuo, romântico, despretensioso), e vou vendo brotar em mim um sentimento tão bom, tão gostoso, que fico a me perguntar “que raios de sentimento é esse?”
Não sou lá muito entendido de sentimentos. Felicidade no passado foi tema de estudos meus. Sim, tínhamos um grupo que se reunia quinzenalmente pra discutir essa tal felicidade, tendo como ponto de partida “A arte da felicidade” do Dalay Lamma. No fundo, todos nós queríamos (e queremos) a felicidade, mas me pergunte hoje o que é felicidade, e este aluno estudioso, aplicado, irá coçar a cabeça, olhar de lado, do outro, pensar, e depois de muito pensar, não encontrará uma resposta.
Paz de Espírito? Algo mais amplo como um estado mental? Equilíbrio? Sentimentos positivos? Será? Prazer? Não. Prazer é momentâneo, superficial, passa rápido. Felicidade é mais que isso. Talvez minha experiência com “A última vez que vi Paris” seja algo mais próximo de prazer. Um chope com amigos regado a conversas animadas? Ouvir no sofá (de preferência deitado, com olhos fechados), Nana Caymmi cantando “Resposta ao tempo”? Pra mim, um grande prazer. Dar um cochilo depois do almoço?   
“Felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha é uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar”, a música surge, como pra me responder com a resposta que eu não tinha. Na tevê, Charles tem mais um romance recusado pela editora. Escreve folhas e mais folhas, envia, e recebe apenas cartas com recusas. Ah, quem, nesse mundo cão das letras, nunca recebeu uma cartinha dessas? (tenho um monte aqui).
Estudo realizado em Harvard durante mais de 80 anos concluiu que a porta de entrada para a felicidade está na qualidade dos relacionamentos do indivíduo (um dado novo, não?), não só a dois, mas com pais, avós, filhos e amigos.  Pessoas satisfeitas com seus relacionamentos conseguem manter o cérebro e o corpo saudáveis por mais tempo. E o que é uma relação de qualidade? É aquela em que a pessoa se sente segura, e pode ser ela própria, sem ter que se reinventar apenas para satisfazer o outro.
Não, caro leitor, eu não quero falar desse jeito. Não sou professor, filósofo, pensador, cientista. Sou apenas um cronista que pretende dividir com você um momento alegre. Eu não pensei em falar assim: “Estudo realizado em Harvard...”. Eu não quero falar de estudos, trabalhos, pesquisas, pensamentos, opiniões, com a pretensão de ensinar felicidade.
O Pondé, por exemplo, diz que felicidade é satisfação de desejo, e que temos muitos momentos felizes, e outros nem tanto, mas assim a vida é. Não há felicidade duradoura e permanente; há momentos felizes, e quanto maior a expectativa, como a do Charles, maior a chance de ser menos feliz.
Agora meu coração aperta e dá até vontade de chorar. Isso de modo algum representa tristeza, mas sensibilidade com o desejo da pequena Vicki de sair com o pai. Essa coisa bobinha me toca, me alisa, me sacode, me bagunça a alma. 
A verdade, amigo, é que eu só queria lhe dizer que estou assistindo “A última vez que vi Paris”, nessa manhã de dezembro, na pequena sala do meu apartamento, tomando uma dosinha de uísque, sentindo o vento entrar pela sacada, espiando, vezenquando, o solzinho tímido. Essas coisas tolas, mas que me tornam muito feliz hoje.

 



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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

BLUE ANNE >> Zoraya Cesar

Azul nem sempre é a cor mais quente. Pode ser, até, glacial. Tudo depende do ponto de vista do narrador.

Atençâo: contém cenas de violência. 

Madrugada. Àquela hora, poucas pessoas se aventurariam a procurar um bar exclusivo, nos recônditos da cidade. Num deles. uma mulher solitária bebia silenciosamente seu café. 

Grandes óculos escuros escondiam seus olhos e mechas de cabelo castanho cobriam parte da face. Desse quase nada entrevisto, arriscaríamos dizer que era bonita. Sorvia o café lentamente, gole a gole, sem afastar a xícara dos lábios. Não usava jóias e não se via bolsa por perto – provavelmente tinha crédito na casa.

A cena lembrava uma pintura de Ben Aronson – as roupas da mulher, o banco no qual sentava, a mesinha de café à frente e o painel da parede, todos praticamente no mesmo tom de azul.  A excetuar esse domínio azul prussiano, apenas um painel bege, a xícara e os sapatos brancos – esses, uma espécie de tênis feitos sob encomenda, não encontrados em lojas comuns. 

A mulher, quase imóvel, parecia mesmo a imagem da serenidade. 

Naquele lugar desconhecido às pessoas comuns, ninguém se surpreendia com o uso de óculos escuros à noite em um ambiente fechado, ou com a presença de uma mulher sozinha àquela hora tardia. No High Plains Drifter todos eram irmãos em excentricidade – seja na aparência ou nas profissões. Se estava ali, pertencia a alguma confraria à margem da sociedade. Era, portanto, bem vindo. 

Assim, a mancha arroxeada que intumescia um dos olhos da mulher passou despercebida. Ela mesma não se lembraria mais da aparência de cogumelo morto que trazia ao rosto não fosse o constante latejar doloroso a despertar-lhe a consciência. 

As mãos - a esquerda repousando sobre as pernas cruzadas, e a direita, segurando a xícara de café – eram frágeis e delicadas, de dedos longos e unhas curtas, sem esmalte. Mãos feitas para os movimentos finos, ou para servirem de modelo para jóias de alto luxo. 

Eram, no entanto, treinadas para atirar, estrangular, matar sob as mais diversas formas. 

A essa altura, ousaremos perguntar o que provocou o olho roxo e o tremor, ainda que despercebido, de suas mãos? 

Tudo começou com gritos e empurrões do companheiro, até então muito romântico. De início, ela apenas avisou que ele parasse, sem tomar qualquer outra medida, pois achava que era sua culpa; afinal, nunca vivera com ninguém antes do Beto. 

Quando ela finalmente o expulsou de casa, Beto reagiu mal. Pensou que a esposa era apenas um enfermeira indefesa, sem eira nem beira. Jamais passaria por sua cabeça que a doce Anne era contratada por uma firma de assassinos, sabotadores e sequestradores de aluguel. Passemos, então, a outra pergunta: como uma mulher dessas permitiu-se ficar com um sujeito como Beto?

O que responder? São tantas as possibilidades, impossível saber ao certo. Talvez os gritos de seu relógio biológico fizeram-na ansiar por um relacionamento sólido. Beto parecia ser uma boa escolha e o sexo sempre fora muito bom. Até Beto mostrar sua verdadeira face. 

Naquela – fatídica, por que não? - noite, ele, sabemos, reagiu mal. Deu-lhe um soco no rosto, que só não a atingiu em cheio porque seus reflexos não lhe falharam e ela se desviou em tempo de evitar um estrago maior. Qualquer outra mulher teria sucumbido.

Não Anne. Cega de ódio – mais por ter sido surpreendida, diga-se – revidou. Subjugou o marido e amarrou-o. Fê-lo ingerir todo o uísque da casa (não perguntem como; ela tinha seus métodos). Em seguida, provocou-lhe  o vômito, tapando a boca e o nariz do marido. Anne consciente do que fazia. Aliás, já fizera algumas vezes.

Ao fim, ela o desamarrou, deixando-o caído da maneira a simular um acidente – bebeu demais e sufocou no próprio vômito. Sabia muito bem como esconder vestígios, forjar provas, enganar a perícia. Sabia fazer muitas coisas incomuns. Só não sabia ainda como se envolvera com aquele safado. Bem, isso não era mais problema.  

Ligou para a firma. O pessoal do administrativo arranjaria toda a situação e lhe daria um álibi incontestável.  Vestiu-se de azul, sua cor preferida, que sempre usava quando em missão, e saiu. Precisava de sossego.  

Blue Motorcycle:
 tequila, rum,
vodca, gin, soda,
Blue Curaçao
Saboreando o café, concluiu que errara duas vezes: quando suportara o primeiro grito; e quando desejara uma vida normal. Ela era Anne, a Mensageira da Morte! O que a fizera pensar que poderia ter uma vida normal? “Gosto do que faço, sou boa no que faço. Detesto trabalho burocrático. Nunca me casarei, nem terei filhos, e provavelmente morrerei violentamente, que é o destino de boa parte dos Mensageiros da minha linha.”

Vida normal o cacete. Isso não foi feito pra mim. Mas acho que vou voltar à terapia.

Pediu uma dose de Blue Motorcycle. Para combinar comigo, pensou. 

Sorriu. A vida era boa. E tudo ficaria bem. Seu lado matador vencera, mais uma vez. 

Quadro: Coffee Break, de Ben Aronson (Pinterest)

High Plains Drifter - western estrelado por Clint Eastwood, com título em português O Estranho sem nome (ou, em algumas versões, O Pistoleiro do Diabo)




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