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Mostrando postagens de Abril, 2013

MALDITAS EXPECTATIVAS >> Clara Braga

Essas novas tirinhas do Armandinho estão fazendo o maior sucesso no facebook, toda vez que abro o meu me deparo com uma tirinha nova! Me divirto com ele, tem um humor no estilo Mafalda de ser, gostei! Na verdade nem sei se as tirinhas são tão novas assim, eu é que sou meio desligada dessas coisas, mas pelo menos são novas para mim!
A última que eu vi deu o que falar, todo mundo estava postando e fazendo comentários sobre um assunto que dá pano pra manga, expectativas. Na tirinha, Armandinho diz para sua mãe que já entendeu que ela está chateada, mas que não entende porque ela está chateada com ele, uma vez que foi ela quem criou as expectativas. Pelo que eu vi, a maioria das pessoas que comentavam a tirinha diziam que a culpa é mesmo de quem cria a expectativa, e o melhor é não ter expectativas em relação a nada, pois se alguém faz algo que você não estava esperando, então você está no lucro, mas se a pessoa não faz algo que você esperava que ela fizesse, ai você se frustra, e ningué…

LEITURAS DE OUTONO E INVERNO >> André Ferrer

O calorzinho na superfície da lã que vestimos. Ao nosso redor, os vapores da terra, que se desprendem e sobem à medida que o sol aparece. É aconchegante uma caneca de café, em casa, depois da caminhada. Sempre que posso, capricho no ritual. Raros tesouros acontecem na vida e só podem, mesmo, acontecer de um jeito. Carecem da época certa para acontecer.

Um ianque na Itália sitiada pelos austríacos. Uma odisseia nas ruas de Dublin. Um médico reduzido a faxineiro. Hemingway. James Joyce. Kundera. Livros que li entre abril e agosto de anos diversos.
Adeus às armas tinha o amargo do café e a saturação doce do leite condensado. Antes de inspecionar ambulâncias, o herói, tenente Frederic Henry, bebia a mistura. Os canhões, à distância, entre o Piave e as montanhas ao redor de Gorizia, pareciam adiar a ação e o drama inevitáveis. No romance e na vida, doce e amargo tratariam de colocar homens, garotos e vaidades no seu devido lugar.
Depois, conheci Leopold Bloom, que combinava com algumas faixas…

UMA HISTÓRIA INCOMPLETA >> Whisner Fraga

Hoje estivemos, Ana, Helena e eu, visitando Araras, uma pequena cidade do interior paulista, que está investindo muito em educação. Fui à inauguração de um polo da Universidade Aberta do Brasil, que reúne sete ou oito renomadas instituições de ensino, que estão apostando na educação a distância. Não vou discutir, neste momento, questões pedagógicas ligadas à qualidade da formação, mas adianto que sou a favor desta modalidade de aprendizagem e que acredito que ela pode ajudar a sociedade brasileira a se tornar mais igualitária.

Fato é que houve muitos discursos, uns protocolares, outros comportados demais e ainda alguns bastante chatos. O espaço que abriga o polo recebeu o nome de Dirçon Kammer, um famoso educador da cidade, professor de metade das celebridades do município, de maneira que boa parte dos presentes havia sido aluna do saudoso mestre.

Em uma fala emocionada, o prefeito, que também tinha sido discípulo de Kammer, relatou um fato que lhe ocorreu. Quando tinha quatorze anos…

KARMA >> Zoraya Cesar

Loura, magra, fatal, existem homens que são irresistivelmente atraídos para mulheres desse tipo. Que tipo, perguntarão vocês: loura, magra, fatal? Não, o tipo cínica, egoísta, sedutora e mortal. O tipo, tão invejado pelas outras mulheres, que fazia dos homens o que queria. 
Sheila tinha um talento natural para a conquista e sedução, com a grande vantagem de não se apegar. Amava apenas a si mesma, achava que merecia tudo do bom e do melhor, e não media esforços para isso. A Mãe de Santo tentava alertá-la contra sua ambição desmedida, mas Sheila só pensava em seu futuro. Daí que ela conheceu Arnaldo, que tinha 36 anos a mais que os vinte dela, duas filhas e uma esposa meio adoentada, meio chatinha, meio gasta. E um posto de gasolina. 
Sheila podia ser a mulher mais encantadora do mundo. Arnaldo largou a mulher, as filhas, só não largou o posto, e casou. Mas, sabem como é, um homem já não tão novo, sedentário e fumante, preguiçoso e caseiro... e Sheila só tinha vinte anos. Foi tão fác…

O MERGULHO >> Fernanda Pinho

PERSPECTIVA >> Carla Dias >>

Vai que você passe, arrastando seu passado escandaloso, recheado de tropeços e amores, arraigado em sorrisos e desaforos. Que dance a dança dos mistérios, e investigue a história dos soluços, alimente universos paralelos, e ameace o choro se ele acontecer sem consentimento.

Com sentimento...

Vai que você reze por medo, desbrave o mundo com elegância, desça do salto da esperança, só para encarar o derradeiro. Grite por ajuda ou brincadeira, gargalhe diante da fatalidade. Revire gavetas, procure tesouros escondidos em bocas alheias, venda paixões imaginárias a troco de nada e redenção. Que mude tudo de lugar só para garantir tropeço.

Caia aos pés dos recomeços.

Vai que você passe, exalando o perfume das tragédias, trançada em panos da comédia, fazendo-se de vítima da felicidade. Das obras tortas da felicidade. Da indecência da felicidade. Da sagacidade da felicidade. Da falta que faz a felicidade.

Quando ela se perde da gente.

Vai que você cometa crime, mate o dó e o ressuscite lágrima…

MEMÓRIAS NÃO REVELADAS VÃO AO BORDEL III >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)

Dasdô olhou para Nicolau e viu que ele viajava. Nem a conversa tava rendendo. Não gostava disso, era honesta, queria dizer que ele estava jogando dinheiro fora, mas tinha medo que ele se aborrecesse de novo.

De fato, Nicolau penetrara no escuro de seus próprios pesadelos. Enquanto eram noturnos, ele os aguentou bem. Dormia mal, acordava pior, olhos inchados, adoecia, mas aguentou. Aí começou a vê-los acordado. Estavam em todos os lugares, às vezes com os mesmos rostos retorcidos daquela época. Podia ouvir-lhes a voz, os gemidos, as súplicas. Outras vezes enxergava-os já de cabelos brancos, andando pelas ruas com filhos e netos, como se um programa de computador os tivesse envelhecido. Ele fugia, entrava numa loja, mas lá estavam eles. Pareciam reconhecê-lo. Sorriam como se tivessem vencido, como se fosse ele o torturado. Como se soubessem do seu abismo. Não o olhavam com ódio, não o condenavam. Pareciam se divertir. Pareciam tranqüilos, como Dasdô ali em frente. Como o o…

ENTRE PANELAS, PRATOS, TALHERES E MÚSICAS >> Sílvia Tibo

Fiquei feliz demais quando fui aceita aqui no Crônica do Dia. Embora escrever esteja entre minhas grandes paixões (do que, aliás, só me dei conta há pouco tempo), não me imaginava incluída em um grupo de escritores de verdade. Desses “propriamente ditos”, se é que alguém me entende.
Mas, a despeito da alegria de ter sido tão bem recepcionada por aqui, uma coisinha, lá no fundo, me preocupou assim que vi meu pedido sendo aceito pelo Edu, nosso editor. A famosa “pulga atrás da orelha”. Daquelas que coçam, coçam e coçam. Sem parar e sem sair do lugar (com o perdão da rima pobre, óbvia e sem graça).
Pensava eu, com meus sempre inquietos e ansiosos botões: onde é que vou arrumar assunto pra tanta crônica? Afinal, o compromisso assumido era de um texto por quinzena, aos domingos, e sem data pra acabar, o que (pensava eu) seria muito pra quem não escreve por profissão, mas tão somente por pura e despretensiosa paixão. 
Para a minha tranquilidade, desde então, cheguei a todos os domingos (dias …

ROUBOU-ME DE MIM [Ana Maria González]

A aula terminara antes e eu teria um tempo a mais. Mas, antes de me por a caminho do ponto de ônibus, saí em busca de uma pessoa que eu tinha mantido na memória durante o tempo da aula. Uma personagem inesquecível.
Pela rua de apenas duas quadras, o movimento era grande, talvez ainda maior do que quando eu chegara. Os passantes tinham que disputar espaço entre os jovens estudantes espremidos nas calçadas. Não havia aula? Parecia que a população das faculdades estava toda lá sob o céu claro de uma noite de clima ameno. As salas estariam vazias? A opção de ficar fora das salas de aula era um gesto próprio dessa geração, uma rebeldia? O exercício da liberdade?

Eram jovens com copos nas mãos e cigarros nas bocas, tão semelhantes nos olhos, nas roupas, em seu momento de vida. Alguns com camisa de escritório, a maioria com camisetas coloridas e tênis. Aquele com tiara escura a se misturar nos cabelos alisados com algum creme. Muitas mochilas às costas. As mulheres com sapatilhas, saia…

O CAFÉ FICOU MAIS TRISTE LÁ NA CASA DOS MEUS PAIS >> Mariana Scherma

Carla Vilhena, ex-apresentadora do Bom Dia São Paulo, deixou, quer dizer, foi destituída do cargo. Se você acorda depois das 7h20 da matina ou não vive no estado nem se deu conta e continuou vivendo normalmente, tomando seu café, comendo seu pãozinho com manteiga, seu mamão papaia... Mas, assim que soube do acontecido, tomei um soco no estômago. Não conheço a Carla pessoalmente, mas conheço uma pessoa que está amargando uma saudade absurda dela todo dia no café da manhã: meu pai.
Não, meu pai também não conhece a Carla pessoalmente. Mas a admiração que ele sente por ela fez com que minha mãe e eu também gostássemos da Carla como se fosse da família, como se estivesse sentada à mesa conosco tomando o café deliciosamente forte da mamis. Quantas vezes meu pai deixou o café esfriar pra ver a Carla nem ele próprio sabe. "A Carla é imponente. Ela não tem o sorriso fácil, aí quando sorri fica até mais bonita". "Olha só, até as repórteres ficam inibidas diante da postura da Carl…

FIM DO MUNDO >> Carla Dias >>

Essa coisa sutil, vestida em panos esvoaçantes, representada pelos sorrisos enquadrados na beleza do cometimento. Nós flutuamos e solícitos de que para hoje já basta de arremedos e remendos. E os pés oferecendo a dança, à mercê da espontaneidade que só existe na ausência das amarras.

Mesmo que venha até nós esse ser labiríntico, vestido de pesos e medidas, arqueado de tão cansado que anda. Mesmo que ele se arraste até nós, e cochiche em nossos ouvidos por pura crueldade abastadamente alimentada, que isso é provisório, vai passar e deixar só o pó com seu peso quase nulo, sua capacidade férrea de remeter às solidões. Ainda assim, escolheremos o aconchego da esperança que mora na possibilidade de acontecer diferente. Um diferente capaz de inspirar felicidade. Porque o mundo já anda repleto de algozes com suas técnicas requintadas de fazer sofrer, de ceifadores de sonho alheio, divulgadores do ódio.

Por que não vivermos margeando algo menos apocalíptico? Desligar a tevê quando o programa…

HISTÓRIA DE PESCADOR >> Whisner Fraga

Gosto muito de pescar, acho até que já escrevi isso aqui outras vezes. Não que eu saiba a isca adequada para cada tipo de peixe ou seja perito em luas, marés, cardumes e anzóis. Meu negócio é jogar a linha na corrente e esperar que algo aconteça. Enquanto isso, os ruídos da natureza me acalmam. O rio Tijuco testemunhou
muitos desses meus pensamentos e de seu leito tirei muito piau e cascudo.

As pessoas não acreditam muito, portanto, quando eu digo que não gosto de água. Certa vez, eu trocava uma chumbada às margens deste rio que banha minha cidade natal, quando escutei alguém gritando. Era um moço que estava sendo arrastado pela correnteza. Eu vi que o sujeito submergia e voltava, os braços erguidos, tentando respirar. Várias pessoas o seguiam pelo barranco, alguns ensaiavam palavras de ânimo, mas percebi que a coisa estava feia. Ninguém podia fazer nada pelo rrapaz. Se não encontrasse nenhuma pedra pelo caminho, teria chances de sobreviver. Mas achou uma danada, bateu o peito na rocha…

ACREDITAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO >> Zoraya Cesar

Era um incrédulo, um incréu, um infiel. Não chegava sequer a ser um agnóstico, mas chegava às raias do deboche. Não viessem ter com ele conversas moles sobre religião que Otavio, com argumentos cortantes e definitivos, expunha a pessoa ao ridículo. Desconstruía o interlocutor camada por camada, até demonstrar que o coitado tinha apenas uma pátina de religiosidade e, no fundo, nenhuma fé. Não fosse ele também – ah, as contradições humanas – um homem sensível e caridoso seria um chato insuportável. Sim, Amigos, vocês leram direito. Otávio era um homem caridoso. Ajudava campanhas de auxílio aos pobres, era motorista dos amigos que, de madrugada, serviam sopa aos moradores de rua. E por aí vai. Mas, nesse mundão de meu Deus, além da esposa Vilminha, cardecista de carteirinha, não havia mais ninguém que Otávio respeitasse? Havia sim, e pasmem, era o cunhado. Ah, dirão vocês, também um tantinho incrédulos, o cunhado? Sim, e digo mais, o cunhado era umbandista, incorporava entidades dive…

PEQUENAS GUERRAS FRIAS >> Fernanda Pinho

SOBRE ACUMULAR PESSOAS >> Carla Dias >>

Minha mãe disse, em uma dessas conversas em que concluímos a mesma com alguma frase que resume tudo, que “a vida é isso... um acúmulo de pessoas”. Tenho de concordar com ela, até porque falávamos sobre o nascimento da sua bisneta (ok, sim... tornei-me tia-avó), em uma família tão grande que há primos que nem conheço.

Fiquei pensando sobre esse acúmulo de pessoas, que não é apenas de familiares, mas também de amigos, de colegas de trabalho, de companheiros de jornada ocasionais. Eu sei... Você acumula coisas, cargos e não pessoas. É isso o que você vai pensar ao ler esta crônica. Vai dizer que imaginou um monte de pessoas apinhadas num canto da sua sala, coisas do tipo. Mas a verdade é que acumular faz parte da essência do ser humano.

Talvez não seja a palavra mais palatável para descrever o que quero dizer, mas acredito que seja a certa para o assunto. Pense no seu perfil em redes sociais. Quantas pessoas fazem parte dela? Com quantas você realmente mantém um relacionamento? E não …