domingo, 28 de abril de 2013

UMA HISTÓRIA INCOMPLETA >> Whisner Fraga

Hoje estivemos, Ana, Helena e eu, visitando Araras, uma pequena cidade do interior paulista, que está investindo muito em educação. Fui à inauguração de um polo da Universidade Aberta do Brasil, que reúne sete ou oito renomadas instituições de ensino, que estão apostando na educação a distância. Não vou discutir, neste momento, questões pedagógicas ligadas à qualidade da formação, mas adianto que sou a favor desta modalidade de aprendizagem e que acredito que ela pode ajudar a sociedade brasileira a se tornar mais igualitária.

Fato é que houve muitos discursos, uns protocolares, outros comportados demais e ainda alguns bastante chatos. O espaço que abriga o polo recebeu o nome de Dirçon Kammer, um famoso educador da cidade, professor de metade das celebridades do município, de maneira que boa parte dos presentes havia sido aluna do saudoso mestre.

Em uma fala emocionada, o prefeito, que também tinha sido discípulo de Kammer, relatou um fato que lhe ocorreu. Quando tinha quatorze anos, o pai o chamou para uma bronca: todos os irmãos trabalhavam, de modo que ele já passara da época de trazer um dinheirinho para casa. Escola era luxo, a família precisava primeiro de comida. Não ficou muito claro, mas nos pareceu que o prefeito teve de abandonar a escola por um tempo. Acontece que Dirçon ministrava aulas de Artes e o seu querido pupilo deixara um quadro por terminar.

O professor então terminou a pintura do menino e correu à sua casa para entregá-la a ele. Eu não sabia como a história terminaria e, para minha decepção, ela não acabou mesmo. Depois que o quadro foi entregue, não se soube de mais nada. O que queria dizer isso? Que o tutor quis dar algum tipo de lição? Que ele teria alertado o rapazinho que se não tivesse desistido da escola, ele mesmo poderia ter finalizado a obra? Que as próximas pinturas teriam de ser arrematadas pelo próprio autor? Que alguém está sempre completando algo por nós? Talvez nunca venha a saber.

Depois, fiquei imaginando o velhinho, de bengalas, chegando com dificuldade ao consultório médico de seu ex-aluno. Sim, porque o menino se tornou um renomado doutor. E, ao adentrar o prédio, pedir ao homem de branco para ver aquela antiga pintura, certamente dependurada ao lado de vários diplomas, num espaço de honra. Mas não soube se isso acontecera. Não soube, no dia de hoje, o sentido daquele enredo.

O que sei e que posso dizer é que o discurso foi emocionado e emocionante. Vi várias pessoas da plateia chorando. O tom de voz não era para menos: estávamos na presença de alguém que domina a prática de falar com público. Eu, que gosto de histórias, fiquei parcialmente decepcionado. Parcialmente, porque é sempre interessante escutar alguém que conhece os segredos da oratória. Mesmo que ele falasse em mandarim, língua que ignoro por completo, eu apreciaria seu discurso.

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