quinta-feira, 11 de abril de 2013

PEQUENAS GUERRAS FRIAS >> Fernanda Pinho




De repente, você faz um comentário aleatório e uma pessoa do seu círculo de convivência tem certeza de que foi uma indireta e fica ofendida. Você não sabe de nada até encontrar a tal pessoa e receber um tratamento um tanto quanto frio. Mas você não leva desaforo pra casa e decide esfriar do seu lado também, não sem antes soltar umas farpas por aí. Farpas estas que podem se encaixar na situação. Ou não. E quando pensa que não, você tem praticamente um inimigo, sem nem saber o motivo.

Eu, que já passei por situações de, sem ter a menor ideia do porquê, notar algumas pessoas reagindo à minha existência como se eu fosse o Jason na sexta-feira 13, sou adepta do ir direto ao ponto. Chego e pergunto qual é o problema. Normalmente, as coisas se esclarecem. Porque sempre que cheguei ao ponto de botar a roupa suja pra lavar foi com alguém por quem eu tenho alguma consideração. Se não tenho nem consideração, tô nem aí para como a pessoa reage à minha existência.

Acontece que nem para todo mundo é fácil encarar a situação de frente. Existe trauma, existe timidez, existe vida sem graça (pra quê esclarecer a situação se esse é o único assunto que movimenta meus dias?). E aí, na maioria das vezes, fica o dito pelo não dito. E o não dito, quase sempre, é um mal entendido monstro. Porque se não foi dito, podemos imaginar qualquer besteira. E assim somos, 90% dos humanos: por que eu vou canalizar minha imaginação escrevendo livros, produzindo filmes ou fazendo descobertas fantásticas para a ciência se eu posso usar toda ela para especular o que os outros conspiram sobre mim? Estamos sofrendo de carência, estamos sofrendo de mania de perseguição, estamos achando que tudo é feito de caso pensado para nos atingir e por isso produzimos mal entendidos em larga escala.

Sobretudo agora, com o aval das redes sociais. A pessoa escreve “o pica pau é mau” e vai ter pelo menos uns dez pra pensar “hummm...acho que esse pica pau sou eu”. E assim é dado o primeiro ponto para tecer essa rede de guerras não declaradas que – eu já vi acontecer – pode até destruir amizades. Por isso eu sou a favor da criação de um tribunal das pequenas grandes causas. Cada uma das partes apresenta suas versões, suas defesas, seus sentimentos envolvidos e o juiz absolve todo mundo da angústia de não saber onde a relação se perdeu.

Mas, como o tribunal é só mais um fruto da minha imaginação equivocadamente aproveitada, pensemos em soluções alternativas. A pessoa falou que ia te ver e não foi? Talvez ela esteja doente, trabalhando ou tenha ficado presa no engarrafamento. Ou, quem sabe, nem tenha percebido que você a convidou para ir na sua casa. Seja mais convincente na próxima. Você ligou três vezes e a pessoa não atendeu? Já ouviu falar que celulares estragam? A pessoa não reagiu com euforia a um presente que você deu? Não julgue. Você nunca vai ter certeza do que acontece no fundo do coração do outro. A pessoa escreveu que o pica pau é mau? De repente ele só está falando do desenho e não lembra que você existe há um mês. Acho que usar um pouquinho da nossa imaginação para o bem, com o perdão da rima, não faz mal a ninguém.

(Atenção: O conteúdo acima é uma opinião pessoal e intransferível sobre situações genéricas. Não devendo ser considerado como indireta para ninguém).


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2 comentários:

silvia tibo disse...

Adorei, Fernanda!
É aquela coisa, né... tem gente que acha que o mundo gira em torno delas... e que as outras pessoas não têm nada melhor e mais útil a fazer do que passar a vida conspirando contra elas...
Você já leu Sun-Tzu-A Arte da Guerra?
Aquela ideia de que "o inimigo está sempre a postos e pode atacar a qualquer momento!"
Mal sabem, tais criaturas, que há muito o que se ver e se fazer para além do próprio umbigo...
Beijo!
:)

Symon Murilo disse...

Certamente um dos melhores que aqui achei! Muito bom!