quinta-feira, 18 de abril de 2013

O CAFÉ FICOU MAIS TRISTE LÁ NA CASA DOS MEUS PAIS >> Mariana Scherma


Carla Vilhena, ex-apresentadora do Bom Dia São Paulo, deixou, quer dizer, foi destituída do cargo. Se você acorda depois das 7h20 da matina ou não vive no estado nem se deu conta e continuou vivendo normalmente, tomando seu café, comendo seu pãozinho com manteiga, seu mamão papaia... Mas, assim que soube do acontecido, tomei um soco no estômago. Não conheço a Carla pessoalmente, mas conheço uma pessoa que está amargando uma saudade absurda dela todo dia no café da manhã: meu pai.

Não, meu pai também não conhece a Carla pessoalmente. Mas a admiração que ele sente por ela fez com que minha mãe e eu também gostássemos da Carla como se fosse da família, como se estivesse sentada à mesa conosco tomando o café deliciosamente forte da mamis. Quantas vezes meu pai deixou o café esfriar pra ver a Carla nem ele próprio sabe. "A Carla é imponente. Ela não tem o sorriso fácil, aí quando sorri fica até mais bonita". "Olha só, até as repórteres ficam inibidas diante da postura da Carla. É uma rainha". “A Carla é corintiana, olha o sorriso dela ao falar do Corinthians”. Eram frases desse tipo que entoavam o café da manhã da casa dos meus pais. E nem pense que meu pai é um safadão, é o tipo de elogio com zero interesse, é admiração mesmo. Meu pai é muito feliz com a dona Neide, que também tem olhos azuis, é imponente, bem gatona e tão segura de si que sente zero ciúme da Carla.

Vendo o interesse do meu pai, fiz uma busca sobre a jornalista e descobri que ela era botafoguense. Meu pai fez que não acreditou e disse que ela tinha simpatia pelo timão porque “olha o sorriso dela, é diferente quando a vitória é do Corinthians”. Assim como um esquimó sabe diferenciar tons de branco, o seu Antonio diferencia os variados tons do sorriso da Carla. Eu nem discuti. Quando eu era adolescente, tinha adoração por Johnny Depp e só acreditava no que minha cabeça ordenava quando o assunto era ele.

Meu pai é uma figura. Se eu não nascesse filha dele, teria que encontrá-lo por aí só pra ser amiga (e juro: morreria de ciúme dos seus filhos). Ele é inteligente e sabe de tudo sem precisar jogar no Google. Ao mesmo tempo, é um sujeito puro, íntegro, acho que o homem mais honesto que já cruzou meu caminho. Mas como todo sujeito puro tem essas admirações platônicas e agora está sofrendo. Carla Vilhena é o topo de todas elas. Por isso, fiquei engasgada ao contar pra minha mãe e pedi que ela desse a notícia com calma. Foi mais ou menos como jogar uma bomba lá em casa. Em pleno café da manhã.

Na hora do exagero, papis disse que agora não tem mais motivo pra acordar cedo, a direção de jornalismo da Globo acabou com a graça das manhãs dele, ele vai boicotar a Globo. É, família meio exagerada mesmo, ah se não fosse o equilíbrio da minha mãe... Mas eu entendo meu pai. A sensação dele foi mais ou menos como a minha, quando soube que Kurt Cobain nunca mais cantaria Come As You Are. Depois de um tempo, a gente volta ao normal e ouve Come As You Are com nostalgia ou, no caso dele, vê as futuras reportagens dela para o Fantástico (papai vai ter que assistir ao Fantástico...).

No fundo, essa admiração toda do meu pai pela Carla me fez relembrar que eu abandonei minhas paixões platônicas da adolescência e fiquei meio indiferente a tudo. Vou tratar de recuperar essa admiração pura. É ela que deixa a vida mais divertida. Gostar sem esperar nada em troca... existe sentimento mais puro? Ah, meu pai seguiu levantando cedinho, ninguém consegue ficar na cama com o cheiro do café da minha mãe. E que eu saiba, ainda não rolou boicote a Globo. Bom, mas se rolar acho que não significa a falência da emissora, né?







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2 comentários:

Carla Dias disse...

Mariana, acho que se a Carla lesse essa crônica, talvez pensasse em tomar um café com seu pai. Adorei a forma como você expôs a admiração dele por ela e seu carinho e respeito por ele. Um beijo!

Ana Leticia disse...

Linda crônica. Admiro imensamente como vocês escrevem. Um jeito tão sutil e realista que até posso ver sua sala de tv e posso até sentir o aroma do café da sua mãe. Meu pai tem uma admiração incrível pela voz da Valéria Grilo da TV Culura, ele a ouve com os olhos fechado e diz que tem certeza que ela narra os documentários com sorriso nos lábios, por isso seu tom de voz soa como um veludo... Este nossos pais, amor eterno...
Parabéns pela crônica.
Leticia