quarta-feira, 17 de abril de 2013

FIM DO MUNDO >> Carla Dias >>

Essa coisa sutil, vestida em panos esvoaçantes, representada pelos sorrisos enquadrados na beleza do cometimento. Nós flutuamos e solícitos de que para hoje já basta de arremedos e remendos. E os pés oferecendo a dança, à mercê da espontaneidade que só existe na ausência das amarras.

Mesmo que venha até nós esse ser labiríntico, vestido de pesos e medidas, arqueado de tão cansado que anda. Mesmo que ele se arraste até nós, e cochiche em nossos ouvidos por pura crueldade abastadamente alimentada, que isso é provisório, vai passar e deixar só o pó com seu peso quase nulo, sua capacidade férrea de remeter às solidões. Ainda assim, escolheremos o aconchego da esperança que mora na possibilidade de acontecer diferente. Um diferente capaz de inspirar felicidade. Porque o mundo já anda repleto de algozes com suas técnicas requintadas de fazer sofrer, de ceifadores de sonho alheio, divulgadores do ódio.

Por que não vivermos margeando algo menos apocalíptico? Desligar a tevê quando o programa usar a dor de alguém para melindrar sua necessidade de aumentar ibope. Não permitir que comentários grotescos ganhem poder ao repeti-los, ainda que em tom de censura. Prestar atenção ao que dissermos, porque às vezes é preciso um toque de doçura que endosse o nosso ponto de vista. Há uma linha tênue separando o direito ao pensamento livre, à liberdade de expressão, e essa linha é o direito do outro de fazer o mesmo. Para que ele entenda esse direito sendo respeitado, e o respeite de volta, é preciso não se impor quando a situação pede troca.

Jamais nos livraremos do limite. O que aprendemos é a não limitar o que nos é de direito, de viver, de ser.

Tudo bem pensarem que somos seres vivendo sob a batuta da ingenuidade. Que nosso alvoroço interno nada mais é que material para poesia ruim, declamada por ébrios para desiludidos. Porém, quem ousa experimentar dificilmente se sentará todos os dias à mesa do fracasso e da dor. Haverá essa fome por delicadezas, por respeito, pela alegoria dos silêncios provocando as palavras, incitando-as a libertar benquerença.

Porque viver sendo ladeado, o tempo todo, pela imbecilidade que catequiza os extremistas, pela descortesia dos que se intitulam dignos de um poder absoluto e inquestionável que não existe, amém. Pela falsidade do amor do “eu te amo” para roubar do outro a dignidade, o dinheiro, às vezes até mesmo a vida. Porque viver assim, submisso ao medo de que, dia desses, tudo se torne um fim previsto, catalogado nos livros sagrados, cuspido pelos governantes, ditado pelo medo de mudança, não é viver.

Talvez não lhes interessem saber, mas para nós as entrelinhas têm valor. As frestas iluminam e no raso quaramos profundidades. Diferenças constroem igualdade, lonjuras operam o milagre de criar diversidade. Lonjuras são belamente apreciadas porque alimentam a pluralidade cultural. Em outros casos, melhor concluir proximidades ao tom dos abraços. E cada dia é uma chance de nos desapegarmos do constantemente funesto.

Não que o mundo vá se tornar um eterno parque de diversões. Sempre haverá com o que nos condoermos, porque nascemos isso e aquilo, e isso significa que erraremos e muito, durante a nossa jornada. Mas podemos fazer melhor do que nos sentarmos e assistirmos o mundo sofrer de descaso. Porque o fim do mundo acontecerá se o deixarmos de lado.

Fim do mundo é estagnarmos diante do que nos afronta e fere.

Fim do mundo é não viver.


PROCURA NO GOOGLE - KLEBER ALBUQUERQUE
 
Atividade realizada com os alunos do 4º ano A - 2013 da EMEF Prof. Francisco da Silveira Bueno - DRE Ipiranga São Paulo, projeto didático: A Comunicação Escrita Através dos Tempos: das Cartas de Paulo de Tarso aos e-mails pessoais e pesquisas no Google.



Imagem: sxc.hu



Partilhar

2 comentários:

Zoraya disse...

Carla, essa está indescritivelmente linda, linda, linda. Obrigda por mais esse presente

Carla Dias disse...

Zoraya... Eu que agradeço. E um beijo!