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Mostrando postagens de Setembro, 2020

DESPERTENCER >> Carla Dias >>

Parto do princípio de que não pertenço.Ao não pertencer, abro mão do currículo que temos de carregar, diariamente, como prova crucial de quem somos e onde podemos chegar. Mas não me iludo, sei que se trata de um ínfimo instante o experimentar desse desapego. Que provarei de goles dele, durante a vida, e que há um duro trabalho a ser feito para despertencer de vez.Despertencer de quem seria, fosse o avesso de quem sou. Das branduras falseadas, que nada mais fazem do que perfumar a dor ferina dos desfechos. Esse desapego pelo certo, calculado, pelos calendários e feriados, pelas portas de entrada que são travadas, depois que nos engolem. As janelas voltadas ao horizonte, que enxergamos feito quadro, quando deveríamos pertencer à pintura.Os temporais domesticados.Muitas vezes, vestimo-nos com amarras, como se elas fossem redes capazes de nos livrar dos tombos, segurando-nos a poucos centímetros do chão. E então, passamos a viver assim, centímetros de distância nos separando da experiênc…

UMA CARTA PARA O THEO >> Clara Braga

Há 3 anos, o dia 22 de setembro caía em uma sexta-feira! Era um dia quente que anunciava a chegada da primavera! E assim, você decidiu que era hora de nascer!
Lembro de cada detalhe, de cada minuto e do quão difícil foram as 16 horas de trabalho de parto. As pessoas dizem que com o tempo você esquece, eu não acredito nisso, eu acho que com o tempo você entende!
Entende que vale à pena segurar no colo, colocar pra dormir, ver o primeiro sorriso, ouvir o primeiro “mamãe”, ver os primeiros passos, enfim, uma infinidade de coisas te fazem entender que toda aquela dor tinha um porquê de ser.
Não sou de romantizar a maternidade, acho injusto com as mulheres que só se fale da maternidade como algo mágico e necessário para que a mulher seja “realizada”.
Mas acho no mínimo justo com você, meu filho, que você saiba o quão amado você é! Obrigada por todos os ensinamentos, eu amo a família que nos tornamos com a sua chegada! Desculpe os momentos de impaciência e incerteza, mas sei que estamos todos c…

A FAXINA >> Albir José Inácio da Silva

- Por que o senhor demora tanto nesse piano? – perguntou a Condessa que por pouco não viu o teclado. Para disfarçar, Jovino ficou passando o pano na tampa que acabou de fechar.- Já tô acabando, madame! – respondeu quando ela se afastou, mas não completou o suspiro de alívio porque o verniz da tampa tinha ficado no pano.Até poucos minutos atrás tudo ia bem. Chegou a ligar pra namorada na hora do almoço:- A patroa me chama de senhor - nunca ninguém me chamou de senhor - e desejou melhoras pra você. Quero fazer isso pelo resto da minha vida.Valdeia ficou feliz pelo namorado. Ele era trabalhador, mas não dava sorte. Jovino veio porque a coisa estava ruim lá em Minas. Não conseguia estudar, não arranjava emprego e se sentia culpado. Primeiro ele achou que era desinteligência, depois concluiu que era preguiçoso. Alguns amigos já estavam na faculdade e ele fazendo biscates. Resolveu vir pro Rio de Janeiro. A idéia era mudar de vida: trabalhar de dia e estudar à noite, lugar novo, gente nova,…

VOU TE CONTAR >> Sandra Modesto

Eu não vou te contar sobre o agora. Estou farta de tantas notícias tristes. Prefiro o passado cravado em mim.  Desde menina eu inventava histórias. Antes de ser alfabetizada lá estava eu. Meio arredia, criando meus mundos particulares. Quando eu fui pra escola no final dos anos sessenta, existia uma cartilha. Horrorosa por sinal. Era um alfabeto sem eira nem beira. Fui reprovada. Eu não conseguia...  Que merda de cartilha era aquela? Bom, no ano seguinte, consegui avançar pra o livro (livrinho) com algumas bizarrices, mas tudo bem. No atravessar do tempo, quarta série do ensino Primário, a professora levava uma gravura para aguçar nossa imaginação. A ilustração como referência na escrita.  Quando a professora Juventina (minha professora maravilhosa), perguntava:  — Quem já terminou?  — Eu!  As professoras de Português sempre gostaram dos meus textos. E isso foi no ensino Primário, no Médio e na graduação em Letras.  Uma vez, na sétima série, a professora pediu que levássemos na aula seguin…

MELINDA. A MENINA. A MORTE CINZA. 2A E ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar

Melinda morrera. Para alguns, uma morte inesperada. Para outros, no entanto, mais do que esperada. Planejada.
A Menina se aproximou do corpo, lenta e cautelosa; o cachorro gemia baixo, rente às suas pernas. O silêncio seria absoluto, não fosse o leve balouçar da cortina sob uma brisa de sussurro. E o burburinho dos mortos, das almas perdidas, dos insones astrais. Cheiroucorpo, desconfiada. A nota de saída era mel, mas parecia de mel estragado. E a nota de fundo, que deveria ser de rododendro, tinha um odor acre, inidentificável. Passou o dedo na pele ainda – estranhamente – úmida e provou delicadamente, com a ponta da língua. Sabia a fel, não a doce.Não havia dúvidas, algo dera errado, muito errado.O rosto contorcido da amiga revelava que ela sentira dor. A Menina ficou nervosa. Não era esse o plano. Melinda deveria morrer em paz, dormindo, sem sentir nada. Foi o combinado.Sentou-se, tremendo. Melinda sempre fora boa pra ela e sua Família. Cedia mantimentos, preparava doces e bonecas pa…

POR OUTRO CAMINHO >>> Nádia Coldebella

Terça-feira, dezessete de março de 2020, dezenove horas e dez minutos. Dez minutos a mais no meu trabalho, dez minutos a menos com minha família. Milhares de minutos a menos da minha vida, que me foram roubados, como quase todos os dias, nos últimos anos.Levantei-me impaciente da cadeira e pus-me atrás dela. Empurrei-a para frente. Meus olhos pousaram sobre a papelada espalhada na mesa. Não era uma bagunça. Naquela ordem caótica, eu já havia elegido as urgências para a próxima semana.Fiquei parada, em pé, atrás da cadeira por alguns segundos. Meu pensamento estava confuso. Precisava organizá-lo para conferir mentalmente os itens que deveria levar para casa. Mas apenas virei a cabeça para direita e para esquerda, e tentei me convencer de que realmente examinava todos os objetos daquele cenário. A verdade era que aquele movimento servia apenas para alívio momentâneo da minha consciência que só me pedia para ir embora logo.Peguei a minha bolsa e a coloquei sobre o ombro. Não me preocupei…

CARA HUMANIDADE, >> Carla Dias >>

Hoje eu não consegui ignorar suas mazelas. Por algum tempo, eu consegui me entreter com uma e outra esperança alimentada por frases feitas, desejos legítimos, mas débeis, completamente dispensáveis. Contudo, hoje caí na cilada do tráfego limitado a quartos, salas e cozinhas e me deparei com um telejornal. Justo eu, que os venho evitando com certo talento.Ignorar nunca foi um ofício que me caiu bem, ao menos não ignorar o outro, o que acontece a ele. E ao vê-la assim, minha cara humanidade, jogada nos braços da brevidade, ela a se alimentar das importâncias que seriam suas, você não tivesse escolhido se fazer de desentendida, peguei-me em uma desolação de profundidade que nunca visitei antes. Se você não sair desse transe, acabaremos por assistir a uma quantidade exorbitante de comerciais sobre projetos de ajuda humanitária. Fantástico, não? Eu comemoraria a disposição de muitos em atender à necessidade de outros, não soubesse que muitas delas você mesma criou. Nós criamos. Porque não …

APROVEITANDO TODAS AS OPORTUNIDADES >> Clara Braga

No prédio à frente estava tendo uma obra. Uma não, algumas! O que torna qualquer ambiente um pouco mais barulhento que o normal.Lá pelas tantas, entre serras, martelos e furadeiras, em alguma das obras o pedreiro começou a bater em algo que fazia um barulho mais agudo, bem metálico!Ele batia de forma repetitiva e até ritmada, eu diria.Então, alguém da vizinhança ouviu e não entendeu exatamente do que se tratava. Pensando bem, acho até que entendeu muito bem, mas não quis perder a oportunidade. Sem pensar duas vezes, a pessoa que não sabemos exatamente quem é, pegou uma colher e uma panela e começou a bater na janela. Em pouco tempo, outros vizinhos começaram a fazer o mesmo.Depois de um bom tempo daquele panelaço que se misturava com barulhos de obra, todos parecem ter combinado o momento do fim, inclusive o pedreiro.Mas antes que voltassem aos seus afazeres, uma das vizinhas gritou: obrigada vizinhança, até amanhã!A obra seguiu, mas sem o tal barulho que parecia de panela. Talvez ama…

uma tarde quente de verão >>> branco

olho a praça que está vazia vazia de gentes vazia de animais não é sábado ou domingo não existem motivos para homens mulheres crianças  ou cachorros de raça estarem na praça  nesta tarde quente de verão

olho as árvores estáticas não sopra a menor brisa bancos de madeira o bebedouro a fonte seca os pássaros - ausentes - a exceção é o vira-lata estirado em sono profundo - exceções - o cão e eu na praça nesta tarde quente de verão
olho as casas  que circundam a praça janelas trancadas portas trancadas - silêncio nas casas -  ao fundo da praça a igreja a pintura nova não esconde o tempo sei que as senhoras estão lá dentro com seus rosários rezam o terço e pedem intercessão sinto pena estão órfãs nesta tarde quente de verão
olho para a torre da igreja e nela o sino - também recém-pintado -  lembro-me dos sons repiques alegres avisando da quermesse ansiosos a chamar para a missa rotineiro nas horas infalíveis e familiares ouvidos muitas vezes em outras tardes quentes de verão
olho novamente a praça vazia enquanto ouço o toque do s…

RUA TENENTE >> Fred Fogaça

As cadeiras dos vizinhos na calçada observam o reboliço no fim da rua. Com o escuro, ele baixa meia porta, o que já é um sinal do fim do dia, os produtos de exposição ainda pendurados do lado de fora e ele vai tirando, devagar e guardando tudo, observa. Todos aqueles pares de olhos frios medindo a fofoca que vindo boca à boca, vão se consternando num afeto que é quase uma empatia. O filho da vizinha foi sequestrado. O pai também não tava preso? Ele recolhe, pouco a pouco, o que colocou fora pra viver o dia e vai se recolhendo inevitável, um pouco mais lento talvez que ontem, mas imperturbavel. Não era um carro vermelho? Você viu um carro vermelho? Um Corsa dessa cor não passou aqui a pouco? Ele nota, ali, meio as exaltações, pronto pra se findar do dia, à meia porta pra esquecer o mundo, que ninguém chamou a polícia. Os postes vão acendendo e os vizinhos mantém seus lugares solenes pelo correr da calçada, ainda tem cerveja aqui e ali que corre alterando uns cigarros e as vezes um café…

A TARDE >> Sergio Geia

B R O BRO>> Paulo Meireles Barguil

Mais uma vez, chegamos no último quadrimestre do ano.
Em cada região, esse período tem suas características.
No Nordeste, uma delas é o acréscimo da temperatura e a consequente perda de vegetação.
Paradoxalmente, acontecem, também, a floração e a colheita de vários frutos.
A natureza é fascinante: o mesmo fenômeno proporciona acontecimentos antagônicos.
O primeiro desafio é identificá-los, lá fora e aqui dentro.
O segundo é aceitar que eles são temporários, o que pode ser motivo de alívio ou de desalento.
O terceiro é agradecê-los, independentemente do seu sabor, por estarmos vivenciando-os.
O quarto é, caso necessário, pedir e encontrar apoio para continuar a travessia.
Setembro pode ser amarelo, verde, azul...

UM ABRAÇO OU UMA CANÇÃO? >> Carla Dias >>

Não sabe dizer que dia é hoje, que já se vão alguns em que ele não sai de casa, não abre as janelas, não acende as luzes, não sai da cama, fala com ninguém. Sabe que é noite por conta dos sons que lhe chegam do lá fora, um silêncio rompido pela conversa animada de jovens que passam pela sua janela sem saberem que dentro dessa casa vive - como costuma dizer seu melhor amigo, quando lhe é permitido fazer visita - um homem esquisito, mas de esquisitices simpáticas.
A mãe o visita uma vez ao mês, que mora em cidade distante. Traz sempre o bolo preferido dele quando criança, sem compreender que o ele adulto se tornou intolerante ao doce. Para ela, adoçar a boca do filho é como abraçá-lo, que entre as esquisitices dele está a incapacidade de demonstrar afeto fisicamente. Nele tudo é à distância, mesmo quando inspira intimidade.
Não sabe se é segunda, terça ou quarta, mas está certo de que não pode ser quinta, já que esse é o dia em que aquele melhor amigo aparece para um breve bate-papo e par…

REVENDO MINHA TRILHA SONORA PARTICULAR >> Clara Braga

Esses dias estava ouvindo à música Como eu quero do Leoni e lembrei-me de um show dele no qual ele falava que as pessoas não entendiam o real significado dessa música. Ele dizia que ouvia muitas pessoas dizendo que a música era a trilha sonora do seu relacionamento, ou via casais usando como música da entrada da noiva na igreja, e ele ficava sem saber como reagir, pois a música não fala de amor.
Eu nunca cheguei a pensar nessa música como trilha sonora de um relacionamento, mas confesso que me surpreendi quando ele explicou que na verdade a música é sobre uma pessoa possessiva e obcecada, embora faça muito sentido quando você presta real atenção na letra. Talvez a melodia leve, a levada lenta nos levem à confusão, mas depois de ler à letra atentamente, realmente essa não é uma música de amor.
Fiquei pensando em quantas músicas já não foram mal interpretadas, principalmente quando não são escritas na nossa língua. Curiosa, decidi relembrar umas músicas que ouvia quando era adolescente e …

SAMBAS E MORINGAS >> Albir José Inácio da Silva

Acordou de madrugada, e olha que sambista só gosta de madrugada antes de dormir. Classificados debaixo do braço, café preto e amargo pra acordar e também por falta de outros ingredientes. Samba se canta, não se come. O Hélio joga em todas, faz samba, poema, escreve peça, redige manifesto. Ninguém compra mais samba, poesia nunca vendeu mesmo. Teatro não tem patrocínio e manifesto anda desmoralizado porque todo mundo fez manifesto contra a tirania, mas ninguém se lembrou de chutar pra fora a bunda do tirano.
A verdade é que a despensa estava vazia. Era sexta de carnaval, mas Hélio foi à luta. Cruzou a cidade da Pavuna ao Leblon, da Freguesia à Penha Circular e recebeu mais nãos do que lhe dava a Margarete, apesar dos versos que fazia pra ela.
Às duas da tarde, sol de fevereiro, o bardo encostou num balcão da Braz de Pina. Avaliou o bolso e pediu uma Iscariol, dois ovos coloridos e um varejão. Achou melhor pagar adiantado, moedas não são confiáveis, ainda menos num lugar estranho.
A cer…

ARRASTA - ME >> Sandra Modesto

Arrasta - me pra que eu possa escrever

Arrasta - me a qualquer hora

Sonhe comigo

Como uma estrofe perdida no caderno gasto

Numa manhã vulgar

Arrasta - me.

Mas me deixa voar

No meu lugar

Assim

Feito criança

Que ao descobrir o espelho

Não entende maldades

Foge sem perceber o cruel

Verde pegando fogo.

Cinzas.

E os almoços aos domingos continuam desiguais

Arrasta - me

Porque preciso saber

Eu não tenho oitenta e nove mil

Depositados na minha conta.

Por favor, 2020 tá puxado.

Arrasta - me.

Com tamanha força

Pra eu não enlouquecer nesse setembro

Mês tão bem cantado por Beto Guedes.

Infelizmente não deu

Nunca uma canção bateu tão pesada nesse nono mês.

Força, solzinho de primavera.

Arrasta - me.

Esqueça que um dia nos perdemos no vago encanto

Na vida cheia de curvas

Sem o absurdo poema

Com sequelas de amor

Arrasta - me e depois me aqueça


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AQUARELA AMARELA >> Cristiana Moura

A tinta escorria pelo papel sem intenção nem precisão. Enfim, ""viver não é preciso". O Amarelo aquoso sobre o papel atrai meu olhar em vibração tal que, por um instante, sinto que sou a cor amarela. Existe uma certa vitalidade da cor adentrando-me pelo olhar que, mesmo sentindo o corpo em inércia desejando hibernar no sofá, apesar do medo-angústia que chegue a morte daqueles que amo, sinto um calor que nem sopa feita pela avó em noite de inverno. Daquelas que a gente toma devagarinho e descem fazendo cafuné por dentro do corpo.Apesar da sensação, nauseante, de que o tempo está passando e, concomitantemente está estagnado desde março, já é setembro. Este mês é amarelo. É um mês em que, mais do que nos outros lembramos que a vida tem dias bem difíceis sim, alguns parecem até não ter saída.  E que, mesmo nestes dias a vida pode e merece ser reinventada, potencializada. É tempo de lembrar que afeto e cuidado são essenciais e que, em tempos difíceis, há de se pedir ajuda, a…

MELINDA. A MENINA. A MORTE CINZA - 1a Parte >> Zoraya Cesar

Ele acordou lento, preguiçoso, lânguido e espreguicento como um gato ao sol. Olhou para  lado da cama e sorriu. Lá estava ela, Melinda, a doce Melinda, sua esposa querida e mimosa, tão asmática, tão cardíaca, tão assustadiça. Pobre Melinda. Sempre tão carente, tão confiante. E agora, tão morta.Alex levantou gritando desesperado, como quem mil lâminas afiadas adentrassem o corpo. O escarcéu atraiu a vizinhança e o cachorro feio de focinho feroz.  ------------------------------Pausa para o cachorro: pertencia à Menina da casa ao lado, habitada por uma família esquisita. Eram bons vizinhos, rezadeiros, mezinheiros, curandeiros. Mas não eram sociáveis e tinham hábitos estranhos. Nunca permitiram que ninguém os visitasse e só iam à casa das pessoas a serviço: uma entrega de chá, uma reza de quebranto, um benzimento pra espinhela caída, uma sopa curativa. A única exceção era Melinda. Talvez por Melinda nunca os ter olhado de soslaio. Por brincar com o cachorro. Por costurar bonecas de pano …