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CARA HUMANIDADE, >> Carla Dias >>


Hoje eu não consegui ignorar suas mazelas. Por algum tempo, eu consegui me entreter com uma e outra esperança alimentada por frases feitas, desejos legítimos, mas débeis, completamente dispensáveis. Contudo, hoje caí na cilada do tráfego limitado a quartos, salas e cozinhas e me deparei com um telejornal. Justo eu, que os venho evitando com certo talento.

Ignorar nunca foi um ofício que me caiu bem, ao menos não ignorar o outro, o que acontece a ele. E ao vê-la assim, minha cara humanidade, jogada nos braços da brevidade, ela a se alimentar das importâncias que seriam suas, você não tivesse escolhido se fazer de desentendida, peguei-me em uma desolação de profundidade que nunca visitei antes. 

Se você não sair desse transe, acabaremos por assistir a uma quantidade exorbitante de comerciais sobre projetos de ajuda humanitária. Fantástico, não? Eu comemoraria a disposição de muitos em atender à necessidade de outros, não soubesse que muitas delas você mesma criou. Nós criamos. Porque não consigo desviar o pensamento, com distração que seja, da ideia de que evoluímos tanto, não? Nós, os bichos que têm o intelecto como guia, que são inundados por emoções, e, muitas vezes, sabem lidar com elas com a razão necessária. Nós que somos capazes de gestos absurdamente transformadores e que resultam em bens para todos os outros que vierem depois. Mas sabe qual é a questão aqui? É que sabemos que a humanidade sofre de amores por si mesma, que adora um espelho. Que, vez ou outra, escolhe oferecer um sonoro “vai ficar tudo bem” como paliativo para o que jamais ficará bem se não for enfrentada com atitudes.

Prefiro a sua crueza a essa preocupação frouxa, encenada. Prefiro saber que lateja, falta e desespera a assistir brotar projetos e mais projetos para combater a sua indiferença. Que me desculpem os sinceros samaritanos, mas seria preferível que o trabalho deles fosse menos intenso e não soasse, com frequência desavergonhada, como impossíveis de serem concluídos.

Você é ótima criadora, não? Às vezes, eu perco o fôlego, diante dos seus feitos. E choro, espectadora da intimidade da sua compreensão de vida. Eu sei que este é apenas um lado da moeda, que, com a mesma intensidade... com a mesma habilidade, o seu grotesco se revela, e invade o tempo e as coisas que ele acumula, e aqueles que ele molda, passando por eles sem apreço, tampouco piedade.

Eu a reconheço nas catástrofes, como algumas daquelas que assisti no telejornal. Elas fazem parte da sua identidade. Ainda assim, são os detalhes que me enchem de melancolia. Eu entendo o que nos acontece, porque o mundo é esse lugar em constante transformação e a vida é uma jornada com seus próprios rompantes. O que nunca compreenderei em você... em mim, e em todas as outras crias suas, é por que nos enganamos tão fácil. Por que nos achamos tão importantes, a ponto de decidir que o outro tem importância nenhuma? 

Minha cara humanidade, despida de desculpas, à qual dedico meu amor e meu ódio e um apanhado de dúvidas e deslumbramentos, espero convencê-la, ao menos a parte de você que mora em mim, de que a vida não merece ser espremida entre telejornais e comerciais, cuidada somente por projetos humanitários necessários, a cada destempero seu. Não a quero afivelada à indiferença. 

Eu não quero você, minha cara, alheia a si mesma. Então, peço que se aprume. Há muito a aprender sobre quem nos tornaremos.


Imagem: The Wandering Moon © William Blake


carladias.com


Comentários

branco disse…
Talentosamente lúcida !!!
Zoraya Cesar disse…
A humanidade de pessoas como vc, Princesa das Palavras, não se perde. Se espalha. Sorte nossa.