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MELINDA. A MENINA. A MORTE CINZA - 1a Parte >> Zoraya Cesar

Ele acordou lento, preguiçoso, lânguido e espreguicento como um gato ao sol. Olhou para  lado da cama e sorriu. Lá estava ela, Melinda, a doce Melinda, sua esposa querida e mimosa, tão asmática, tão cardíaca, tão assustadiça. 

Pobre Melinda. Sempre tão carente, tão confiante. E agora, tão morta.

Alex levantou gritando desesperado, como quem mil lâminas afiadas adentrassem o corpo. O escarcéu atraiu a vizinhança e o cachorro feio de focinho feroz.  

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Pausa para o cachorro: pertencia à Menina da casa ao lado, habitada por uma família esquisita. Eram bons vizinhos, rezadeiros, mezinheiros, curandeiros. Mas não eram sociáveis e tinham hábitos estranhos. Nunca permitiram que ninguém os visitasse e só iam à casa das pessoas a serviço: uma entrega de chá, uma reza de quebranto, um benzimento pra espinhela caída, uma sopa curativa. 

A única exceção era Melinda. 

Talvez por Melinda nunca os ter olhado de soslaio. Por brincar com o cachorro. Por costurar bonecas de pano para a Menina. Por sempre oferecer um pedaço de bolo e favos de mel. Enfim. Talvez. O fato é que Melinda e a família esquisita mantinham muito boas relações. Principalmente a Menina.

Pois o cachorro da Menina entrou no quarto que conhecia tão bem farejou o corpo e saiu correndo, ganindo agoniado, de volta para sua dona. 

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Voltemos para a confusão no quarto. Vizinhos e amigos consolavam o desvairado viúvo, tão desolado, descabelado, desarvorado...

Como vou viver sem minha Melinda?, soluçava, como vou suportar essa doooorrrr... e praticamente uivava, batia no peito, arrancava os cabelos. 

Nessas horas a gente vê como o ser humano é bom. Todos ali presentes se condoeram da desgraça. Eram um casal tão meigo. Ela doentinha, um pouco feinha, mas graciosa e gentil. A aldeia ficou muito admirada e feliz quando Alex, o rapaz do mel, se adocicou para o lado dela e casaram. Alex era até apresentável, saudável e largou a profissão de meleiro para se dedicar à sua Melinda. Não é fofo? Se você acha, eu não sei, mas o povo de lá achou. 

Casamento é uma coisa engraçada. Tem gente que floresce de felicidade. Tem gente que fenece. Sabe Deus de quê. 

Ao contrário do que todas as almas boas pensavam que fosse acontecer, Melinda não ficou mais saudável nem menos feia com o casamento. Parecia, no entanto, muito feliz, sempre um sorriso e olhos abertos quase esgazeados, como se quisesse que lessem o que ia por trás deles. E depois de algum tempo, foi ficando mais fraquinha, menos disposta a fazer visitas, a passear...

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O médico da região estava em uma aldeia distante, não chegaria tão cedo. Mãos bondosas fecharam a tela da janela, para impedir a entrada de insetos. Outras carregaram o infeliz Alex para fora, para ele não ter de passar a noite na mesma casa que a mulher morta. Se o médico demorasse, eles mesmos providenciariam o enterro.

Antes de sair, Alex se jogou em cima do corpo da falecida, num ataque histérico, não não não, não posso deixá-la assim, meu amor, minha vida! O que será de mim?

Pra gente ver como ainda tem ser humano bom. Algumas pessoas choraram. 

Mas, enfim, deixaram a morta em paz. Verdade seja dita que, embora acostumados aos ciclos da vida e da morte, pois viviam da terra, as pessoas ali não estavam muito à vontade. Melinda morrera, provavelmente, por causa de uma das várias comorbidades que tinha, mas precisava morrer com aquela aparência tão devastada? Parecia envelhecida em anos. Sua tez cinérea sugeria sofrimento inaudito e suas pálpebras grudadas lhe davam a estranha aparência de espanto, de alguém querendo conversar - seus olhos não fechavam de jeito algum. E o corpo começara a exalar um cheiro estranho e adocicado, enjoativo. Não era o cheiro de morte ao qual estavam acostumados. 

Sim, a noite chegou. A casa ficou vazia. A morta ficou sozinha. A morta restou em paz. 

Não exatamente. Vamos nos aproximar da verdade. 

Sim, a noite chegou. A casa ficou vazia. A morta ficou sozinha. Mas a morta não restava em paz.

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Até que, durante a madrugada, a aldeia aprofundada no sono da hora tardia e das fortes emoções, a tela que vedava a entrada de insetos mexeu, suavemente. 

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Continua dia 18 de setembro a 2a e última parte. 


Comentários

Anônimo disse…
Humm. Está interessante. Apesar que, para variar, já tem defunta na área. Hehehe...
Ana Luzia disse…
e lá vamos ao marido fingido, será?
Clarisse Pacheco disse…
Acho que essa Melinda morreu enjoada de tanto doce... Ansiosa pela continuidade dessa doce mas um tanto suspeita trama
branco disse…
que me parecer que essa Menina vai ter uma muito importante parte, digo...com M maiúsculo.
Albir disse…
Por enquanto, apenas um morto. Tá econômica, né? Vamos ver no dia dezoito.

Lord Branco me comparou a você por causa de uma mortezinha tímida, de causa natural, envergonhada. Sou um aprendiz diante de Lady Killer. Estou tentando me desinibir, mas muito longe ainda de suas chacinas.
Márcia Bessa disse…
Hummmmm estou desconfiada da perfeição desse marido.... aguardando dia 18.....🤔
Zoraya Cesar disse…
Queridos todos, muito obrigada pela leitura e principalmeente pela paciência qdo eu divido a história!
Espero não decepcioná-los.
Dom Albir, lembre, vc é o mestre, eu te observo de longe!