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MELINDA. A MENINA. A MORTE CINZA. 2A E ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar


A Menina se aproximou do corpo, lenta e cautelosa; o cachorro gemia baixo, rente às suas pernas. O silêncio seria absoluto, não fosse o leve balouçar da cortina sob uma brisa de sussurro. E o burburinho dos mortos, das almas perdidas, dos insones astrais.

Cheirou  corpo, desconfiada. A nota de saída era mel, mas parecia de mel estragado. E a nota de fundo, que deveria ser de rododendro, tinha um odor acre, inidentificável. Passou o dedo na pele ainda – estranhamente – úmida e provou delicadamente, com a ponta da língua. Sabia a fel, não a doce.

Não havia dúvidas, algo dera errado, muito errado.

O rosto contorcido da amiga revelava que ela sentira dor. A Menina ficou nervosa. Não era esse o plano. Melinda deveria morrer em paz, dormindo, sem sentir nada. Foi o combinado.

Sentou-se, tremendo.  Melinda sempre fora boa pra ela e sua Família. Cedia mantimentos, preparava doces e bonecas para a Menina. Brincavam sentadas, pois Melinda não tinha forças para ficar em pé muito tempo. Estava sempre cansada. Eram tantas as doenças e achaques!

Até que um dia ela pediu. Uma morte suave e macia, doce como o mel. Não gostava mais da vida. Sofria muito. Nem o médico nem mesmo a mãe da Menina, rezadeira das boas, atinava com a causa daquela situação. Melinda temia morrer devagar, presa numa cama. E achava que era um empecilho para o marido. A Menina não suportava Alex, o tal marido. Sabia que ele traía a amiga, mas nunca falou nada. Sua Mãe lhe ensinou que o fofoqueiro morre como um sapo de boca costurada.  

A Menina atendeu. Como negar? Fazia parte de sua cultura ajudar a quem pedisse uma passagem para a Próxima Etapa.

Pelas Ervas Daninhas!, pensou, de repente. Será que o bolor usado pelas formigas cortadeiras desandara a poção que preparara? A Menina tremia mais que galhos de aspen ao vento. Teve ímpetos de sair correndo, desesperada. Era, afinal, apenas uma menina!

Algo suspirou em seu ouvido, que a acalmou e a fez pensar melhor. Era, afinal, mais que uma menina.

Cheirou de novo o cadáver. E de novo e de novo. Apalpou-lhe o corpo mais uma vez. Abriu levemente a cortina. Um filete de luz prateada adentrou a janela, repleto de partículas de poeira dançantes, espraiando-se sobre o rosto de Melinda.

A Menina observou o tom da pele daquela que um dia fora sua melhor amiga. Cinza. Cinza! Nenhum dos ingredientes que usara causaria aquela cor: bolor de formigas cortadeiras que ela mesma colhera; partes de rododendros cultivados por sua Mãe; mel que a própria Melinda usava em casa, fabricado pelo marido...

O Aspen, Populos tremuloides, 
álamo-trêmulo. 
Suas folhas e flores tremem
a qualquer estímulo, 
como se vivessem sempre 
com medo
A mente da Menina deu um estalo. A Morte Cinza! Estava explicada a cor cerúlea da tez de Melinda. Envenenamento por mel e pólen contaminados e cera de abelha crua, provavelmente embebida em alguma substância tóxica desconhecida pela Menina. Por isso ela não reconhecera a nota de fundo no odor exalado pelo corpo.

A Menina tremia ainda, mas agora de puro ódio roxo. Maldito. Maldito. Maldito seja por todos as Eternidades.

Alex vinha envenenando a mulher, lentamente. Melinda já era doente, ia morrer em breve mesmo. Ele não precisava torturá-la. Não admira Melinda piorar a cada dia. A Menina poderia ter preparado mil poções de morte pacífica, que de nada adiantaria: Melinda morreria da horrenda Morte Cinza perpetrada pelo marido.

Sentiu um desejo profundo e visceral de fazer alguma coisa. Alex matara sua amiga de maneira covarde e perversa. Impedira que a Menina cumprisse sua missão de misericórdia. E infringira as Leis Domésticas por pura ganância.

A Menina voltou para casa. Ia consultar a Família sobre o que fazer. Aqueles crimes não ficariam impunes. Melinda tinha direito ao descanso eterno, a alegria infinita de estar na paz da Criação e escolher um novo Caminho. Ela devia isso à amiga.

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Melinda foi enterrada. Alex chorou muito, consolado por uma vizinha jovem, bonita e de olhos rasgados. A Mãe da Menina, que sabia ler o coração de outras mulheres, afirmara que aquela era aprendiz de Magia Negra, capaz de preparar o veneno que matara Melinda. Uma víbora que deveria ser decepada, antes que pudesse desenvolver plenamente a peçonha.

Algum tempo depois, partiram para a cidade, casar e resolver a papelada que garantiria de uma vez os bens de Melinda para Alex. (A aldeia não estranhou. Não eram moralistas e sabiam que a vida era um sopro. Eles eram jovens. Pra que esperar? Pra morta não faria diferença).

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A Família da Menina se mobilizou para ajudá-la a saber o que fazer.  Leitura de tarôs, baralhos ciganos e borras de café; chás de artemísia para induzir sonhos premonitórios, muito mais foi feito, e a resposta foi uma só: invoque as Fúrias dos Lares, apresente sua causa e espere. Paciência, aprendera a Menina desde pequena, era a arma dos fortes. Esperou.

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Na primeira Lua Nova após a volta do casal, a Menina preparou seu ritual.

Uma fogueira de carvão e eucalipto; um rato morto; e uma das bonecas de pano que Melinda fizera. Clamou pela presença da Deusa Tríplice. Clamou pelas Fúrias dos Lares, que protegiam as famílias e puniam os infratores das Leis Domésticas. Apresentou seu caso. Bradou por justiça.

E aguardou, como lhe fora ordenado.

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E observou. O homem apresentava, dia após dia, o mesmo aspecto doentio de Melinda. A Menina sorria. Ele não percebia o que estava acontecendo. A mulher, a víbora negra, perdia sua beleza a olhos vistos, mais parecia um Espectro das Trevas.

Não conseguiam dormir. Passavam a noite sentados no quintal, esperando que os gritos que saíam pelas paredes – e que só eles ouviam – cessassem ao amanhecer para poderem descansar um pouco.

A Menina sabia que o fim estava perto. As Fúrias já estavam agindo.  

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Na terceira Lua Nova seguinte à invocação, os aldeões foram acordados por um som, abafado como o de uma tempestade cheia de trovões. Aproximava-se rapidamente e em pouco tempo eles distinguiram um zunido uníssono, ensurdecedor e atemorizante, provocado por um gigantesco enxame de abelhas. Trancaram-se em casa, apavorados, alguns desmaiaram de medo. Abelhas voando de noite, e naquela quantidade!? Os mais corajosos viram que o enxame tinha um objetivo definido: a casa de Melinda.

As abelhas entraram pelas frestas das janelas, pelos vãos das portas, pelas frinchas do assoalho. A casa, onde Alex e a nova mulher correram a se esconder tão logo viram o enxame, não era um refúgio seguro. Para eles, nenhum local era.

Os insetos chegaram e saíram em um rufar de asas de beija-flor. Ninguém teve coragem de ver o que acontecera ao casal até que amanhecesse. Encontram-nos mortos: ele, tal qual Melinda falecera; ela, inchada de picadas. Mas não havia abelha alguma no chão...

Os cadáveres exalavam um odor pútrido e pantanoso. Foram imediatamente enterrados pelos anciãos, que sabiam reconhecer uma intervenção da Lei do Eterno Retorno quando a viam.

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A vida seguiu, como segue sempre, queiramos ou não. Ninguém falava dos acontecimentos. Parecia que tudo ocorrera em outra dimensão.

A Menina brincava com uma das bonecas que Melinda fizera. Uma abelha pousou na boneca, limpou as patinhas, voejou até os rododendros, bateu asas em volta da cabeça da Menina, encostou levemente em seu nariz e partiu. A Menina sorriu, feliz, feliz, feliz além da conta.

Sabia agora que Melinda seguira seu Caminho em Paz. A Paz que ela, a Menina, permitira ao invocar às Fúrias vingança por sua amiga. Voltou a brincar com sua boneca. Era, afinal, apenas uma menina. 

Não. Não. Ela era bem mais que uma menina.

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Imagens:
Aspen:
https://pixabay.com/pt/images/download/aspen-2869627_1280.jpg?attachment&modal
https://www.instagram.com/betsydpresents/

Comentários

Marcio disse…
Essa vizinha só entrou em cena para morrer.
Levou o Troféu Ivan Cândido de Morte Precoce.
Clarisse Pacheco disse…
Adorei o "medrosa como uma folha de Aspen". Aliás, Artemísia é maravilhoso! Nesse caso, a Lei do Eterno Retorno teve uma ajudinha...
Ana Luzia disse…
Ah, a morte pode ser tão triste e dolorosa para uns, mas a vida que segue pode ser ainda pior...
branco disse…
ahhhh eu sabia...essa menina. as abelhas me levaram a velha tradição celta de ponte entre mundos. não podia esperar coisa melhor de você. mais que nunca, acima de qualquer suspeita.
Maria Elena disse…
Excelente, amiga. Gostei muito. Mas acho que vou ter um pesadelo!
🤣🤣🤣
😘
Érica disse…
Sem sombra, nem fantasmas de dúvidas, como sempre, história cheia de detalhes... tenebrosos... Que fazem a gente se ver no meio do cenário sinistro... Mas da próxima quero uma história fofinha.
Esse final foi feliz mas não foi fofinho... uaaaahaha!
Tudo bem... Te perdôo se for uma história de vingança... Mas menos terrorífica kkk
Zoraya Cesar disse…
Ahhhh seus comentários me enchem de alegria! Se um autor consegue passar alguma emoção - de medo que seja - ele já cumpriu sua missão.

Obrigada!
Albir disse…
Agora vou ter pânico de abelhas. Culpa minha que não consigo não ler suas histórias.