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Mostrando postagens de Junho, 2009

VIA DOLOROSA >> Albir José Inácio da Silva

Podia ser um dia comum, mas não era. Não para ele. Não acordou, porque não tinha dormido. Amanheceu. Chegou a hora. Vestiu-se, ouvindo a própria respiração. Olhava a porta e via além dela: a sala branca e fria que nos últimos dias invadiu seu sono. Lá estaria daqui a pouco. Não merecia isso.

No caminho, ouviu seus passos como um tambor distante a marcar o tempo. A vida podia ter sido diferente. Nunca recebeu muita coisa da vida. Fazia o possível, o que sabia. Não era uma pessoa especial, mas também não era nenhum monstro. Não merecia aquilo. Recebia conselhos, mas apoio nunca. De nada adiantava pensar essas coisas agora. Pareceu-lhe que todos o olhavam. Uns com pena, outros com indiferença, mas nenhuma solidariedade. Uma solidão como nunca tinha sentido. Se pelo menos sua mãe estivesse aqui, segurando sua mão.

Sabia de pessoas que entravam ali sorrindo, desafiavam os presentes com o olhar e enfrentavam com dignidade aquele momento. Não era o seu caso. Nunca foi muito corajoso e não ia s…

EU SOU ASSIM >> Eduardo Loureiro Jr.

Presentemente, eu sou assim. Até sou também o que já fui um dia, mas ainda não sou o que um dia serei. Não conto com o ovo no cu da galinha. Eu sou assim.

Eu sou assim. A alegria de acordar com o sol e a tristeza de ser despertado. A insônia criativa que acende a madrugada e o dormir cedo, antes das dez.

Eu sou assim. A preguiça da rede sempre armada e o pé no sopé da montanha, pronto para a escalada.

Eu sou assim. O melhor lugar é a casa, sem nem vontade de ir na esquina, e a passagem comprada para dar a volta ao mundo e conhecer suas sete maravilhas.

Eu sou assim. O silêncio pelo silêncio, sem vazios nem meditação, e a comunicação instantânea: os e-mails que às vezes não voltam, mas que sempre vão. O autismo mudismo e a verborragia escorregadia.

Eu sou assim. O homem só. Um homem só, bendito entre as mulheres. E o misógino que mais as odeia quanto mais as entende.

Eu sou assim. O romântico incorrigível e o sangue frio. Romeu Tuma e Romeu Montéquio.

Eu sou assim. Só penso naquilo e, quando …

VALE QUALQUER RAIZ [Monica Bonfim]

E aí ela espalma a mão na testa e diz: "Ave Maria", com um sorriso entristecido. E isso três ou quatro vezes no meio da conversa, enquanto olha em volta com olhos ávidos para ver se alguém está olhando a cena e se interessa pela pobre moça sentada.

Desvia a energia inteira que tem para o chacra básico... E aí apresenta todos os sintomas da "aflixota" básica: caça (literalmente) um homem dentro de uma boate, abraça todos os conhecidos (gente que não a vê há séculos e nem sabe direito quem ela é) pelo prazer ínfimo que obtém com o abraço fugaz, se apresenta para gente que não a reconhece só faltando dizer o CPF do outro... É como se gritasse: me veja, me dê importância, me ame, por favor.

Se cerca de gente aflita e ansiosa porque tem que sair de casa, tem que ver a rua, tem que buscar um par. Gasta horrores com sapatos e bolsas, mas não compra um livro. Não dá uma volta no shopping sem sair com mil roupinhas, mas não vai ao cinema. Me contou 10 vezes a mesma coisa da v…

PLÁGIO BARATO DE CAIO FERNANDO ABREU >> Leonardo Marona

Você me fala do meu poema sobre Zelda Fitzgerald, você fala de mim como se eu fosse um touro corajoso e pronto para qualquer capa vermelha, você diz que sou algo que “impulsiona, rebela, explode”, diz que sou lindo, “um homem lindo”, e não que isso seja tudo o que preciso ouvir alguém dizer, até porque reconheço bem essa sensação de formigamento quando nos sentimos presentes de alguma forma na vida de alguém, sei quanto tempo dura, reconheço que, daqui a minutos, estarei outra vez batendo com a cabeça na parede e ouvindo Tim Buckley. Principalmente, sei da minha farsa, e ter amor em sabendo a farsa: não há dádiva maior. Mas você fala e isso é tudo o que importa. Você fala, te imagino de olhos fechados e unhas pintadas, a tinta descascada e os sonhos comidos pela peste, mas os olhos mantêm aquele brilho fundo de uma ternura metálica. E, então, você fala. Fala que vai musicar meu poema chamado Zelda Fitzgerald, a mesma que pegou fogo na cama de um sanatório enquanto o marido se gabava c…

CABELOS AO VENTO >> Kika Coutinho

Ela morava no 2º andar e eu no 4º. Ela tinha cabelos compridos e encaracolados. Eu tinha cabelos médios e lisos. Ela era mais cheinha, e eu, magricela. Mas ela era esperta e extrovertida. Eu era mais envergonhada e tola. Ela devia ter uns 6, e eu devia ter uns 7 quando tudo aconteceu.

Ela me chamou para ir brincar lá na casa dela, e eu fui. Quando entramos no quarto da TV, já estava tudo montado. Uma cadeira, tesouras, revistas. Eu era a cliente, ela era a cabeleireira. Sentei-me na minha cadeira enquanto ela, sempre muito falante, começou a me explicar sobre os cortes da moda, o estilo, a beleza. Eu aceitava, calada. No meio da falação, notei que a tesoura na mão dela era de verdade, mas não reagi. O natural aconteceu. Ela, a cabeleireira de 6 anos de idade, começou a cortar o meu cabelo. Eu sabia, dentro de mim, que aquilo não estava certo, mas não falava nada. Assistia cair no chão os longos chumaços de meus cabelos, com uma sensação de estranheza e impotência. Ela estava tão empolg…

A FELICIDADE.EXE >> Carla Dias >>

O que é a felicidade?

Seria um clique e a execução descarada da nossa necessidade de sorrisos, abraços, cafezinhos, vinhos e comida boa, cafuné, compreensão?

Quando recebi a notícia de que o novo disco do compositor, violonista e cantor Élio Camalle teria o título de A FELICIDADE.EXE, antes mesmo de me esbaldar nas definições tecnológicas, peguei-me namorando as metáforas, saboreando a ideia de haver esse jeito virtual de clicar em emoções executáveis. Mas claro que ele já tinha pensado nisso antes:

Ela me abriu a janela e disse: clique aqui e seja feliz! Foi o que eu fiz, cliquei.
(Programa)

Como seria experimentar um programa que nos ensinasse a ver a vida através de frames de felicidade?

Eu suspeito das pessoas felizes em tempo integral. Admiro profundamente as que sabem saborear a felicidade sempre que ela aparece. Por isso mesmo o A FELICIDADE.EXE me soou íntimo. Quem ouve o disco passa pelos altibaixos oriundos dos tradicionais sentimentos cravados na alma do ser humano, passando pelo…

PIRATA FANTASMA >> Eduardo Loureiro Jr.

Tem coisas que nem mais existem, mas continuam a assombrar as pessoas.

Algumas vezes, de maneira inofensiva, como nos ditados. Tem muita gente que diz que pegou o bonde andando, embora nunca tenha visto um bonde na vida. E tem aquela turma que insiste em dizer que lhe caiu a ficha, embora já faça mais de 10 anos que os telefones públicos são a cartão. Tudo bem, cada doido com a sua mania, desde que não nos obriguem a pegar bonde — andando ou não — nem a virar orelhão de museu.

Que tal os piratas? vocês já viu algum pirata sem ser nos bailes de carnaval? O último pirata de verdade já deve ter virado pó dentro de alguma cova na Inglaterra, mas o pessoal insiste com essa história de pirataria.

Segundo a terceira definição do Aurélio — o dicionário, porque o estudioso também já nem existe mais —, pirata é o "indivíduo que comete pirataria, que não respeita os direitos de autoria ou de reprodução que vigoram sobre determinadas obras ou produtos (literários, musicais, de informática, etc.…

DE JOVENS E VELHOS [Monica Bonfim]

Pois esta semana eu li que “envelhecer é o único meio de não morrer jovem”. Mas acontece que, na outra aba, vi duas mensagens de amigos para mim: a primeira de um homem, mais velho que eu, me chamando de “menina” e a segunda da filha de uma amiga me chamando de “Moniquinha”. Considerando que eu estou beirando os 50 (faço 49 em um mês), fiquei a pensar se concordo com a frase inicial.

Modéstia à parte, não sei se graças à genética ou ao fato de que me resolvi muito bem, minha aparência — isso dito por um gato de 25 anos — não ultrapassa os 35, e atente-se para que não gosto de maquiagem, tenho uma imensa preguiça de usar cremes, e minha plástica foi na barriga.

A idade me deu mais respeito por mim mesma, me deu o exercício de impor limites a mim e aos outros, e esse círculo de proteção talvez tenha se tornado o ingrediente de longevidade: respeito por mim e pelos outros faz com que eu durma muito bem, obrigada. Amo meus amigos e minha família, mas minha casa é realmente meu castelo: eu v…

O HOMEM ABSURDO >> Leonardo Marona

É preciso enfim fazer a passagem, dar o passo curto resultado da mendicância vacilante na escuridão dos termos conhecidos.

Um romance pré-datado que fosse história sem explicações, mas não bem um romance, já que um romance trata de coisas concretizadas numa determinada ordem de tempo.

Um romance portanto sobre o não concretizado, sobre os momentos de hesitação em que sentimos a lâmina da faca no ventre e pressionamos ainda mais, e damos o passo contraditório na direção do absurdo.

Um romance sobre o peso fátuo do concreto nas veias, talvez sobre raposas presas nas armadilhas naturais da terra, a terra com minúsculo sobre a qual pisamos com dureza e fria coragem. Tudo tão arcaico quanto um homem nu sentado, refletindo diante do espelho de uma casa desconhecida.

Mas por que o homem nu, sentado? Porque é preciso admitir a idéia anacrônica de que ele estava à procura de si mesmo para avançar, seguir ao próximo erro com a delicadeza rude das crianças espantadas. E tudo já tinha sido dito milha…

O QUE MUDA NA MUDANÇA >> Kika Coutinho

Talvez a humanidade se divida mesmo em dois grupos de pessoas. E podemos identificá-los em uma mudança — de casa, de cidade ou de vida.

Alguns são capazes de fazer de uma mudança apenas uma mudança. Outros, os incapazes, fazem da mudança uma história, uma saudade, uma terapia — ou quase.

Os primeiros são os racionais. Conseguem encaixotar as coisas, limpar os armários, empacotar as roupas, separar as miudezas com a praticidade de um matemático: “Aqui, cabem mais 3 sapatos, passa essa louça para mim, pega a etiqueta, essa cômoda cabe exatamente naquela parede, cadê a trena?”

Outros, os mais incapazes, são lentos. Porque, cada vez que embalam um prato, embalam também o jantar: “Aquele, que fizemos aqui, lembra? Aquilo que a gente cozinhou juntos, aquele que queimou, aquele que rimos sem parar, aquele que estava ruim, aquele que estava bom, aquela noite que estava fria, aquela outra que esquentou...”

São chatos esses, os incapazes. Devem ter até alguma dificuldade de medir, calcular, compree…

DESAFINADA NA FICÇÃO C. >> Carla Dias >>

Ontem assisti ao filme “O dia em que a terra parou” (The Day The Earth Stood Still), lançado em 2008 com roteiro de David Scarpa inspirado no roteiro de Edmund H. North para a versão cinematográfica lançada em 1951. Edmund H. North se inspirou no conto “Farewell to the Master” do escritor de ficção científica, Harry Bates.

Se tantas pessoas se inspiraram de forma grandiosa com a idéia de um extraterrestre vindo a Terra e ameaçando a nossa existência para preservar o planeta, talvez possamos nos inspirar a pensar um pouco sobre o que o filme aborda, de forma mais próxima da nossa realidade, porque apesar de transbordar fantasia (vai saber...), o filme toca em pontos cruciais, como o questionamento sobre quem é o responsável pela humanidade... Por cada um de nós. Obviamente, não é nenhum presidente, nem mesmo um ícone religioso. No meu entendimento com essa questão, só posso pensar que todos somos responsáveis, o que nos leva à certeza de que esse cuidar somente será válido mediante uma …

DO CORAÇÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

De vez em quando sinto uma saudade besta de um tempo antigo quase feliz.

Por exemplo, quando eu escrevia o que me passava pela cabeça. Ou abria um livro de provérbios ao acaso, pegava a primeira frase em que batia os olhos e escrevia uma crônica. Ou parodiava o texto diário do Luís Fernando Verissimo. Ou disparava críticas contra políticos e autoridades em geral. Ou carregava nas palavras, ironizando as idiossincrasias dos outros. Bons tempos aqueles em que escrever era uma aventura inconsequente -- e eu ainda tinha direito ao trema.

De certa forma, ainda escrevo o que está dentro de mim, descondenso o leite a partir de uma simples frase, admiro o Verissimo, questiono autoridades e carrego palavras. Mas agora tem o meu coração...

Hoje em dia a pressão dos dedos sobre o teclado tem o ritmo lento de 68 batimentos por minuto. Já não é possível escrever sem que as palavras venham, mesmo que ensanguentadas, do coração. Como as que se seguem...

*

Deve ter começado com as discussões que eu presen…

MOTIVO + AÇÃO [Sandra Paes]

Dia desses me peguei sondando a vida. Diante de todas as vitrines que a televisão, a internet, as lojas e toda a mídia abrem, me quedei parada. E uma parada seguida de um muxoxo, quase um enfado.

Passei a limpo as vivências dos últimos tempos - até porque muitas delas não alcanço mesmo -, lendo um parágrafo de um livro chamado “Mind”, em que o autor dizia que nossos sistemas de crença é que mobilizam o desejo.

Achei interessante o pensamento. E, é claro, quando algo me chama a atenção, tendo a parar para averiguar o que se passa em mim. Descobri que não ajo por agir. Lembrei-me de minha cara de sei-lá-o-que diante da janela da academia, onde todo mundo dentro de uma vitrine pedala, sua, levanta peso, na maior. E como as pessoas falam com um certo gosto que “malham” e até se explicam: faço pra manter a forma, faço porque preciso cultivar a saúde, faço porque gosto. Sou do tipo que não faz se não acredita. E esse axioma caiu feito uma luva - pelo menos para mim.

E comecei a me ligar nas at…

O MASOQUISTA >> Leonardo Marona

Começo sabendo que não estou preparado. De fato, é tudo o que sei, e isso não mudará até o final. Pensando bem, sabendo disso – e todos, no fundo, sabemos – me pergunto se deveria prosseguir. O que faz prosseguir? Desgosto, o chumbo nas idéias, o lodo na consciência. Este conhecimento não deve ficar impune. Portanto, abrir as janelas: a surda indiferença da solidão de um feriado de Corpus Christi. Penso: minha indiferença é sorridente – eis todo o mau. Se ao menos fosse nauseante, vomitariam aos meus pés, queimariam placas com o meu rosto, falariam de mim aos pés de ouvido, escondendo as orelhas com as costas das mãos. Sem ter o direito a nada disso, volto ao preparo, já que começar desse modo, assim, totalmente nu, me parece ultrajante. A vocês também – os amorosos – tenho certeza.

Agora começa a chover e isso nem bem é um conto de Raymond Chandler. Não há poodles, não há madames, não há néons falhos, garrafas de uísque, sangue. O som da chuva é de um anarquismo em volume progressivo,…

A pelinha >> Kika Coutinho

Acontece todo inverno. Os lábios ressecam, viram pelinhas duras e irresistíveis, tal qual papel-bolha. Quem consegue não estourar?

Eu passo inverno com a boca machucada, solta uma pelinha e sinto um misto de alegria e tristeza. Vai doer, mas vou puxar. Seguro devagar com meus dentes e, sem que ninguém note, arranco. “Ai”, falo para mim mesma, "para que fui fazer isso?" Por estupidez, de certo. E é assim na vida, não é?

Quantas dores causamos a nós mesmos em nome de um possível benefício?

É assim no amor. Principalmente no cruel e frio amor não correspondido.

Uma amiga de quem gosto muito vive essa dor. Sabe que não vale a pena, sabe que ele é um canalha, um cafajeste, mas dá-se sempre a chance de mais uma saída, mais uma tentada, um último telefonema. Sabe que vai doer. Talvez ele nem apareça, mas arruma-se toda e encanta-se com a imagem apaixonada no espelho. Os minutos ao lado de seu amor são doces e breves, um encanto, sempre seguido de uma dor. Ela vive um instante infinito …

HIATO >> Carla Dias

Há esses dias em que girar a chave e sair de casa requer mais do que o reflexo da rotina, porque os ônibus ficam barulhentos demais, os faróis enrubescem sempre que você está acompanhada da pressa, tão acanhados pela sua presença. As pessoas esbarram em você para lembrá-la que as ruas não têm dono, apesar de sempre haver quem tente domá-las e reinar nas suas esquinas. Há quem confisque quarteirões apenas para que o temam.

Dia feito esse, com muito trabalho e confusão, em que os apontadores fazem falta, por isso mesmo parecem ter sido sugados da sua gaveta e também do planeta; o corretivo não consegue corrigir as imprudências, nem mesmo apertar repetidamente a tecla DEL é capaz de colocar suas ideias em pratos limpos. E parece que todos os telefonemas que você atende são para lembrá-la das suas falhas. De como você não foi capaz de finalizar isso ou aquilo.

A conta na ponta do lápis, a soma de despesas e a subtração instantânea dos ganhos. Em certo momento da vida, a gente se torna profi…

HOMENS BONITOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Para Júlio, Felipe, Fabiano, Felipe (mais um), Fábio, Felipe (outro), Manu, Felipe (mais esse) e Paulinho
Eu caminhava lentamente, distraído, quando senti duas mãos delicadas pousarem firmes em meus ombros — feito os pés de um passarinho. E quando parei, senti uma cabeça entre as minhas omoplatas — uma testa, um nariz, um bico. Eu já sabia quem era, mesmo sem precisar olhar. Era um homem bonito.

Quem me acompanha sabe que eu gosto de falar das mulheres lindas — lindas, lindas, lindas —, das aeronaves no pátio, da beleza que me intimida. Porque me apavora, a beleza das mulheres lindas, lindas, lindas é feito o estrondo quase incômodo das turbinas, o freio quase desconfortável no atrito.

Os homens bonitos são mais sutis: planadores, asas-delta. Chego mesmo a pensar que eles sempre estiveram por aí, eu é que não estava olhando na direção certa.

O homem bonito tem, antes de tudo, o sorriso. Sorri com a facilidade com que o vento sopra. Não precisa de motivos para sorrir. E, quando é preciso, …

REAVIVANDO A CHAMA [Maria Rita Lemos]

Assim como acontece com o mar, nossos amores também sentem as oscilações, como as marés que sobem e descem. Em qualquer relacionamento, e aqui estamos falando das relações afetivas, acontecem dias ruins e maravilhosos, maus e bons momentos, tempos de tormenta e calmaria, que se alternam, como também acontece na vida de cada um de nós. No entanto, há períodos em que as coisas parecem mais difíceis, os momentos de tempestade parecem não ter fim; há momentos, enfim, em que aparentemente não resta nada, a não ser cinzas de um amor que um dia foi a luz que iluminou nossa vida.

Nem sempre, porém, o sentimento está morto: ele pode estar muito bem escondido embaixo de uma crise que parece não ter fim. É preciso diferenciar os bons relacionamentos que estão passando por uma crise dos relacionamentos que sempre foram ruins, e que, por si só, são uma crise na vida de cada um dos parceiros.

Portanto, é preciso cuidado e calma, tanto na hora de casar como na de descasar. Ambas as decisões, tanto…

ESQUELETO DE UMA CRÔNICA >> Leonardo Marona

“Escrever passa a ser uma ação fundamental, porque dela depende a sua existência”, dizia o escritor, em entrevista sobre seu novo romance.

Chega uma certa hora e todo mundo se entrega. Os fortes se entregam, os fracos, os catadores de legumes se entregam, os ricos de grandes papadas, os vaga-lumes em festas químicas, as várias mulheres dos gigolôs, os que rodam as rotativas se entregam e, muito antes deles todos, o escritor se entrega, olha em volta, de certa forma sorri, o sangue verde entre os órgãos.

É profundamente obrigatório ao escritor, antes de tudo, se entregar sem arestas, sem forçar a caricatura que se mostra intransponível. Dizer a si mesmo: “muito bem, sei que não se trata exatamente disso, mas não há o que fazer, há que se continuar”. Pois que o escritor é, antes de tudo, um ralo por onde escoam objetos interligados em conexões instantâneas, que não permitem afinidades. E a interligação entre os objetos é a única coisa com que o escritor deve se preocupar. Acima de tudo…

PINTANDO O 7 >> Carla Dias >>

A arte brasileira é diversa. A riqueza da nossa cultura é real.

Essas frases não são de anúncio do governo, elas não se referem exclusivamente a alguma campanha de marketing ou projeto específico. Certamente, utilizam-se muito tais alegações, até mesmo em conversas casuais sobre o que é ou não palatável na cultura brasileira. O grande problema é que a maioria das ideias para melhorar esse cenário permanece na teoria.

Na prática, sim, o Brasil é berço de uma diversidade fantástica, que impregna de beleza a nossa cultura e enriquece nossa identidade através da arte que abriga. Na prática, a maioria de nós é absorvida pela facilidade do que nos chega através dos meios de comunicação e da eficácia de um marketing que cria um cenário propício para efemeridades.

Quando falo sobre artistas que admiro profundamente, pessoas das quais as criações não chegam ao grande público, não ataco a existência dessas celebridades fugazes, pois acredito que até mesmo elas têm sua importância e merecem seu esp…

ANI-VERSÁRIO -- Paula Pimenta

Outro dia, conversando com amigos, chegamos à conclusão de que existem dois tipos de aniversariantes: os que odeiam e os que adoram a data. Os que odeiam, geralmente se escondem, proíbem os familiares de dar parabéns, fingem que é um dia comum e fazem de tudo para esquecer... Já os que amam, saem por aí espalhando para o mundo inteiro. Lembro que vi uma peça (“5 X Comédia”) há uns anos, onde a Fernanda Torres fazia o papel de uma aniversariante assumida. Na peça, ela contava que fazia tanta questão de que todos soubessem dos seus aniversários, que inclusive em um deles, enquanto ela dirigia, o motorista do carro ao lado sem querer virou o rosto para ela e recebeu imediatamente um: “Hoje é meu aniversário, viu?”

As peculiaridades de cada aniversariante não param no amar ou odiar a data. Alguns ficam saudosos com a proximidade do dia. Relembram cada um dos anos já vividos e pensam que os próximos nunca serão melhores do que os passados. Outros, vêem o aniversário como um marco propício …