quinta-feira, 18 de junho de 2009

O QUE MUDA NA MUDANÇA >> Kika Coutinho

Talvez a humanidade se divida mesmo em dois grupos de pessoas. E podemos identificá-los em uma mudança — de casa, de cidade ou de vida.

Alguns são capazes de fazer de uma mudança apenas uma mudança. Outros, os incapazes, fazem da mudança uma história, uma saudade, uma terapia — ou quase.

Os primeiros são os racionais. Conseguem encaixotar as coisas, limpar os armários, empacotar as roupas, separar as miudezas com a praticidade de um matemático: “Aqui, cabem mais 3 sapatos, passa essa louça para mim, pega a etiqueta, essa cômoda cabe exatamente naquela parede, cadê a trena?”

Outros, os mais incapazes, são lentos. Porque, cada vez que embalam um prato, embalam também o jantar: “Aquele, que fizemos aqui, lembra? Aquilo que a gente cozinhou juntos, aquele que queimou, aquele que rimos sem parar, aquele que estava ruim, aquele que estava bom, aquela noite que estava fria, aquela outra que esquentou...”

São chatos esses, os incapazes. Devem ter até alguma dificuldade de medir, calcular, compreender. Porque ali, onde cabe a cômoda, não tem só um metro. Tem aquela roupa nova, o seu sapato pisando no meu, meu paletó que enlaça o seu vestido, como era mesmo a música do Chico?

Para alguns, a mudança é prática. Jogam tudo lá dentro e seguem em frente. A vida é para isso, né? É para ser seguida. Caminhada que ora parece curta, ora longa demais. “Vem, vamos embora, já tá tudo aqui, vem logo, o caminhão vai ser multado”, é o racional chamando o incapaz. O tonto do incapaz que ficou lá dentro, achou um brinco embaixo da pia: “Meu Deus, tanto que procurei esse brinco, estava aqui então! Esse brinco que eu ganhei naquela manhã de sol, ainda na cama, quando ele fez aquele café da manhã de Dia dos Namorados”. Ai, essa tola irá encaixar o brinco na orelha, olhar-se mais uma vez no espelho e lembrar de cada acontecimento naquela casa já vazia, sentir-se mais uma vez uma princesa encantada em sua cabana romântica. Mas a cabana é um apartamentinho sem móveis, tão vazio e, ao mesmo tempo, tão cheio de lembranças.

Quando se muda, esse leva consigo a nostalgia, a saudade, um pequeno pedaço de vida que viveu ali numa casa tão cheia de histórias e vida. Pode até não ser tristeza, mas é um apego. Não, nenhum apego às roupas, aos sapatos, aos quadros. Disso, cuida o prático. Ele checa se tudo foi embalado bem, cuida para que não se estraguem os móveis e olha atentamente para a quina da parede. Ele cuida do que existe e está certo. O outro, o romântico, cuida do que nem existe mais. Cuida de guardar consigo os momentos melhores, as pequenas alegrias, os grandes alívios, o conforto e as conquistas celebradas ali, vividas ali, naquele pedaço de concreto, agora já vazio. O tolo tenta segurar com toda força cada instante de felicidade, cada pequena bobagem que formou esse tempo. Tenta segurar a poeira, o invisível, aquilo que não se segura e nem se mede. Por isso, talvez por isso, o tolo seja o tolo. Tenta segurar entre os dedos a água, a areia que lhe escorrerá das mãos uma hora ou outra.

Enquanto o racional transfere a net, a eletropaulo e a telefônica, o incapaz procura os números para tentar transferir um bocado de emoção, uma pitada de surpresa, alguns quilos de alegria. O tolo pede o protocolo, tenta discar o nove para falar com o atendente, solicita aos céus, a Deus, ao Procon, que possa levar consigo aquilo que nunca, nunca, poderá ser guardado e nem embalado — ainda que na mais fina cristaleira.

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, nessa sua bela e divertida crônica, me reconheci no tolo. :) Boa mudança!

Anônimo disse...

Querida, mesmo os racionais lendo esta sua crônica, têm uma quedinha e viram românticos!!

Ps.devo ser o racional, mas confesso que me deu um aperto no coração...

Bjs te amo,

Bruno

C. S. Muhammad disse...

Ana, como sempre, um texto maravilhoso. E ah... como sou tola e como me vejo sempre nas entrelinhas dos seus textos.
bjs

Juliêta Barbosa disse...

Ana,

Triste é o homem, que não cultiva suas memórias!
Seu texto lembrou-me que ao fazer uma mudança nós levamos: cores, cheiros, sons, passos e lembranças. A nossa pátria de intimidades... E sem ela, quem somos? Adorei resgatar as minhas memórias, viajando pelo seu texto. Obrigada.

Anônimo disse...

tem gente plageando seu texto
nao eh virus, eh o perfil do orkut dela
http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=5723877107877681106
so acho sacanagem que imbecis sem criatividade simplesmente copiem texto alheio e assinem em baixo como se fosse proprio