quinta-feira, 25 de junho de 2009

CABELOS AO VENTO >> Kika Coutinho

Ela morava no 2º andar e eu no 4º. Ela tinha cabelos compridos e encaracolados. Eu tinha cabelos médios e lisos. Ela era mais cheinha, e eu, magricela. Mas ela era esperta e extrovertida. Eu era mais envergonhada e tola. Ela devia ter uns 6, e eu devia ter uns 7 quando tudo aconteceu.

Ela me chamou para ir brincar lá na casa dela, e eu fui. Quando entramos no quarto da TV, já estava tudo montado. Uma cadeira, tesouras, revistas. Eu era a cliente, ela era a cabeleireira. Sentei-me na minha cadeira enquanto ela, sempre muito falante, começou a me explicar sobre os cortes da moda, o estilo, a beleza. Eu aceitava, calada. No meio da falação, notei que a tesoura na mão dela era de verdade, mas não reagi. O natural aconteceu. Ela, a cabeleireira de 6 anos de idade, começou a cortar o meu cabelo. Eu sabia, dentro de mim, que aquilo não estava certo, mas não falava nada. Assistia cair no chão os longos chumaços de meus cabelos, com uma sensação de estranheza e impotência. Ela estava tão empolgada, e agia tão depressa, que eu não conseguia me expressar. Lembro-me que estava com o dente da frente mole, quase caindo, e só o que fazia era senti-lo balançar na minha língua, bem quietinha, enquanto minha amiga se esbaldava.

O corte foi radical, mas rápido. Ela tirou todo, todo o meu cabelo. Cortou até o talo, deixou só aquilo que uma tesoura não conseguia mesmo tirar.

Quando, no final, tal qual uma profissional dedicada, ela trouxe um espelho, eu tomei um susto. Quase que me lembro da minha cara assustada diante de uma menina sem cabelos que eu vira no meu reflexo.

“Você cortou tudo? Você cortou de verdade!” Eu disse, indignada.

Ela, com certo arrependimento, entregou-me a tesoura: “Corta o meu então?”. Sentou-se confortavelmente na cadeira e esperou que eu me vingasse. Mas eu, uma tola menina boa, não tinha coragem. Queria vingar-me, sentia dentro de mim uma enorme raiva, mas não era capaz de mover as minhas mãos para arrancar-lhe os cabelos também. “Vamos, corta! Pode cortar!” ela dizia, sabendo do meu sofrimento. Eu tentei obedecer, mas foram poucos e curtos os fios que lhe tirei. Nem aparecia nada. Era uma demonstração de covardia, aqueles ralos fios que saíam na tesoura, tão leves que eu nem os notava no chão, misturados aos meus.

Foi enquanto eu lutava comigo mesma, para ser esperta e vingativa, que a campainha tocou. Ouvi a voz da minha irmã mais velha, que dizia ter vindo me buscar.

Senti um alívio de encerrar aquela tortura, e corri para a sala. A expressão de horror dela quando eu apareci na porta está cravada na minha memória até hoje: “Kika!” ela gritou. Eu tentei explicar, mas fui logo dizendo que era ela, a outra, que tinha feito isso. A menina, safa, saiu retrucando que eu também tinha cortado o dela. Nada adiantava. Minha irmã berrava, talvez até chorasse de raiva e indignação. Pegou-me pelo braço e levou-me embora, fazendo um escândalo sem tamanho.

Ainda chamou a mãe da menina, brigou com ela, enquanto eu ficava calada, sentindo um dente mole na língua...

Logo o dente caiu e, quando outro nasceu no lugar, os cabelos já estavam crescendo, como que para mostrar-me que, ainda que seja doloroso, tudo pode, de fato, crescer de novo depois de lhe ser arrancado. Nunca mais esqueci a lição.

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Arrasou! Mais uma vez. :) O dente, na história do cabelo, foi um toque de mestre.

Paula Pimenta disse...

Ai, eu matava e morria ao mesmo tempo! Quase coloquei fogo em um salão aos 12 anos porque um BARBEIRO me deixou a cara do Juruna, imagina se cortasse tudo..

Adorei a crônica!

C. S. Muhammad disse...

Que lindo e emocionante, Ana. Senti tristeza e raiva junto. Mas amei mesmo mesmo foi a sabedoria da menina do dente mole.