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Mostrando postagens de Janeiro, 2012

O PODER DAS PALAVRAS >> Clara Braga

Poucas palavras para muito significado, era assim que às vezes eu me sentia em relação a nossa querida língua portuguesa. Não que ela tenha poucas palavras, porque de fato ela não tem, mas vocês já tiveram a impressão de que às vezes não basta, durante uma conversa, falar as palavras em suas devidas posições para a frase fazer sentido? Às vezes temos que explicar o que aquela palavra significa dentro daquele exato contexto para não haver confusão.

E isso é porque eu estou falando de conversas cara a cara, aquelas que estão se tornando cada vez mais raras, onde as pessoas se encontram, olham umas nos olhos das outras e realmente conversam. Imaginem se formos pensar nas conversas pelos talks da vida, aí sim o problema fica grande, você não vê o rosto da pessoa, não escuta o tom de voz e então pode acabar achando que ela está brigando com você enquanto ela está apenas contando uma piada.

Mas na verdade, pensando bem no assunto, o menor dos problemas é quando alguém diz que gosta muito de…

PAZ E AMOR >> Albir José Inácio da Silva

– Paz e amor – ele disse.

Sentada no meio dos escombros ainda fumegantes, Tereza levantou a cabeça mas continuou de costas.

Luiz não sorria, mas sua voz era firme, sugerindo uma tranquilidade reforçada ainda pelos dois dedos levantados na saudação hippie.

Hippie que só agora conseguia ser, embora intimamente sempre o tivesse sido. Acreditava nos cabelos e barbas, nas comunidades, em sexo, drogas e rock’n’roll. Acreditava na paz e na contemplação.

No ano anterior devorou revistas e jornais sobre Woodstock, três dias e três noites no paraíso. Isso sim é que era vida. No Brasil os jovens só queriam saber de apanhar da polícia, fazer greve, ser torturados, sequestrar. Onde estava o amor? Onde o “make love, not war” que se gritava na Europa e nos Estados Unidos?

O problema é que ele era bancário. Nem jeans desbotado e camiseta podia usar. E ainda havia a maldita gravata, que ele colocava e tirava na frente do porteiro “e de quem mais quisesse ver”, numa rebeldia a que ninguém prestava …

TÔ ME GUARDANDO >> Eduardo Loureiro Jr.

Não gosto de Carnaval. Desde que me entendo por gente. Deve ter sido aquela fantasia de pirata expondo as banhas de minha infância obesa. Ou, antes disso, o fusquinha da família, chacoalhado e sujo por um bando de foliões numa cidadezinha do interior do Ceará. Ou, ainda, sempre, a concentração de bêbados, dos quais corro feito cruz fugindo do diabo. De todo modo, apesar desse não gostar, tem alguma coisa guardada. Desconfio disso sempre que escuto "Tô me guardando pra quando o carnaval chegar", do Chico Buarque, que o Fábio resolveu tocar ontem no violão, e olha que eu nem sabia que o Fábio tocava violão, acho que ele estava se guardando para o dia de ontem chegar.

Certa vez, um colega que me conhecia há alguns meses, mas com o qual eu não conversava muito, me disse assim, de supetão:

— Você parece um cavalo com a rédea puxada.

Não tinha como entender aquilo como um elogio. Também não senti como ofensa. Era só a verdade: eu me guardando. E me guardei também na hora da respos…

VESTIDO DE NOIVA [Carla Cintia Conteiro]

“Estou realizando meu sonho”, ela me disse com um daqueles sorrisos que rasgam a cara das criaturas felizes de orelha a orelha, enquanto me entregava o convite. E completou: “Você sabe, né? O sonho de toda mulher é casar na igreja, de véu e grinalda...”. Fiquei olhando para ela com ar estupefato. Não queria jogar água naquela alegria toda, mas ou ela estava redondamente enganada ou eu não era uma mulher. E estava perfeitamente segura então, como ainda agora, de que sou uma filha de Eva.

Verdade que eu conheço alguns casos de mulheres que cometem as insanidades mais absurdas para fisgar um marido e seguir o roteiro que culmina com o desfile diante de todos os familiares e das amigas “invejosas” rumo ao altar. É fato também que algumas pessoas se apaixonam tanto pelos preparativos para a cerimônia que não apenas relegam o pobre do noivo ao papel de coadjuvante, mas, cumprido todo o ritual, elas se surpreendem com um homem ao seu lado e não sabem o que fazer com aquela companhia sobre a …

DEVANEIO >> Carla Dias >>

Percebendo a vida de um jeitinho diferente, com a entrega necessária para não dar mais valor ao que não tem qualquer valor. A entrega de quem se senta na varanda, só para ver final de tarde desfilando, porque acha agradável apreciar a mudança das cores em cenários tão conhecidos, que se tornam misteriosos enquanto o anoitecer acontece.
Gostaria de saber o segredo para manter essa entrega por mais tempo do que me é permitido, porque a rotina grita, em uníssono com os rigorosos horários, mil e tantas tarefas para um único dia, e aquele bando de sorrisos distribuídos às malhas da necessidade de se bancar o satisfeito, feliz até, e por motivos nos quais sequer cabem um naco que seja de felicidade.
Às vezes, pego-me pensando em como lutamos para chegarmos onde, supostamente, desejamos. E, chegando lá, parece um vão, e um tudo em vão, e não sabemos o que fazer com a conquista. Então, ela seca, feito plantação contemplada pela aridez, que lhe suga a capacidade de sobreviver à estiagem. E se…

MAIS UMA VEZ O MESMO ASSUNTO
>> Clara Braga

Tudo bem, vamos lá! Eu queria não entrar na onda de falar sobre o mesmo assunto que todo mundo está mais do que cansado de ouvir. Não quero falar da Luiza que está no Canadá, não quero falar sobre se teve ou não teve estupro no BBB, não quero falar sobre o navio que afundou ou sobre a mulher que disse estar grávida e não estava, mas às vezes parece que não tem outra alternativa, só se fala disso, não importa onde eu esteja.

Fiquei muito tempo tentando pensar em outras coisas para falar, pensei, pensei, pensei, mas não consegui encontrar nada interessante que não acabasse me levando a entrar no assunto ou da Luiza, ou da grávida, ou do navio ou do BBB. Então resolvi assumir, vou ter que acabar falando disso mesmo e esperando que todo mundo tenha a paciência e a bondade de ouvir mais uma opinião sobre o assunto, até mesmo a Luiza que já voltou do Canadá.

Bom, outro dia eu li um texto de um colunista da Folha e ele dizia que a Luiza ter sido entrevistada no Jornal Hoje significava que a …

MÃE BEM RESOLVIDA >> Kika Coutinho

Toda mãe se sente culpada. Ou por todos os dias, ou por alguns deles. Mas sente. Toda mãe carrega consigo, pela vida toda – eu arrisco dizer – os erros cotidianos, os pequenos, os grandes, as interpretações enganadas, as precipitações, os tropeços todos. Dentro desse balde de culpa, que pesará algumas toneladas, sempre teremos as grandes, as inesquecíveis, aquelas que nos acompanharão em anos de terapia, e pelas quais nunca nos perdoaremos. Eu, com menos de dois anos de maternidade, já tenho uma séria candidata ao Oscar da maior culpa de todas, e começou numa madrugada de calor.

Eram 3 horas da manhã quando Sofia me chamou pela segunda vez. De novo?, penso, levantando. “Já vai, Sofia...”, murmuro, caminhando para o quarto dela. Abro a porta:

– O que foi filha?

– Dormi a noite toda – ela diz, feliz.

– Não dormiu nada, filha, tá de noite ainda, deita e dorme – eu digo, quase saindo do quarto.

– Mas, mamãe, Sofia tá dodói – ela tenta essa.

– Onde tá o dodói?

– Aqui ó – responde ela, a…

A VIDA EM UMA REPÚBLICA >> Whisner Fraga

Com dezesseis anos, eu tinha o sonho de sair de casa, morar sozinho, ou pelo menos longe da família. Não que não gostasse de meus pais, nada disso, mas sentia que precisava de um pouco mais de liberdade do que o quarto compartilhado com dois irmãos me propiciava. Depois, não era somente isso, eu queria cursar uma engenharia que as universidades de minha cidade não ofereciam à população. Naquela época, eu não queria cursar Letras ou Artes ou Pedagogia, porque tinha uma visão meio limitada e imaginava que ganharia dinheiro apenas se me tornasse engenheiro. Some-se a isso um certo nível de fobia social e considerei que me daria bem com máquinas, de forma que não me restava dúvida: deveria encarar a Engenharia Mecânica.

Com dezessete anos, meu sonho se realizou e me mudei para Uberlândia. Morar sozinho era impossível, pois meus pais não financiariam essa loucura. Só que não pensei que ia parar numa república com tantos moradores. Éramos oito. Tudo bem que dividíamos um apartamento de quat…

CONVERSA COM UM POBRE JORNAL
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quando saí de casa, lá estava ele, dobrado sobre o capacho da porta do vizinho. Enquanto eu apertava o botão do elevador, pude ler a manchete em letras brancas e grandes sobre um fundo preto. O jornal parecia gritar:

"PEGOU O CARRO E MORREU COM CINCO AMIGAS"
Claro que ele queria que eu chegasse mais perto, lhe desse atenção. Eu podia ouvir o seu resmungo repetitivo: "Me abra, me abra. Venha sujar suas mãos de tinta e se escandalizar. Quero ver o seu plácido sorriso matinal resistir a essa reportagem. Venha! Me abra! Junte-se ao coro que julga isso um absurdo, que reclama do cidadão, das autoridades, da humanidade. Vamos, me pegue. Dê pelo menos uma folheadinha. Confira as fotos. Você vai encontrar um infográfico impactante."

Não lhe dei atenção. Peguei o elevador e desci.

Uns 50 minutos depois, retornei. O jornal ainda estava lá no hall. Deixei a sacola com as compras no apartamento, guardei os ingressos para o show do Jaques Morelenbaum e fui bater um papo com o j…

O QUE CABE NA SUA MALA?
>> Maria Rachel Oliveira

Férias, férias. Janeiro sempre – ou quase sempre – é época de meter o pé na estrada. Fazer aquela tão sonhada viagem que você vem planejando desde o ano passado, caçar uma promoção da Gol e voltar a terra natal pra visitar os parentes. Aproveitar o período de recesso escolar das crianças e alugar uma casa em alguma praia limpa e deixá-las se esbaldando na areia enquanto você tá na sombra e na cerveja fresca.

Aonde você vai é, na verdade, o que menos importa. O que é viajar pra você? Já se perguntou isso? Eu tenho algumas teorias. Viajar é poder sair de si mesmo. É não arrumar a cama todo dia daquele mesmo jeito, com três travesseiros. É não ter preguiça de acordar porque é certo, como dois e dois são quatro, que o dia trará muitas coisas inesperadas. Mesmo que a sua rotina seja boa; é rotina. E afastá-la é bastante saudável vez ou outra.

Em Paris aprendi a emoção de enxergar um letreiro de farmácia. Não tinha um dia que meus pés não sonhassem com band-aids no final da tarde – e nem se…

O QUE CHICO BUARQUE TEM A VER COM ESSA HISTÓRIA >>Zoraya Cesar

Sempre sonhara com o dia em que Chico Buarque e ela se encontrariam, se apaixonariam e ficariam juntos para sempre, trocando beijos e juras de amor, sem se desgrudarem um minuto sequer. Ela se via dizendo para a atual namorada dele, Taís Gulin, desculpe, amiga, mas perdeu, eu sou o verdadeiro amor do Chico.
Quando soube que ele se apresentaria na cidade, tratou de se preparar. Deixou de sair com as amigas, de comprar chocolates, de fazer qualquer coisa que implicasse despesas, tudo para juntar dinheiro que sobrasse para o ingresso (uma fortuna! mas valia a pena), roupa, sapatos e perfume novos, cabeleireiro, manicure, imagine se ela ia encontrar o seu amor como quem vai a um show na praia, jamais! Também comprou calcinha e sutiã sensuais, vai que tem um incêndio, ou acontece um acidente, e ela aparece com roupa de baixo velha? Melhor morrer. Até porque ela não queria simplesmente ver o espetáculo. Ela queria falar com o Chico. Entrar no camarim, pedir autógrafo, tirar foto, tocar ne…

VAMOS DIRETO AO BRÓCOLIS >> Carla Dias >>

“O corpo deseja aprender porque ele precisa viver.”
Rubem Alves, no programa Provocações

Fosse eu mestra em energia, aquela que um e outro costumam dizer que temos de manter “boa” para que a vida aconteça bem, alegaria que nós, os adultos vigentes, somos péssimos em direcioná-la. Isso porque andamos com mais facilidade em direcioná-la ao que realmente não importa, em vez de pensarmos um pouco e descobrirmos que há mais importância em dedicá-la ao que pode mudar positivamente a vida. E nem sempre apenas a nossa, mas também a de outros.
A filha, lá com os seus onze, doze anos de idade, vem defendendo – ardorosamente, e com uma boa dose de cara feia, diante da negativa da mãe – que, quando crescer, será celebridade. “Olha só que livro bacana que eu comprei pra você, filhota!”, e a filhota faz bico pra mãe, porque ganhou livro, em vez de um book (ironia!): uma coleção de fotos dela vestida feito gente grande, a chance de ela de se tornar uma das candidatas a reality show, para o que vem tr…

FALANDO DO QUE É BOM >> Clara Braga

Não costumo criticar quem assiste e gosta de Big Brother. Eu não gosto, não tenho muita paciência e acho sem graça, mas entendo que se já teve tantas edições é porque tem quem goste, e essas pessoas não estão em pequenos números.

Mas outro dia não me aguentei, fiquei sabendo de um caso que para mim pareceu o cúmulo, não acreditei que pudesse existir alguém tão solitário a esse ponto. Uma tal pessoa faz assinatura do canal que passa BBB 24 horas por dia, e nos dias de festa do reality show ela “participa”. Você deve estar se perguntando: "Como assim?" Pois é, também me perguntei isso, mas a pessoa compra bebidas, afasta os móveis da sala e fica dançando sozinho em casa, como se estivesse lá na casa na companhia dos heróis do Bial.

Sou só eu ou isso realmente é uma atitude um pouco exagerada? E o pior é que, no dia seguinte, o pessoal da casa cura a ressaca na beira de uma bela piscina, tomando sol, enquanto o pobre coitado levanta cedo pra ir ralar muito para não receber nem …

BICUDOS >> Albir José Inácio da Silva

Compartilho da ojeriza deste início de século para com os poluidores. Desde medusas multinacionais e ditadores medievais, que nos oferecem imagens de pássaros agonizando em betume; passando por governos ditos civilizados, que se negam a firmar compromissos sobre emissão de gases; até irresponsaveizinhos de todas as idades que jogam lixo nas ruas sabendo que vão entupir bueiros e emporcalhar rios, lagos e oceanos. Abaixo os poluidores.

Mas há um tipo de poluidor que tem merecido injustificável tolerância, comprometendo o bem geral e a felicidade da nação. É o de maus bofes, o bilioso, o colérico. O que se identifica como não tendo papas na língua e para quem o buraco é mais embaixo. O que declara que sua educação é condicional, ou seja, depende da dos outros. O que se justifica de maneira determinista, dizendo que aquele é o seu temperamento e que nada pode fazer, os outros que aguentem. Suas vítimas reagem como podem, tardiamente, já que ninguém espera dentes tão afiados em humanos.

E…

OBSESSÕEZINHAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Aviso logo ao leitor que não me venha com aquele papo de "sai desse corpo que ele não te pertence". Obsessões são boas, e eu gosto. Que seria da vida sem uma obsessãozinha? Uma monotonia sem sentido.

Não dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Então! A obsessão são as linhas tortas que precisamos desenhar para que Deus escreva certo por elas.

Pense na obsessão como um certo tempero feito das seguintes especiarias: julgamento equivocado, loucura, obstinação e excitação. Sim, o leitor está certo se a palavra paixão lhe veio à mente: a paixão é a forma mais disseminada e aceita de obsessão que há em nossa cultura. A criatura fica louca de amor por outra, julga-a erroneamente sem defeitos, fica no maior frisson e não consegue pensar em outra coisa que não seja naquilo. A paixão é perigosa — como são as demais obsessões — mas me diga, caro leitor, como chegar até o amor sem passar pela paixão. É missão impossível pra Tom Cruise nenhum botar defeito.

Claro que, se a cria…

ESTE SAMBA É MEU [Carla Cintia Conteiro]

Com o aumento da minha frequência a ambientes onde se toca e canta samba, fora do circuito das escolas, tenho observado um fenômeno interessante. É comum aparecer alguém cantando um samba popular, gravado por um artista consagrado, como Beth Carvalho ou Zeca Pagodinho, e anunciar, quase como uma reivindicação: “Este samba é meu, fui eu que compus”.

É fato que vivemos em um país em que, na maioria das vezes, a menos que você se interesse em pesquisar, desconhecemos o nome dos autores das canções que amamos. Nas rádios, é comum as músicas tocarem sem que se anunciem quem são seus compositores. Na televisão, nem sempre aparece(m) o(s) nome(s) do(s) compositor(es). Num CD, num DVD, aqueles objetos que marcham céleres para a obsolescência, pode ser necessária alguma dedicação para descobrir esta informação escondida no encarte ou no item de menu que contém os créditos. Em músicas baixadas da Internet, é quase um milagre quando este dado está disponível. Junte-se a isso um sistema de arreca…

SE ME VER, NÃO BUZINE >> Fernanda Pinho

Voltei a dirigir. Tive um rompante e decidi renovar minha carteira de motorista. Conquistada há dez anos e com validade vencida há cinco, nunca foi para mim mais que um documento funcional com foto, RG, CPF e ainda uma capinha protetora, ótima para guardar dinheiro e cartão. Mas chega uma hora que a necessidade fala alto e a implicância das pessoas - "mas por que você não dirige?" - grita. Já havia passado uma década, afinal. Era hora de vencer o medo. O medo alheio, diga-se de passagem. Sim, porque se você sabe a minha idade e é razoável em matemática deduzirá facilmente que eu tirei carteira aos 18, sem a menor dificuldade. Posso dizer? Era uma prodígio na autoescola. E confiava que poderia dirigir por aí como fazem as pessoas normais depois de serem aprovadas na prova do Detran. Já os meus pais...
Sabe a cara que as pessoas fazem quando batem o dedinho do pé numa quina, ou quando estão assistindo a uma cena de agonia máxima de um filme de terror, ou quando estão sentadas…

VIDA DE VIÉS >> Carla Dias >>

Desafio-me a pensar sobre o que jamais pensaria estivesse lidando com a rotina emocional, enquanto desejo apenas o que venho desejando há tempos, nada além. Como mostra uma canção que frequenta o meu gosto, estou presa em um momento, em um cenário, e sequer sabia que poderia escapar da armadilha que ofereci a mim mesma. Eu não conseguia sair do lugar, mas porque não conhecia a possibilidade de migrar da minha realidade, ela absorvida por automático cumprimento de tarefas, para dias mais afortunados. Felizes, até.
Às vezes, olho para os outros, em seus afazeres cotidianos, seus trabalhos, suas vidas organizadas ou completamente caóticas, e me imagino vivendo aquilo que eles vivem, apenas para analisar se seria possível eu ser outra que não esta. Mas a verdade é que, normalmente, sinto-me alinhada à coerência das minhas buscas, que são simples na teoria, mas que podem se tornar um tanto complexas na execução. Sendo assim, ao acordar de mim, envolvida em uma elucubração que me permite um …

RECADINHO DA VIDA>> Clara Braga

Esses dias recebi a ligação de uma grande amiga minha. Ela estava supercontente com uma certa novidade que tinha para me contar, e tinha certeza de que essa novidade também me deixaria feliz.

Papo vai, papo vem, suspense devidamente feito, exatamente como tem que ser, e ela jogou a bomba! Está grávida, e começou a gritar igual às amigas da Rachel em Friends, sempre que alguém conta uma novidade legal!

Eu não sou muito desse tipo que grita e dá pequenos pulinhos quando vai comemorar algo, mas fiquei muito feliz por ela! E foi exatamente o fato de eu ficar feliz que me fez perceber que o tempo passa...

Essa foi a primeira vez em 23 anos de vida que alguma amiga minha me contou que estava grávida e a minha resposta não foi: “E agora, o que você vai fazer?”. Ou então: “Seus pais já sabem? Eles vão te matar?”

Foi um tanto engraçado reparar nesse detalhe, mas confesso que fiquei me sentindo um pouco velha. Sei que sou muito nova, 23 anos, ainda não vivi nada, mas quando esse tipo de situaçã…

A MULHER ERRADA >> Kika Coutinho

Eu não sou a mulher certa para você. É óbvio isso. Devo ter descoberto no nosso primeiro ano de casamento, mas fiquei calada. Foi numa tarde de verão, estava um sol lindo, você ligava o ar condicionado do carro e eu desligava. Lá pelas tantas, vimos que nos restavam duas opções: ou você pingava de suor ou eu tremia de frio. Enquanto assistia à gotinha escorrendo pela sua testa, constatei: Eu não sou a mulher certa pra você.

A mulher certa pra você certamente adoraria ar condicionado. Conheço várias assim. Talvez a maioria das minhas amigas, inclusive. Seria uma mulher dessas que entram no carro já com o mecanismo ligado, no hotel não questionam, ligam e pronto. Estão sempre fresquinhas e perfumadas, essas. Você bem que iria gostar, né? Mas fazer o quê? Casou comigo, restou-lhe aguentar que fico meio melada de suor às vezes, mas é pouco, não sou de suar muito, oposta a você — a mulher errada, claro.

Mas eu guardei segredo. Não te contei, mesmo nos outros sinais. A coisa foi se confirm…

UM JOGADOR VIOLENTO >> Whisner Fraga

Eu não era o dono da bola e não podia decidir, portanto, quem entrava ou quem saía do jogo, mas, mesmo assim, o menino se aproximou e, em vez de perguntar, intimou: eu quero brincar. Tudo isso na quadra do Palmeiras Clube, que, como todo mundo sabe, é comunitária. Para garantir uns chutes nos finais de semana, o procedimento era simples: bastava chegar cedo. A partir das oito horas, a coisa começava a ficar concorrida.

À medida que iam chegando mais meninos, novas equipes se formavam, alguém sentado na mureta empunhava um relógio e dizia que estava marcando o tempo e, desta maneira, ao final da manhã, todo mundo encostava os pés ou as mãos na bola. Uns ficavam mais tempo com ela, dependendo da habilidade, claro. Daí que, quando o moleque sentenciou que desejava entrar naquela hora mesmo, sem respeitar os códigos implícitos que garantiam a convivência mais ou menos pacífica entre a molecada, era de se esperar que todos se revoltassem. Não foi o caso, porque quem invadia o jogo era o Nan…

DESENHOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Hoje eu não queria escrever uma crônica. Gostaria de — se pelo menos eu soubesse — desenhar.

Pelo que me lembro, desenhei até por volta dos 10 anos. Desenhos bobos, tipo barquinho, mas que eu pintava em quadros e pendurava na parede. Depois parei com aquilo. Mas aquilo não parou comigo. Tenho um desejo infantil pelo desenho que retorna de vez em quando.

Organizando minha papelada essa semana, encontrei alguns desenhos que fiz nessas voltas que o desejo dá. Nos últimos onze anos, tive esse desejo pelo menos três vezes.

No início do meu doutorado, em 2000, produzi os dois desenhos abaixo. O primeiro retoma meus temas infantis. O segundo é uma conexão com a poesia, trazendo um verso que, anos mais tarde se transformaria em música.



A vontade surgiu novamente — ou pelo menos eu a conseguir registrar — em 2006/2007, quando vivi sozinho em Teresina. Eu tinha uma deliciosa rotina matinal de caminhada, vitamina, banho, meditação e, pra concluir, desenho. Era mais um exercício de desbloqueio p…

O ÊXODO >>> Maria Rachel Oliveira

“Que Deus me regue, tiruliruliluli. Que Deus me regue!” vem pedindo um padre da moda, nos últimos meses, em cadeia nacional em praticamente todos os intervalos do telejornal mais popular do País. Nas igrejas católicas, em qualquer missa – seja de sétimo dia, de primeira comunhão ou no terço de Santo Antônio – é impossível ouvir um amém, unzinho que seja, sem ser musicado e ter o cara com um violão a tiracolo no á-á-mém, á-á-mém, á-á-mém á-mém á-mémá-mém. Hoje, no jornal O Globo, uma matéria elogiosa destacando um culto em Duque de Caxias ao som de funk. Daqui a pouco é “bate forte o tambor, eu quero é tic-tic-tic-tic-tac”. A coisa está por um triz.
Seria esse incômodo preconceito exclusivo meu? Acho que não. Respeito e defendo que cada um tenha lá o Deus que quiser e até mesmo que não tenha nenhum. Mas, pra mim, religião é coisa de foro íntimo. Definitivamente não gosto nem da gritaria nem da cantoria, e muito menos dessa vazia catarse coletiva, cheia de frases feitas e refrões que m…

PEQUENA PEÇA URBANA >> Zoraya Cesar

Se você acha que teatro está caro, permita-me sugerir uma alternativa: ande de ônibus. É claro que envolve um certo risco, por conta dos possíveis assaltos e acidentes, mas o que é uma vida sem aventuras?
As personagens do pequeno episódio a seguir não são imaginárias nem os fatos se passaram em algum logradouro esquecido pela civilização. Seja lá o que civilização signifique nos dias de hoje. O palco é um ônibus circulante pela zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade. Quanto aos personagens, comecemos pelo motorista, que, mascando chiclete com a boca aberta, olhava bovinamente para os passageiros, como se não entendesse o que eram aquelas criaturas, e não respondia aos cumprimentos. Passemos pela trocadora, uma mulata gorda e quarentona, de traços bonitos, cenho carregado e boca franzida, cujas unhas roídas e sem esmalte poderiam sugerir uma personalidade tímida..., ah, vai dizer que você também não tem diploma de psicólogo amador, hein? Essa é nossa protagonista. Agora, as…