domingo, 8 de janeiro de 2012

DESENHOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Hoje eu não queria escrever uma crônica. Gostaria de — se pelo menos eu soubesse — desenhar.

Pelo que me lembro, desenhei até por volta dos 10 anos. Desenhos bobos, tipo barquinho, mas que eu pintava em quadros e pendurava na parede. Depois parei com aquilo. Mas aquilo não parou comigo. Tenho um desejo infantil pelo desenho que retorna de vez em quando.

Organizando minha papelada essa semana, encontrei alguns desenhos que fiz nessas voltas que o desejo dá. Nos últimos onze anos, tive esse desejo pelo menos três vezes.

No início do meu doutorado, em 2000, produzi os dois desenhos abaixo. O primeiro retoma meus temas infantis. O segundo é uma conexão com a poesia, trazendo um verso que, anos mais tarde se transformaria em música.



A vontade surgiu novamente — ou pelo menos eu a conseguir registrar — em 2006/2007, quando vivi sozinho em Teresina. Eu tinha uma deliciosa rotina matinal de caminhada, vitamina, banho, meditação e, pra concluir, desenho. Era mais um exercício de desbloqueio para o desenho que qualquer outra coisa. Eu fazia um traço qualquer sobre uma folha de papel, depois ia complementando aquele traço. Uma vez definida uma forma, repetia aquele conjunto por toda a folha, com algumas alterações.


Meu ímpeto seguinte foi em 2009, em Florença. Talvez inspirado pelo clima artístico da cidade, comprei papéis, lápis e borracha e tentei retratar o que via. Abaixo, uma tentativa de reproduzir uma gravura do livro Pinocchio, que li no original na tentativa de aprender italiano.


Após cada desenho, sempre a mesma frustração com minha incapacidade de retratar aquilo que vejo. Meus desenhos não batem com a realidade. Não têm a proporção adequada. São incapazes de pegar as sutilezas da imagem. Vejam o desenho original, de Attilio Mussino, como é tocante...


É um desenho de quem enxerga. Ao contrário do meu, que é um desenho de cego. Tenho, com relativa frequência, essa sensação de ser cego, de não ver as coisas.
De vez em quando, me bate a vontade de aprender a desenhar. Mas, não sei se pela vozinha interior que me diz que sou um caso perdido, desisto antes de tentar. Ainda em 2009, animado por um cartaz que falava de um método revolucionário ("desenhar a partir do hemisfério cerebral esquerdo"), cheguei a telefonar para uma professora de desenho, mas algo não deu certo, nem lembro mais o quê. De todo modo, consegui um livro já esgotado, chamado Desenhando com o lado direito do cérebro.
O livro é empolgante. Explica direitinho todo esse meu dilema com o desenho, que não é um dilema só meu, mas de grande parte da humanidade. À medida que crescemos, fomos desenvolvendo mais o lado esquerdo do cérebro, associado à escrita, e deixamos de lado o cérebro direito, mais associado à imagem. Segundo a autora, Betty Edwards, nós não desenhamos porque não vemos; aquilo que desenhamos não é o que vemos, mas aquilo que pensamos. Eu, por exemplo, não estava desenhando a ilustração do Pinóquio, que eu estava vendo, mas aquilo que eu pensava que deveria ser o Pinóquio.
O livro traz alguns exercícios interessantes para retomar, digamos assim, o lado direito do cérebro. Um deles me deixou bastante perplexo: desenhar algo "de cabeça para baixo". A imagem abaixo, por exemplo, de um cavaleiro, deveria ser virada de cabeça para baixo, antes que eu começasse a desenhá-la.

Claro que, quando olhei a figura, disse para mim mesmo: "Não tem como eu desenhar isso aí!". Mas virei o livro de cabeça para baixo e comecei a desenhar. Para minha surpresa, quando desvirei meu próprio desenho, vi o seguinte.

Embora minhas esperanças estivessem renovadas, acabei deixando o livro de lado. Talvez porque os exercícios tenham começado a ficar mais difíceis. Talvez porque "eis que chega a roda vida e carrega o DESENHO pra lá".
Se aborreço o leitor que veio até aqui atrás de um bom texto e não de toscos desenhos , é porque o desejo bate à minha porta novamente, ainda mais forte. De maneira tão intensa que sinto até vergonha. Pois se eu pudesse — e cá estou me perguntando por que é mesmo que não posso —, eu largaria tudo para me dedicar a aprender a desenhar. Mas são tantos os compromissos inadiáveis que a gente vai arranjando para si mesmo, e são tantas necessidades urgentes que a gente vai fabricando e entulhando à nossa volta, que onde haverá tempo e espaço para esses desejos bobos do coração?




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9 comentários:

Anônimo disse...

A única coisa que você realmente precisa para desenhar é muita vontade, determinação e paciência. Conheço esse livro e tem uns exercícios bem bacanas.

Tem um moço que ensina a desenhar de graça e com muita boa vontade o nome dele e Fabio Vinicius o blog dele é blogsequencial.blogspot.com

está na seção desenho.

boa sorte e não desista!! :D

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato pelo incentivo e pela dica, Anônimo. Bem legal o site do Fábio. Vou acompanhar.

Anônimo disse...

Ótimo copista te conforta? Eu que pensava saber; depois de ver sua cópia de desenho feito olhando o original de cabeça para baixo, acabei percebendo que mamãe me enganou direitinho
k:/s

Anônimo disse...

Oi Eduardo!

Interessante tua crônica... Eu que não desenho nadica de nada, sinto uma grande admiração por quem desenvolve maestria nessa arte.
Só não concordo com uma coisa:que o leitor tenha vindo aqui ver um bom texto e não toscos desenhos. O que a gente quer ver mesmo é isso que vc. trouxe: a expressão do desejo que bate forte à porta de cada um de nós!

Zoraya disse...

A gente vem aqui atrás de um bom texto e recebe de bônus uma confissão de sensibilidade e beleza. Como agradecer quando somos presenteados com a intimidade de alguém? Basta agradecer? Então, obrigada, Eduardo.
E volte desenhar hoje, agora, para, daqui a alguns anos, não ter aqueles dias em que “a gente se sente como quem partiu ou morreu”

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya e anônimos, vocês me deram umas boas dicas. :)

Lilu disse...

Que delícia de espera na madrugada fuçando seus escritos. Dá gosto! Dá saudade. Dá umas coisas... Aqui não consegui manter o lugar confortável da Eduardetiete invisível de todas as crônicas anteriores a esta. Você é um ser de natureza criativa, cativa, faz poesia com muitas linguagens. Vai ser mais apertado o abraço da manhã. E, em se tratando de umas aulinhas particulares, me ensina a ver a cama da lua e eu lhe dou papéis, pincéis, ensejo e... umas coisas. }{

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Lilu. E combinado. :)

kilma kenia disse...

mais como eu faço um desses desenhos sou um desenhista mas não consigo fazer isso