sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

PEQUENA PEÇA URBANA >> Zoraya Cesar

Se você acha que teatro está caro, permita-me sugerir uma alternativa: ande de ônibus. É claro que envolve um certo risco, por conta dos possíveis assaltos e acidentes, mas o que é uma vida sem aventuras?
As personagens do pequeno episódio a seguir não são imaginárias nem os fatos se passaram em algum logradouro esquecido pela civilização. Seja lá o que civilização signifique nos dias de hoje. O palco é um ônibus circulante pela zona sul do Rio de Janeiro, área nobre da cidade.
Quanto aos personagens, comecemos pelo motorista, que, mascando chiclete com a boca aberta, olhava bovinamente para os passageiros, como se não entendesse o que eram aquelas criaturas, e não respondia aos cumprimentos. Passemos pela trocadora, uma mulata gorda e quarentona, de traços bonitos, cenho carregado e boca franzida, cujas unhas roídas e sem esmalte poderiam sugerir uma personalidade tímida..., ah, vai dizer que você também não tem diploma de psicólogo amador, hein? Essa é nossa protagonista.
Agora, as passageiras (desculpem, rapazes, vocês foram secundários nessa peça). Senhoras discretamente maquiadas, os cabelos duros, de tanta mousse modeladora (rapazes, por favor, perguntem às meninas o que diabos é isso); usando calças lisas e bem passadas, de cores sóbrias, todas combinando com blusas de estampas geométricas. Senhoras de classe, diria o amigo psicólogo de ocasião. Escolha uma dessas para ser a outra protagonista do episódio.
E a coadjuvante, uma senhora de rosto encovado, cabelos ralos e grandes olhos saltados, o corpo mais parecendo um cabide para o vestido simples, de estampas miudinhas, amarrado por um cinto feito do mesmo tecido. Ou uma senhora de cabelos amarelados, pesada, andando e respirando com dificuldade. Escolha uma dessas, é toda sua.
- Para esse ônibus aí, motorista! Não ouviu o sinal não? Tá surdo? Tá com o chiclete no ouvido? – grita a elegante senhora, lá detrás do ônibus, no último assento.
- Ele ouviu sim, surda é a senhora que não viu ele responder  – devolve a trocadora, lá de seu banquinho.
- Se ouviu se fingiu de surdo e você não faz nada, sua inútil. Tá fazendo o que aí sentada?
- O quêeeee???? Eu, inútil? Eu trabalho muito sua desinfeliz metida a besta – rebate a trocadora, de mão na cintura, tivesse uma saia rodaria a baiana, desmentindo qualquer timidez.
- Eu não quero saber, para logo essa droga de ônibus, essa senhora é idosa, precisa descer – e apontava quase que acusadoramente para nossa coadjuvante, que, tão velha quanto sua defensora, encolhia-se no banco, morta de vergonha, a cabeça baixa.
O ônibus parou, e fez-se um silêncio momentâneo, enquanto alguns passageiros subiam e nossa velhinha descia. Fechadas as portas, a trocadora começou a resmungar impropérios, naquele tom de voz que finge ser discreto, mas quer é ser ouvido por meio mundo.
- Tá latindo o que aí, sua faz-nada? – berra a finíssima lady – Quer um anti-pulgas? – e começou a falar ainda mais alto que os gritos da trocadora, que, ofendidíssima, clamava por justiça, com razão (ou sem; na verdade o motorista não havia parado no ponto, apesar da campainha e do aviso dos outros passageiros. De qualquer forma, o pessoal se dividiu em torcidas pró-trocadora e pró-senhora. Eu só torcia para chegar logo meu ponto).
- Agora eu pego ela, levanta-se a trocadora, eu pego, cachorra não, sua cadela velha! – felizmente seu corpanzil não permitiu que ela saísse rapidamente da cadeira, dando tempo à turma do deixa disso. E a senhora de cabelo arrumadinho, rindo debochadamente, lá atrás, repetia: latindo, latindo sim, enlouquecendo a trocadora, que vociferava insultos de igual quilate.
O ônibus parou de novo, voltou o silêncio, enquanto as duas contendoras juntavam armas e apoio para voltar ao ataque. Nesse ínterim, sobe um senhor que, mal passou a roleta, começou a cantar a Ave Maria num latim truncado, um tanto desafinado. Parece até coisa de Deus, sussurra emocionada uma moça atrás de mim, pois as duas continuaram caladas.  Quando o último in hora mortis nostrae finalmente sumiu no ar (graças a Deus), ele começou a vender suas balas (eu mesma comprei algumas, na vã esperança de que ele continuasse calado). Mas, de qualquer forma, uma relativa paz se estabeleceu dentro do ringue, enquanto ele emendava what a wonderful world, numa mistura de inglês com marciano, ainda mais alto e desafinado.
O motorista, pivô de toda aquela confusão, continuava, bovinamente, a ruminar seu chiclete, indiferente ao vale-tudo que ocorria às suas costas.

No curto espaço de tempo em que o valoroso cantor tomava fôlego e eu me preparava para descer, ainda pude ouvir mais um round:
- Vou te levar na polícia, sua velha sarnenta, vou dar queixa – bufava a trocadora.
- E eu vou te levar pro veterinário, sua indecente – grunhia a lady.
E aí, que tal? Mais barato que qualquer peça. Embora um tanto baixo nível, reconheço. Tudo depende do ponto de vista do observador. No meu caso, quanto mais longe desse ponto, melhor.


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8 comentários:

Josiane Caetano disse...

Muito bem colocado: quem anda de ônibus, consegueria escrever um livro por tantas coisas que acontece dentro dele! Eu mesma, na adolescência, fuim protagonista de váris peças intimistas dentro de um ônibus, comendo um pacote de bolacha e pensando no sentido- na época bem turbulento- da vida...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sério, Zoraya?! Incrível como a realidade às vezes supera a imaginação.

Ego non plus prolixum disse...

Verdadeiro teatro do a-bus-surdo.

Alexandre Durão disse...

Zoraya.
Adorei o "tá com chiclete no ouvido", adorei o "tá latindo aí o quê?", adorei o cara entrando no ônibus cantando a Ave Maria EM LATIM e, ao final, passando a vender bala!, enfim, adorei a crônica.
Pelo que vc diz, a coisa aconteceu de verdade, mas pra nós,leitores, seu texto é melhor que a realidade.
Muito, muito bom, mesmo.
Beijos.
PS: Lembrei de João do Rio. Mais algumas histórias como essa e a do atropelamento da velhinha, já dá pra atualizar a "Alma Encantadora das Ruas". Claro que vai ter que substituir o adjetivo.
Beijos, novamente.

aretuza disse...

Eu ouvi a Zoraya contar a historia no mesmo dia em que aconteceu: é verdade!!1 Agora que eu estou lendo o fato acontecido é que estou vendo o quanto surreal ele é!!! Parece invenção, mas não é, e aí é que está a loucura da coisa!!!
Morri de rir de novo. S-U-R-R-E-A-L!!!

albir disse...

Muito bom, Zoraya. "... vou te levar pro veterinário,... - grunhia a lady." É a elegância que vem dos palácios.

Zoraya disse...

Josiane, pois é, ônibus, trens e metrôs são verdadeiras fontes de aventuras. Depois conta essa do biscoito, fiquei curiosa.

Eduardo, tenho um amigo que já se atracou com um cobrador de ônibus, o maior auê, um dia escrevo a história. Se ele mesmo nao tivesse contado, eu nao acreditaria.

Ego non plus: legal o seu trocadilho com "bus", legal mesmo.

Alexandre: gentilíssimo o seu comentário. Sem palavras para agradecer!Aceito sugestões para trocar o "encantadora".

Aretuza: eu queria ter gravado o cara cantando a Ave Maria e What a Wonderful World. Só isso valeria uma crônica inteira.

Albir, meu amigo sensível, nao se engane: a trocadora nao foi mais elegante nem menos truculenta que a "lady". O palácio e as ruas se nivelaram por baixo...

Cecilia Radetic disse...

Querida, vamos juntar estas cronicas e escrever um livro! ADOREI!!! Só não queria estar no ônibus, óbvio. É simplesmente encantador como você consegue capturar do cotidiano - sim, issso acontece - e criar uma maravilçha destas. E que o nosso dia corra como em um "wonderful world" sem desafinação!