quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

PRIMEIRO CAPÍTULO >> Carla Dias >>


Ainda que cochichassem em seu ouvido a revelação de um mistério inquietante, certamente não reconheceria a importância do feito, não agora. Neste momento, enquanto caminha, desatento ao que acontece a sua volta, desligado da realidade, do tráfego, das pessoas se esbarrando, das ruas encharcadas pela chuva, ausenta-se de si, mas ainda não sabe se para punir-se ou salvar-se.

O fato de ser um mensageiro de promessas descumpridas lhe inquieta. Há tempos o seu trabalho não vem lhe agradando, porque perdeu o gosto pelo desgosto de quem se sente traído ao perceber que a promessa que lhe fizeram jamais será cumprida. Digladiam-se a sua honra de profissional dedicado aos desmandos do destino e as escolhas que levam ao desapontamento de tantos.

Ele mesmo já foi visitado por um mensageiro. Na verdade, decidiu-se pela profissão neste dia, o dia em que lhe partiram o coração. E foi uma mulher de olhar senil e sorriso debochado quem lhe trouxe a novidade: lembra fedelho? Seus pais lhe prometeram uma vida decente e repleta de amor. Mas aqui estou para lhe dizer que eles quebraram essa promessa. Opa! Olha só! Fizeram isso há apenas dois minutos!

Os pais dele sofreram um acidente de carro e morreram quando ele tinha apenas dez anos. De acordo com o que dizem as fofocas entre os seus superiores, nada melhor na formação de um mensageiro de promessas descumpridas do que ter sido visitado por um deles. Sem contar que ter sido visitado pela algoz da esperança, a mensageira que mais se delicia com o desapontamento de um ser humano, foi a cereja no bolo. Mas que fique registrado: ele não gosta de cereja, porém, tornou-se o substituto perfeito para a mulher que lhe mostrou, sem o menor respeito pela dor que sentira, que promessas são frágeis, que as pessoas se apegam a elas apenas para, logo adiante, serem lançadas ao abismo do desapontamento.

Porém, enganam-se aqueles que acreditam que não há sequer um ponto iluminado em seu ser. Há este lugar que ainda pulsa, mostra-lhe lembranças feito cenas de cinema, são poucas, mas válidas. Este lugar, dentro dele, que conseguiu se esconder do ensinamento para se tornar um mensageiro destes, que, durante o processo, aniquila com o que há de melhor em uma pessoa.

É por isso que lhe aquieta o hoje, o dia em que tem de visitar três pessoas para lhes revelar que promessas importantes não serão cumpridas. Porque hoje ele acordou com essa esperança mínima, mas insistente, a lhe cutucar a alma empobrecida. Seu olhar não consegue avançar sem ser despistado para o chão, como se estivesse condenado a admirar somente as coisas rasteiras.

Não há falha mais vil em um mensageiro de promessas descumpridas do que flertar com a possibilidade de estar enganado, e de pensar, ainda que por segundos, que poderia haver desfecho diferente, com direito ao cumprimento da promessa já declarada descumprida. Seria desacreditar a sua própria capacidade de rastrear a incapacidade de um ser humano em dizer a verdade, porque não há nada mais flexível do que uma promessa, principalmente quando ela é feita sem que o seu autor tenha a capacidade de cumpri-la, no afã de uma emoção que sugere o contrário.

Há mil demônios lhe agulhando a alma, neste momento. Já não se sente merecedor do bônus de melhor mensageiro da década, mas sim um possível traidor da profissão à qual tem se dedicado há tanto tempo, na qual vem se destacando desde o início. Vem se alimentando do desapontamento alheio sem culpas ou reservas, crente de que alguém tem de fazer o trabalho sujo, por que não ele?

Avista a mulher na varanda da sua casa, sentada em um banco de madeira, distraída com a chuva. Apesar de já estar às portas do fim da sua vida, ainda há frescor em seu olhar. É a primeira visita do dia de hoje, este dia em que ele se sente estranhamente desajeitado na sua função. Aproxima-se dela, observando-a por alguns instantes. Senta-se ao lado dela, segura a sua mão e deita a cabeça em seu ombro. O perfume dela é suave e oferece a ele uma sensação de conforto, à qual ele se entrega durante um bom tempo.

Quando recebeu a visita da sua mensageira, sentiu a presença dela com tal clareza que conseguiu enxergá-la, o que a deixou perplexa e interessada no menino. Foi assim que se tornou a meta dela transformá-lo no mais eficiente mensageiro. Acontece que um mensageiro de promessas descumpridas entrega a sua mensagem em forma de um sentimento tão forte que se confunde com um presságio imbuído em uma certeza incontestável. E, ultimamente, não poder ser visto ou sentido tem lhe deseducado para o ofício.

Mas o que fazer com tal inquietação?

Ele começa a falar, entregando a sua mensagem, e ela começa a chorar baixinho, para que aqueles que conversam na sala não a escutem. Não quer estragar a felicidade deles com o que acabou de ficar sabendo. E antes de partir para a próxima mensagem, ele permanece algum tempo sentado ao lado dela, vendo a chuva cair, escutando os barulhos de alegria dentro da casa.

Emociona-se com a vida dessa mulher, que ele estudou, antes de partir o coração dela, como fizeram com ele, e tão cedo. Sente-se invadido pela tristeza dela, assim como pela sua benevolência. E sem se dar conta do perigo, do quão irreversível poderia ser, cochicha no ouvido dela:

Eu prometo que tudo ficará bem.



Imagem: Juja Kehl - www.flickr.com/photos/juja_kehl





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4 comentários:

ADRYANA GONZAGA disse...

Gostei muito tanto da historia , como do estilo de escrever do autor muito detalhista prende a atenção do leitor.
já estou seguindo o blog, poque gostei, se vc seguir o Fenix ficarei muito feliz, bs!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mas isso é um seriado de tevê! :) Muito bom!

albir disse...

Primeiro capítulo é promessa de futuros capítulos. Ótimo como sempre. Beijo.

Carla Dias disse...

Adryana... Muitíssimo obrigada por seu comentário. Fico feliz em saber que o meu texto lhe prendeu a atenção e o gosto.

Eduardo... Sabe que um dos meus sonhos é escrever um seriado de tevê? Mais do que ser um dos roteiristas... Criá-lo.

Albir... Vou pensar no que virá!