Pular para o conteúdo principal

REFLEXÕES PARA UM NOVO ANO
>> Clara Braga

No primeiro dia do ano, aquele que em vez de chamar de Dia da Confraternização Universal eu prefiro chamar de Dia da Ressaca Universal, eu aproveitei o clima monótono e o tempo chuvoso para começar a colocar meus planos de férias em atividade.

Digo planos de férias porque esse ano meu plano é fazer planos com prazos menores, fazer planos para o ano todo é tempo demais, eu acabo me esquecendo do que planejei e acaba não dando certo, então acabo me frustrando um pouco.

Mas enfim, voltando ao foco, meu plano para essas férias é tentar, até porque eu sei que esse plano é um pouco ambicioso demais, colocar em dia os livros e filmes que eu não consegui ver durante o ano passado por causa dos deveres que tinha para cumprir.

O primeiro filme que escolhi para começar minha saga foi Peixe Grande, do bizarramente maravilhoso diretor Tim Burton. E depois de assistir ao filme pensei que, se eu acreditasse em coincidências, diria que escolher esse para o primeiro filme do ano foi uma grande coincidência, levando em consideração esse clima de reflexão que a gente acaba se colocando no final de um ano e início de outro, pois o filme acaba deixando uma lição simples, mas que eu pretendo levar não só para esse ano, mas para todos os outros que estão por vir.

O filme conta a história de um filho que para de falar com seu pai por não aprovar as histórias fantasiosas que esse tem mania de contar. Ele acha que todas são grandes mentiras, e por só conhecer o pai através dessas "mentiras" que ele conta, acaba não sabendo quem realmente ele é. Quando recebe a notícia de que o pai está muito doente e pode falecer a qualquer momento, ele resolve tentar uma reconciliação e volta à cidade onde morava para entender quem realmente era esse grande contador de histórias de quem, até então, ele não sentia orgulho algum.

O que todo mundo acaba entendendo dessa história toda é que às vezes nossas histórias de vida não são assim tão interessantes ao ouvido dos outros, e se contarmos as coisas como elas realmente acontecem, sem exagerar um pouquinho aqui ou acrescentarmos um pouquinho de aventura acolá, ninguém vai sequer lembrar do que contamos assim que acabarmos de contar. Às vezes, o que importa não é como algo realmente aconteceu, mas sim como nós enxergamos esse fato.

É claro que no filme o personagem é um tanto exagerado, e se fantasiarmos tudo sem termos um limite com certeza vamos ser taxados de mentirosos. Mas se todas as vezes que algo de ruim nos acontecesse nós conseguíssemos inventar uma história engraçada sobre o fato, e passássemos a olhar o problema com esse novo olhar que criamos, tudo seria mais fácil para todos nós.

E para terminar o filme com chave de ouro, ele fecha com as seguintes frases: “Um homem conta tantas vezes suas histórias que se torna uma delas. Elas vivem após sua morte. E, desse modo, ele se torna imortal”.

Que daqui para frente a gente consiga deixar, para aqueles que nos cercam, só histórias boas sobre nós, pois quando não estivermos por perto essas histórias se tornarão, para essas pessoas, a lembrança de quem nós somos, e essas lembranças são o que nos tornam imortais para cada uma dessas pessoas que lembram de nós.

Comentários

Anônimo disse…
Parabéns. Adoreii essa cronica.
Rafael Vespasiano disse…
Clara Braga, parabéns mais uma vez! A memória é um trabalhar incessante do ser humano, quando lembramos e relembramos os fatos vividos por nós e, ao passo natural de contarmos e recontarmos os acontecimentos de nossas existências a alguém, as lembranças veêm com esquecimentos naturais e assim, acabamos romanceando nossas memórias. Além do fato vivido ser relembrado e recontado, ele é revivido e reinventado. Todas essas reflexões vieram à tona com essa sua maravilhosa crônica. Clara Braga, tu estás cada vez melhor, mais refinada e reflexiva. Grato por lê-la todas as terças nesse site. Parabéns!
"Peixe Grande" é um belo filme mesmo, Claro. Fiquei curioso para saber quais são os outros filmes e livros da sua lista de férias. :) Antes de antes de ontem, eu vi um que estava na minha lista: "Meia-noite em Paris", do Woody Allen. Muito bom! E ontem revi um filme lindo que merece estar em qualquer lista: "O marido da cabeleireira".
Zoraya disse…
Chorei de me acabar com esse filme, um de meus preferidos. Depois de ler sua cronica, tenho certeza que se alguém ainda nao viu, foi procurar correndo

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …