domingo, 29 de janeiro de 2012

TÔ ME GUARDANDO >> Eduardo Loureiro Jr.

Não gosto de Carnaval. Desde que me entendo por gente. Deve ter sido aquela fantasia de pirata expondo as banhas de minha infância obesa. Ou, antes disso, o fusquinha da família, chacoalhado e sujo por um bando de foliões numa cidadezinha do interior do Ceará. Ou, ainda, sempre, a concentração de bêbados, dos quais corro feito cruz fugindo do diabo. De todo modo, apesar desse não gostar, tem alguma coisa guardada. Desconfio disso sempre que escuto "Tô me guardando pra quando o carnaval chegar", do Chico Buarque, que o Fábio resolveu tocar ontem no violão, e olha que eu nem sabia que o Fábio tocava violão, acho que ele estava se guardando para o dia de ontem chegar.

Certa vez, um colega que me conhecia há alguns meses, mas com o qual eu não conversava muito, me disse assim, de supetão:

— Você parece um cavalo com a rédea puxada.

Não tinha como entender aquilo como um elogio. Também não senti como ofensa. Era só a verdade: eu me guardando. E me guardei também na hora da resposta: dei um sorrisinho e mudei de assunto. Mas não dá pra mudar de assunto numa crônica...

A verdade é que tive meus carnavais fora de época, o que é até um pleonasmo, porque todo carnaval é fora de época. É uma coisa que não cabe no tempo. Carnaval é uma revolta contra o tempo, feito o samba "E o mundo não se acabou", do Assis Valente: corre o boato de que o mundo vai se acabar, o pessoal apronta o que quer, dança "um samba em trajes de maiô", e depois tem que aguentar as cinzas da quarta-feira. Sim, porque qualquer tragediazinha dessas que aparece na televisão é bem instrutiva: a explosão acontece em segundos, já os destroços levam semanas para serem removidos.

Mas voltemos aos meus carnavais sem fevereiro ou março, alô, alô, Gil Gilberto, aquele abraço...

Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Embora eu tenha tentado fazer umas aulas de dança de salão (já me imaginaram dançando um tango?), meu bailado veio mesmo foi com a Biodança. Sou feliz só de lembrar. Parecia mentira de carnaval ter uma alegria logo após uma separação, mas foi assim mesmo: o movimento começou no corpo pra só depois chegar às emoções, "pelos poros elimina-se o que o corpo não precisa, e não precisa, pra pensar, abdicar desse prazer".

Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

De vez em quando, no domingo pela manhã, tem um carnavalzinho aqui no Crônica do Dia. A literatura é uma boa desculpa pra colocar pra fora o lixo acumulado no cesto. Removo o saquinho, dou um nó, abro a porta, levanto a tampa... tudo bem direitinho, bonitinho, arrumadinho, mas o que "eu quero é botar meu bloco na rua".

Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Teve um tempo em que o carnaval pareceu não ter fim. Peguei, passei a mão, sujei e lavei a louça e as pernas de umas tantas moças. Não quis nem saber se quem a trouxe foi outro, fiz papel de louco e estava pronto pra bater boca dentro do salão.

Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Aqui fui barrado na entrada do baile. Ela até deu a deixa, contou a história infantil da flor do maracujá: "Mãe, vem ver, tem uma flor sorrindo pra mim". E sobrou sorriso também para "um pobre amador, apaixonado, um aprendiz do seu amor", mas molhado mesmo só o sorvete tomado na lembrança da esperança do carnaval que quase chegou, mas não.

E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar...
E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E às vezes meu carnaval é das antigas, pré-moderno, selvagem, reptiliano, entrudo com direito a bate-leva e mela-mela. — Puta que o pariu, caralho, que aporrinhação, vá tomar no monossílabo, filho da puta!

Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Carnaval feito ontem, feito pátio, voz e violão e percussão, fala e riso e brincadeira, "quatrocentos mil projetos que jamais são alcançados", "o coração na mão e o sonho na razão", "olhos agora só pra ver você, boca agora só pra lhe beijar", "futebolisticamente falando, eu ainda faço um gol", "é a vida, é a vida, simplesmente e nada mais".

Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E esse carnaval, quando será? "Quando o grito do prazer açoitar o ar"? Tô me guardando, tô me guardando... pra qualquer quando, antes da morte chegar.

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5 comentários:

albir disse...

Edu,
é verdade que Chico Buarque não precisa. Mas você valoriza o que já é bom. Assim como se fosse uma poesia aplicada.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Adorei "poesia aplicada", Albir. :) Grato,

Carla Dias disse...

Eduardo... O tipo de carnaval que me agrada é o da sua crônica, um que eu possa ler e apreciar - muito! - sem que seja preciso sambar no batuque do feriado.
Ótima crônica!

maria rachel oliveira disse...

É, amigo, nem sempre é apoteótico, mas que esse "carnaval" seja pra breve. E eu, como você, também corro feito a cruz fugindo do diabo da concentração de bêbados... rs.

;)

Zoraya disse...

Escritor, blogueiro, editor, desenhista, você já vive um carnaval de emoçoes sutis. Não se guarde nao que a vida é agora. "Parece um cavalo de rédeas puxadas" foi sensacional, bateu fortissimo em mim. Valeu