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ESTE SAMBA É MEU [Carla Cintia Conteiro]

Com o aumento da minha frequência a ambientes onde se toca e canta samba, fora do circuito das escolas, tenho observado um fenômeno interessante. É comum aparecer alguém cantando um samba popular, gravado por um artista consagrado, como Beth Carvalho ou Zeca Pagodinho, e anunciar, quase como uma reivindicação: “Este samba é meu, fui eu que compus”.

É fato que vivemos em um país em que, na maioria das vezes, a menos que você se interesse em pesquisar, desconhecemos o nome dos autores das canções que amamos. Nas rádios, é comum as músicas tocarem sem que se anunciem quem são seus compositores. Na televisão, nem sempre aparece(m) o(s) nome(s) do(s) compositor(es). Num CD, num DVD, aqueles objetos que marcham céleres para a obsolescência, pode ser necessária alguma dedicação para descobrir esta informação escondida no encarte ou no item de menu que contém os créditos. Em músicas baixadas da Internet, é quase um milagre quando este dado está disponível. Junte-se a isso um sistema de arrecadação e pagamento de direitos autorais que funciona como uma caixa preta e temos terreno fértil não apenas para usurpação pecuniária, mas também para espoliar o crédito de quem tem direito a ele.

É comum até hoje ouvirmos por aí alguém dizer que “adora aquela música da Elis Regina”, quando é sabido que a cantora gaúcha era grande intérprete, mas não compositora. O correto, portanto, seria dizer que se gosta de determinada canção do repertório de fulano ou beltrano. Por outro lado, fiquei sabendo outro dia, através de um vídeo gravado pela Alcione encontrado no YouTube, que a lindíssima “À Flor da Pele”, creditada a Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós é uma composição da sua intérprete definitiva, Clara Nunes. Quantos sambas Dona Ivone Lara não permitiu que fossem registrados por outros autores porque mulher não podia compor samba?

E se vocês pensam que isso é coisa apenas do mundinho dos batuques ou de antanho, estão enganados. Ainda outro dia uma conhecida me pediu para ajudá-la em uma determinada tarefa, o que fiz com gosto. Só que, ao entregar o trabalho, ela me agradeceu dizendo que tinha ficado ótimo e que, por isso, ela estava certa de que meu marido deveria ter me ajudado, então ela agradecia a ele também. Alguns dias depois fomos a uma dessas festas onde cada pessoa leva um prato, de modo que as despesas não sobrecarreguem ninguém ou mesmo inviabilizem o impulso da reunião e da celebração. Pois todos vinham elogiar o prato que eu havia preparado e eu dizia que quem tinha encostado o umbigo no fogão havia sido o meu marido. Ainda desconfiados diziam: “Mas, com certeza, você ajudou e foi dando as instruções”.

Só sabe desta dor quem já sentiu na pele o que é ter uma ideia ou uma obra atribuída a outrem, ter seu nome “esquecido” nos créditos ou ver outra pessoa enriquecer, mesmo que em apenas prestígio, graças ao suor da sua testa. Um lugar à sombra pode ser conquistado por escolha própria, por ainda não ter chegado a hora certa de aquela pessoa brilhar ou mesmo porque é a parte que cabe no latifúndio àquela criatura. Evidentemente, muitas vezes é o carisma de quem leva o trabalho para o público um dos fatores que traz brilho para certas obras. Mas não custa lembrar que grandes intérpretes estariam gravando “Ai, se eu te pego” se não fossem os grandes compositores, que merecem ter seus nomes conhecidos e receber pelo fruto da sua criatividade e labuta.

Comentários

Essa crônica bem que poderia ser minha, Carla Cíntia. :)
albir disse…
Amigo meu cantou um samba que ainda estava fazendo num bar no centro do Rio. Todos gostaram e até estranhos vieram cumprimentá-lo. Dias depois, véspera de carnaval, num bairro distante em visita a um parente, ele para num balcão pra tomar cerveja. Vem descento um bloco, ensaiando e cantando o quê? Um grandão, que pelas ordens que dava parecia dono do bloco, entrou no bar e viu que ele, o meu amigo, cantava o samba. Perguntou com um vozeirão do seu tamanho: - gostou do samba? Assustado, o outro respondeu: - gostei... de quem é? E o grandão: -é de minha autoria, mermão. Só restou ao meu amigo acompanhar a letra que tão bem conhecia:
"Odete,
Odete,
eu te dou uma bicicreta e tu me chega de chevete!
Odete..."
Isso não é um comentário, é uma pré-crônica, Albir. :) Muito bom!

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