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O ÊXODO >>> Maria Rachel Oliveira

“Que Deus me regue, tiruliruliluli. Que Deus me regue!” vem pedindo um padre da moda, nos últimos meses, em cadeia nacional em praticamente todos os intervalos do telejornal mais popular do País. Nas igrejas católicas, em qualquer missa – seja de sétimo dia, de primeira comunhão ou no terço de Santo Antônio – é impossível ouvir um amém, unzinho que seja, sem ser musicado e ter o cara com um violão a tiracolo no á-á-mém, á-á-mém, á-á-mém á-mém á-mém á-mém. Hoje, no jornal O Globo, uma matéria elogiosa destacando um culto em Duque de Caxias ao som de funk. Daqui a pouco é “bate forte o tambor, eu quero é tic-tic-tic-tic-tac”. A coisa está por um triz.

Seria esse incômodo preconceito exclusivo meu? Acho que não. Respeito e defendo que cada um tenha lá o Deus que quiser e até mesmo que não tenha nenhum. Mas, pra mim, religião é coisa de foro íntimo. Definitivamente não gosto nem da gritaria nem da cantoria, e muito menos dessa vazia catarse coletiva, cheia de frases feitas e refrões que muitas vezes dizem nada com coisa nenhuma. Prefiro cantar a musiquinha do elefante que incomoda muita gente a rezar esse novo Pai-Nosso todo torto e cheio de rimas pra combinar com o violão lá do moço da renovação carismática.

Não sou do tempo da missa em latim – minha infância foi de missas solenes, porém não incompreensíveis – mas sinto saudade da igreja católica de 20 anos atrás. Naquela época se podia ir à igreja pra pensar. Apesar de não acreditar ipsis litteris no Deus da Bíblia, era um ambiente que favorecia a reflexão. Eu gostava.

Hoje, ao contrário, ninguém pensa. Ou se grita, ou se rebola ou se canta – às vezes tudo junto. Ninguém consegue um momento quietinho! Até na hora da comunhão tá lá o mocinho no blim blim, blom blom e todo o mundo sacolejando no meio da igreja. Santo Antônio, coitado!, virou mercenário e pra acender uma vela – eletrônica – há que se enfiar no buraquinho uma moedinha de um real. Capaz até de fazerem com que ele desça até o chão se for detectada uma doação de 50 pilas.

Apesar de ter fé em alguma coisa que não sei bem o que é – à igreja não vou mais (a não ser por obrigação familiar ou com fins turísticos), não consigo ser parte disso que anda rolando por aí. Quando quiser bater um lero com a energia lá de cima vou é pra algum lugar bem calminho. E se algum dia algum Deus me cobrar, respondo: à igreja não dava mais, era muita interferência.

Comentários

Josiane Caetano disse…
É isto mesmo! Igreja é lugar de reflexão, não há sentido nenhum que ela seja repleta de barulho! Mas hj em dia, a intenção é aumentar o maior número de " ovelhas perdidas" então, nada como agradá-las com o que elas estão acostumadas.
Josiane, é bom saber que mais alguém compartilha desse meu incômodo... rs.

Um beijo e obrigada pelo solidário comentário!
Rachel, se eu ainda fosse, também estaria incomodado. :)
albir disse…
Rachel,
me incomoda principalmente a nova venda de indulgências sob a forma de CDs, DVDs, toalhinhas abençoadas, óleos santos, carnês e outros engodos à boa-fé dos humildes.
Zoraya disse…
Rachel, você tocou num ponto ótimo. Frequento a missa católica escolhendo a igreja a dedo, pois me é insuportável aquela barulheira desafinada e ensandecida. Impossível rezar. Mas rezar é se comunicar consigo e com Deus, e o pessoal nao consegue mais fazer isso nao. Beijos silenciosos

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