segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

BICUDOS >> Albir José Inácio da Silva

Compartilho da ojeriza deste início de século para com os poluidores. Desde medusas multinacionais e ditadores medievais, que nos oferecem imagens de pássaros agonizando em betume; passando por governos ditos civilizados, que se negam a firmar compromissos sobre emissão de gases; até irresponsaveizinhos de todas as idades que jogam lixo nas ruas sabendo que vão entupir bueiros e emporcalhar rios, lagos e oceanos. Abaixo os poluidores.

Mas há um tipo de poluidor que tem merecido injustificável tolerância, comprometendo o bem geral e a felicidade da nação. É o de maus bofes, o bilioso, o colérico. O que se identifica como não tendo papas na língua e para quem o buraco é mais embaixo. O que declara que sua educação é condicional, ou seja, depende da dos outros. O que se justifica de maneira determinista, dizendo que aquele é o seu temperamento e que nada pode fazer, os outros que aguentem. Suas vítimas reagem como podem, tardiamente, já que ninguém espera dentes tão afiados em humanos.

Esse agente da poluição prima pela formalidade e rege-se pela etiqueta. Dá bom-dia como se fosse um favor; pede licença como se fosse obrigação calar ou afastar-se diante dele; agradece como se estivesse sendo generoso com os servos. Entende por civilidade apenas cumprimentos e congratulações, como se assim pagasse seu tributo à educação, podendo a partir daí escoicear qualquer um que discorde da sua opinião, não atenda prontamente às suas demandas ou tenha a ousadia de lhe contrariar os interesses.

Por acaso grosseria não é poluição? Mal educados estragam menos o ambiente? Suas presenças não tornam irrespirável a atmosfera a sua volta? Não provocam debandada de pessoas e silêncio constrangedor? Os presentes não perdem a espontaneidade diante dessas malas sempre prontas a explodir?

As malas se explicam dizendo que só falam a verdade e por isso incomodam. Mas por que não guardam suas verdades para seus terapeutas e confessores, e tratam os demais com urbanidade? Se precisam agredir alguém, por que não batem suas cabeças na parede – de preferência na sua própria para não estragar a pintura de ninguém?

Às vezes dá pena, porque o que eles fazem quando abrem a boca é uma péssima propaganda de si mesmos. Mas é uma pena conformada, como a que dedicamos ao cachorro louco que precisa ser sacrificado.

O que mais incomoda no comportamento dos trogloditas é o fato de não se suportarem uns aos outros. Tudo estaria bem se eles se gostassem. Reuniam-se, trocavam patadas, “verdades” e outros afagos, ficavam felizes e deixavam em paz o resto da humanidade. Mas não se toleram e ainda esclarecem que dois bicudos não se beijam. Querem bicar inocentes, que não compartilham sua bile, tatuando-lhes ferraduras no peito.

Abaixo os poluidores! Todos!

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4 comentários:

Paula Laura disse...

BRAVO!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, grato por me fazer pensar que tal comportamento é uma espécie de poluição. Bela sacada!

albir disse...

Paula,
obrigado. Volte sempre!

Edu,
poluição com efeitos imediatos: irritação, taquicardia, depressão etc.

Zoraya disse...

Albir, puxa, as ideias estão no ar mesmo, só agora vi que vc também usou o termo "trogloditas" (mas peço desculpas assim mesmo, afinal, deixei passar uma crônica sua!). Adorei a associaçao de mal educados com poluidores. Esse comportamento polui mesmo o ambiente astral. Vamos limpar os poluidores com água sanitária e a poluição com água benta.