quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

VAMOS DIRETO AO BRÓCOLIS >> Carla Dias >>

“O corpo deseja aprender porque ele precisa viver.”
Rubem Alves, no programa Provocações

Fosse eu mestra em energia, aquela que um e outro costumam dizer que temos de manter “boa” para que a vida aconteça bem, alegaria que nós, os adultos vigentes, somos péssimos em direcioná-la. Isso porque andamos com mais facilidade em direcioná-la ao que realmente não importa, em vez de pensarmos um pouco e descobrirmos que há mais importância em dedicá-la ao que pode mudar positivamente a vida. E nem sempre apenas a nossa, mas também a de outros.

A filha, lá com os seus onze, doze anos de idade, vem defendendo – ardorosamente, e com uma boa dose de cara feia, diante da negativa da mãe – que, quando crescer, será celebridade. “Olha só que livro bacana que eu comprei pra você, filhota!”, e a filhota faz bico pra mãe, porque ganhou livro, em vez de um book (ironia!): uma coleção de fotos dela vestida feito gente grande, a chance de ela de se tornar uma das candidatas a reality show, para o que vem treinando a vida inteira. “Até parece que você não quer que eu faça sucesso, manhê!”, a menina grita e chora, ao mesmo tempo, enquanto a mãe se afasta, para não ter de lidar com a situação.

Vivemos uma realidade na qual as pessoas acreditam que ser celebridade é profissão, e meninas sonham em ser mulher-fruta, os meninos acham bacana que elas sejam mulheres-frutas, mas não para casar, afinal, homem não casa com fruta, não é mesmo? Certas coisas continuam iguais desde o desde sempre, mudando somente a versão. O que não nos impede de lamentar quando uma mulher disputa com a outra a posição de “miss bumbum”.

Lembro-me de um comercial – mas não do produto – no qual um menino de seis, sete anos de idade, inferniza a mãe no supermercado, como os filhos de muitas de nós, que adoram um docinho que tentamos evitar que eles consumam demais. Neste caso, o menino sapateava porque queria que a mãe levasse brócolis para casa. O slogan era “essa criança não existe”.

Vamos pensar que a educação seja o brócolis, um alimento saudável, mas para o qual a maioria dos políticos torcem o nariz. Não interessam os benefícios que o brócolis ofereça, alimentar a educação com fast food engorda os bolsos de alguns e mantém o brasileiro intelectualmente defasado, ou seja, um povo na medida certa para ser ostensivamente manipulado.

Você deve estar se perguntando o que birra de menina, mulher-fruta, miss bumbum e homem que não casa com fruta tem a ver com brócolis. Eu posso garantir que tem muito a ver.

São frequentes as notícias sobre hospitais nos quais faltam médicos. Ouvi até falar de um médico e uma enfermeira que cuidaram de mais trinta pacientes da UTI, em uma noite, o que não deu muito certo. Prometeram contratar médicos urgentemente lá no hospital. Contrataram? Não sei, mas há muitos médicos trabalhando em situações críticas e por um salário irrisório, no Brasil. Sendo uma profissão tão importante, afinal todo cidadão necessita de atendimento médico, deveria também oferecer condições dignas de trabalho e atrair mais estudantes.

E o pior é que isso não é segredo. Todos conhecem a equação e o resultado dela.

A educação é o nosso brócolis. Todos sabemos que fará bem ao nosso futuro, que garantirá que nos tornemos cidadãos esclarecidos e, certamente, despertará o interesse de muitos por profissões que podem até não envolver celebridade, tampouco garantir a entrada em reality shows, mas certamente são muito mais importantes para a nossa existência. Com ela em boa forma, a menina terá a opção de estudar moda, por exemplo, ou até se interessar pela medicina. As frutas continuarão nas bancas da feira e dos supermercados, frequentarão tortas e enfeitarão as nossas mesas, além de nos alimentar. E em vez de mulheres-fruta, teremos mulheres brilhantes na música, no cinema, na política, e por aí vai. Teremos pessoas capazes de se defenderem intelectualmente da manipulação.

Também os professores são necessários para a formação de qualquer cidadão. Essa profissão tem de ser tratada com a importância que lhe cabe, não sendo aceitável professores que não se importem com o que ensinam aos seus alunos.

Agora, é preciso mudar o slogan para “essa criança existe, e está escrevendo a nossa história”. Para tanto, em vez de nos esgotarmos em contras, precisamos passar a cultivar o "a favor". Precisamos permitir que o desejo de aprender seja atendido por uma educação que não seja a decorada e falida. É preciso que a inspiração aflore, que os professores sejam guias no aprendizado de seus alunos, que os acompanhem em uma jornada na qual a curiosidade levará às descobertas, ao aprendizado. Então, adultos e pensantes, eles poderão trocar o canal da televisão quando o programa for ofensivo, até que a existência do mesmo se torne completamente desnecessária. E o respeito com o qual tratarão a si e aos outros será capaz de construir uma sociedade na qual as suas escolhas não levarão à degradação intelectual, mas sim a mais curiosidade, outras descobertas, ao aprendizado.

Então, sapateiem e exijam o brócolis.

Trecho da participação do educador Rubem Alves no programa Provocações da TV Cultura;


Partilhar

3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, grato por esse papo-cabeça, melhor dizendo, por esse papo-corpo, que veio acompanhado do sempre inspirador Rubem Alves.

albir disse...

Carla,
esqueci o nome do filme, mas era uma conversa amigável entre um cristão e um monge oriental. E o cristão dizia: - mas eu não acredito em reencarnação! E o monge retrucava: - claro que não, como você poderia acreditar?
Quantos pais conhecemos que gostam e consomem brócolis? Quantos professores gostam de arte e literatura? Como um garoto pode não gostar de hambúrger, novela e refrigerante?
Texto primoroso, como sempre. Beijos.

Carla Dias disse...

Eduardo... De nada! Eu que agradeço pelo tempo dedicado à leitura das minhas ideias, que sempre apreciaram Rubem Alves.

Albir... O bom do não gostar é que ele pode se transformar em gostar. A grande sacada é que experimentemos o aprendizado, a consciência sobre o que tem tudo pra nos fazer bem. É um jeitinho de sermos bondosos com as pessoas que nos tornamos no decorrer da vida.