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Mostrando postagens de Junho, 2019

O QUE VESTIR >> Cristiana Moura

Era o casamento de uma amiga, traje esporte fino. Quando me dei conta, não tinha roupa para o tal evento. Todas folgadas. Corri à casa de minha mãe que me emprestou um vestido. São constantes as mudanças no espelho depois que comecei a emagrecer. Por vezes, temo afogar-me como Narciso. Mas preciso olhar. Não se trata de contemplar a própria imagem. Trata-se de reconhecê-la. 
As roupas de meses atrás, as perdi todas. Comprei novas. Alguns meses se passaram e ficaram folgadas também. Ontem fui buscá-las no conserto. Experimentei uma a uma ouvindo a opinião da atendente:
— Tá novinho, você não podia mesmo perder esse vestido! 
Tira roupa, põe roupa. Tira roupa, põe roupa. Por vezes penso mesmo que estou trocando de pele. Quando eu já estava saindo ela disse:
— Já tá bom de apertar este que você está usando, vestido folgado já não te cai bem.
— Volto em dois ou três quilos – respondi em concordância. Quando se faz dieta a gente começa a medir tempo em quilos. 
Noutro dia, um amigo antigo…

SORTE NO JOGO, NEM TANTO NO AMOR - 1a parte. Uma aventura do detetive sem nome >> Zoraya Cesar

Estou nesse jogo há muitos anos. Isso, por si só, é um bom motivo para comemorar - no meu ramo, poucos sobrevivem além dos 40. Nem sempre ganhei todas as rodadas, mas, correndo o risco de me repetir, estar vivo já é uma vitória em si.
Se você me perguntar por que não me aposentei – afinal, ganhei muito dinheiro e sempre soube investir – tenho a resposta na ponta da língua: pela aventura. Pelas mulheres. Pela adrenalina. Pelo desafio à inteligência e à morte. (Acho que só quem tem consciência de nossa finitude valoriza a vida). 
No meu trabalho, o termo ‘jogo’ deve ser tomado em acepção mais ampla que a dos carteados e roletas. Mas, de certa forma, também contamos com a sorte, também nos defrontamos com o azar. E, aproveitando o tema (hoje estou mais loquaz que o normal), curioso constatar que nunca, até agora, tive sucesso em provar a falsidade do ditado sorte no jogo, infeliz no amor.
Vejam esse último caso, que quase me levou para o sono eterno. Tudo, claro, como sempre, por causa de u…

DIGA XIS>>Analu Faria

Se você acha que seu sorriso não é tão colgate assim e quer colocar um aparelho, por favor, não faça isso. Vá trabalhar sua autoestima, vá fazer yoga, gaste seu dinheiro de outro jeito. Acredite em mm:  a não ser que você tenha os dois dentes da frete bem no meio céu da boca, a ortodontia é muito mais feia que o seu sorriso.

Há um ano e meio resolvi desapinhar os dentes de baixo, porque, às vezes, dependendo do ângulo em que se olhava, eles davam as caras, ali meio fora do lugar. Não, o sorriso não era feio, o tal apinhamento, alegam alguns amigos, só era notado quando eu apontava: "tá vendo esses dentes tortos aqui aqui?  Bom, mas se havia jeito, por que não? Saí do consultório com um aparelho daqueles tradicionais, com bráquetes e tudo, nos dentes de cima também. Além disso, concordei com um combo horrendo que, a dentista me garantiu, era absolutamente necessário: uma cirurgia de extração dentária no ano seguinte e o aviso de que eu teria de usar uma espécie de parafuso para pu…

MOROSIDADE DA CULPA >> Carla Dias >>

O fato de a mente dele trabalhar em ritmo mais ralentado do que a da maioria, e ele enxergar a vida de uma perspectiva nada convencional, a mãe diz que é defeito de fabricação. Ela confessou à amiga que achava que tinha a ver com o momento da concepção. Que naquele dia, justo nele, ela e seu marido decidiram esquentar as coisas e cometeram uma luxúria que os levou a gritar feito loucos, naquele quartinho de motel lá da Rua Três. Foi tanta devassidão, que ela acredita que tenha pagado essa conta gerando um filho meio aluado. Não que ele seja burro, mas tem esse jeito outro que ela não sabe definir. Tornou-se um homem trabalhador, apesar de ninguém se atrever a lhe assinar carteira. E a mãe, já cansada de pagar a conta do seu despudorado comportamento, vive a tentar melhorar o que, para ele, é do jeito que é; pelo sofrimento que ele não sofre. Faz de um tudo na tentativa de aplacar a culpa que nunca foi dela. Afinal, a culpa faz isso... desvia o afeto, cala a felicidade, cria distância…

CALMA, MAS NÃO VAI PASSAR >> Clara Braga

Recentemente, coincidência ou não, recebi a notícia de que alguns amigos estão grávidos. Desde que me tornei mãe, sempre que fico sabendo da gestação de alguém que conheço sou automaticamente levada para o início da minha gestação, e lembro das diversas atrocidades que ouvi quando contava para algumas pessoas que eu estava grávida!
O comentário clássico é: você não devia ter contado para ninguém antes dos 3 meses, agora corre o risco de perder o bebê. E você que não era supersticioso começa a ficar levemente preocupado, afinal, você não acredita em bruxas, mas...
Também tive que aguentar aquelas pessoas “fitness” que só pensam nas mudanças pelas quais o corpo vai passar e julgam as mães que depois de 3 meses de amamentação ainda estão flácidas. O pior comentário que ouvi de uma dessas pessoas foi: agradeça que você está passando muito mal agora no início da gestação, assim você perde uns quilinhos e depois que seu filho nascer é mais fácil emagrecer.
Algumas pessoas eu apelidei de pe…

7 >>> branco

7


segundos  - é o momento -
minutos  - é daqui a pouco -
horas  - é tempo previsto -
meses  - é meta -
anos  - é objetivo -
séculos  - é história -
milênios - é arqueologia -

7

vidas  - é gato -
véus  - é dança -
maravilhas  - é estado de espírito -
quedas  - é ter existido -
vezes  - é perdão -
faces  - é poesia -
palmos  - é nunca mais -


OBSESSÃO SUAVE >> Fred Fogaça

Minha casa não tem porta de entrada: cá dentro, existo, apenas: por isso cedi. Qual o limite do tom? Precisei força-lo ao passado. Decisão tomada: como se enfrenta um desespero dessa magnitude? Quero dizer, nessa tecitura tortuosa e incomum? Nesse milimetramento oscilante pelo espaço que a massa, um dia corrida, ocupa?
Não há outrora que justifique.
Ódio puro concentrado.
Minha casa só tem uma saída: nos fundos: a preço de abrir a porta pra uma maquina de lavar é que se entra por ali: a preço de um varal de panos impossíveis que balançam na vista. O vaso sanitário encara de frente o fogão na cozinha - não fossem duas persianas grandes que abriam pra sacada pequena, agora unidas nos inversos, feitas de biombo. A estrutura dessa subsistência se expressa no desespero dos seus tons.
A que preço.
Uma demão de desgaste: sem choro. A lixa não expressa arrependimentos. Não sem forçar: o presente é forte, suas variações cromáticas se desdobram pelos cantos baixos, e o verde destituído resiste no c…

O ESSENCIAL >> Sergio Geia

Há certas coisas que são essenciais na vida. Muitos poderão achar que exagero, que a vida segue sua marcha sem a necessidade delas. Discordo. Discordo veementemente, com toda a potência que esse veementemente pode ter. Viver a vida sem elas é coisa de gente atrasada, de gente que ainda não descobriu como evangelicamente separar o joio do trigo, o bom do ruim, o que edifica do que atrasa.
Veja a questão do pão do meinho. Não há como comparar o pão do meinho com o da ponta, que me desculpem os ponteiros. E pessoas antigas, como tio Milton, sabem o que fazer na hora de pedir o seu pão careca. Outro dia, tomado por uma ingenuidade quase infantil, resolvi confiar no humano. Fui comprar o pão careca e até pensei em pedir os do meinho. No entanto, alguma coisa me disse, calma, não precisa pedir; ela vai escolher cinco pães aleatoriamente, talvez um não seja do meinho, quiçá dois, mas os demais serão. Ledo engano. Em casa, ao abrir o pacote, estava lá a surpresa: todos eram ponteiros, talve…

FIM = COMEÇO >> Paulo Meireles Barguil

O que havia antes do Big Bang?

O que haverá depois do Big Crunch?

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

Quem morrerá primeiro: o amor ou o ódio?

Você colecionou quais beijos: roubados, gratuitos ou sonhados?

Você habitará em quais universos: paralelos, perpendiculares ou transversais?

Buracos na roupa, no asfalto e na alma: qual você escolheu?

Buracos negros, brancos e de minhoca: qual você explicará?

Recomeçar é, ao mesmo tempo, semente e fruto do refinalizar.

O "Era uma vez..." é uma miragem do "Serão várias vezes...".

TODA MANHÃ É RUMOR >> Whisner Fraga

Uma pedra rompe a pele do rio, que rasteja no leito.
A pedra é uma tartaruga semienterrada no fluxo.
A menina me mostra o vendedor de algodão-doce e ele já aproveita e se aproxima, um pacote estendido.
Os cabos de aço, as braçadeiras, os parafusos, as porcas, a parafernália de mecanismos murchará em quatro ou cinco gerações.
As heras abraçam o que podem de aço.
A botânica se aglomera para a orgia.
A menina está alta em meus ombros e se agita por um vento.
Caminho pela ponte e fotografo uma viga enferrujada: há uma beleza inadiável na extinção.
Uma mulher estende um lenço na grama e acomoda alguns brincos, colares.
Em frente, dois moradores de rua partilham uma bituca enquanto riem da manhã.
A menina acompanha a correnteza, a apreensão escolta um galho que se submete ao atrevimento da água.
Ela aperta minha mão.
Um socó assombra do alto de um salgueiro.
A menina inclina a cabeça e o semblante traduz uma vontade de ir. Ela me entrega o palito e alguns restos de açúcar encaroçam a madei…

O EXECUTOR >> Carla Dias >>

Acha a vida curiosa. Curioso mesmo é que pense nisso justo agora, observando o morto naquele caixão luxuoso. Na verdade, acha a vida irônica. Para que tanto luxo na hora da partida? Ele mesmo, se houvesse como intervir no próprio funeral, certamente optaria por algo menos pomposo. Aquele caixão ali, onde jaz um ser humano despido de espírito, a carne pesando um processo inevitável de putrefação, enfiado em um terno que ele, o espectador, usaria em algum evento muito, mas muito chique. Talvez um daqueles recitais na sala da casa de outro.
Não pense que se trata apenas do aspecto material a levá-lo a essa divagação, em pleno despacho de defunto, porque este, ao contrário do que se prega, é muito mais fácil de se explicar. Na verdade, ele prefere resumir: há quem ache a morte tão feia, a ponto de passar a vida conquistando uma forma de tornar-se belo, enquanto é engolido por ela. Feito agora... tudo tão lindo, tudo tão requintado, até a encenação da tristeza parece ter sido habilmente d…

OUVINDO O SILÊNCIO >> Clara Braga

Não sei dizer exatamente como nem quando aconteceu, só sei que de alguma forma chegamos ao ponto onde, como dizia Renato Russo, as pessoas falam demais por não terem nada a dizer. E então começaram a falar tanto, mas tanto mesmo, que as palavras se tornaram pequenas e agora muitas palavras que eram cheias de significado já não são quase nada. 
Além das palavras terem se tornado só palavras, o silêncio se tornou um problema. Nós esquecemos como é que se faz para apreciar esses pequenos momentos onde não temos nada a dizer, mas não porque estamos chateados com quem está ao nosso lado, que é o que a maioria pensa, mas sim porque às vezes queremos só apreciar o momento. 
Pensei muito nisso depois de ir ao cinema assistir ao filme O Artista. Que filme maravilhoso! Ali sim podemos entender o que significa a palavra expressão. Muitas vezes nos expressaríamos muito melhor e com muito mais sinceridade se parássemos de falar um pouquinho e fizéssemos mais. Dizer que sente saudade de alguém é m…

INVASÃO DE PRIVACIDADE >> Albir José Inácio da Silva

- Fui roubado! Violaram o meu armário! Saquearam a minha intimidade!
Os gritos no banheiro sacudiram a sonolência do escritório depois do almoço. Era tanto o desespero do Moura que não faltou solidariedade nem mesmo dos que não gostavam dele. E eram muitos. Todos acorreram ao banheiro masculino, território geralmente proibido às mulheres.
Lá encontraram um Moura destroçado. Não havia lágrimas, havia desespero. Segurava um cadeado arrebentado como se olhasse a própria alma na mão.
- Isso aqui tá cada dia pior – lamentou-se alguém. - E o que levaram?
- Levaram tudo! Levaram a minha vida! – sacudia a cabeça.
- Mas tinha dinheiro, joias, o quê? – insistiu outro.
- Coisas pessoais: fotos, cartas, recordações! – lamentou-se num quase miado o Moura, que já tinha mesmo uma voz meio mole e gemida, como se os maxilares estivessem soltos.
- E você guarda essas coisas aqui? Não deviam estar em casa?
- Eu guardo onde eu quiser! – gritou o Moura e teve nova crise de choro.
Seu Genésio, o patrão, d…

ABUSOS NOSSOS DE CADA DIA >> Mariana Scherma

"A língua é algo pequeno, mas que baita estrago pode fazer" (da internet)
Quando a gente fala em abuso, logo pensamos no sexual, no infantil… E eles são terríveis, merecem destaque, merecem ser denunciados, merecem ser expostos e, principalmente, punidos. Mas tem também alguns abusos aos quais nos submetemos diariamente por medo de perder algo do qual precisamos de fato. Também são abusos — beeem menores, claro. Bem menos danosos, mais ainda danosos. E o pior é que a gente sofre com eles todo dia e o permitimos colocar em xeque nossa autoestima e nossa capacidade profissional.
Ser jornalista (mas acho que posso incluir aqui qualquer profissional da comunicação) é aceitar todo o tipo de trabalho freelancer (manda frilas!) para complementar a renda. Ser da comunicação é ganhar mal — a não ser que você seja, sei lá, o William Bonner. Ser jornalista é ter um pouco de medo de recusar frilas porque sabe lá quando vem o próximo. E aí você vive enlouquecido em casa, porque é complic…

TUDO PARA EVITAR O FIM >> Cristiana Moura

Não faz muito, conheci Madalena — atriz de teatro, arrojada, dessas pessoas que acreditam no inesperado e que amam a vida quase todos os dias.
Semana passada sentamos em um café e conheci a história mais intrigante de um fim de namoro que eu já havia ouvido. Arlindo e Madalena se conheciam há anos, mas não eram próximos. Reencontraram-se na Lapa, em meio a um evento político e muitos amigos. Em poucos dias já estavam namorando.
Apaixonados, seus olhos brilhavam, imaginavam-se envelhecendo juntos, faziam muitos planos para os futuros possíveis. Passavam o máximo de tempo possível juntos, dormiam de conchinha e orgasmos temperavam a vida quase todos os dias.
Por aproximadamente dois meses, os dias se seguiram assim. No terceiro e último mês desta relação tudo havia mudado: brigavam à toa, discutiam por banalidades, pareciam não falar a mesma língua. Ela contou-me que Arlindo lhe parecia paranóico, via coisas onde não existiam, sentia-se explorado só Deus sabe porque e como, queria cois…

ACREDITE EM SUA CARTOMANTE >> Zoraya Cesar

As cartas dizem: onde há fumaça, lagartixa não tem cauda. Fique atento. O que é bem difícil para Feiticeiros estúpidos. As cartas riem e fazem pouco dos que não seguem seus conselhos. Fique esperto, seu tonto. As cartas alertam para o que é o melhor a fazer no dia de hoje: tirar o mofo das pantufas  alimentar o gato... lembre-se de alimentar o gato, feiticeiro idiota...  amarrar sua gárgula mal-educada e insuportável  cuide da sua vida. Se a gárgula não chamar, não abra a porta. Esconda-se.  Ou vai se arrepender. Ayè.
O Sr. Amadan leu, releu e encheu-se de zelos. Que coisa! Obviamente Mme. Embwsteyr, ainda estava aborrecida, só podia ser. Mas ele já pedira desculpas, dera presentes, descontos... Que mulher mais rancorosa! Tudo porque uma vez, uma única vez!, ele entregara um sabonete de cascalho de tumba de vampiro, em vez do de pedra vulcânica. A pele de Mme. Embwsteyr não ficou avermelhada e fumegante (última moda entre as cartomantes), mas branca feito cal, grudenta como gelatina e, pior…

POEIRA ESTELAR>>Analu Faria

"Somos feitos de poeira estelar" é provavelmente a frase feita mais horrorosa desde a invenção das frases feitas. Não só porque, em termos patéticos poéticos, é uma tragédia, mas também porque é uma tentativa patética (agora sim!) de desviar o foco, para o infinito e para o solitário, da matéria que realmente nos une e nos define como gente: as histórias. Mais do que um aglomerado de grãos de estrela, nós somos as nossas sagas.
Prova de que histórias são nossa matéria fundamental é que as identificações mais profundas entre nós não se dão por nossas condições estáticas, (sou servidora pública, mineira, estudante, branca etc.), nem pelas nossas ideias em comum (sou a favor da liberação da maconha e contra a posse de armas, torço para o Palmeiras, blá blá blá), sequer pelos nossos gostos, mas pelas histórias que vivemos, que ouvimos, que contamos. Eu tenho pouquíssimo em comum com tantos outros servidores públicos! Mas reúnam-se um bando de desconhecidos ao redor de uma fogue…

UMA PORÇÃO DE DELÍRIOS DESATENDIDOS >> Carla Dias >>

Não precisa de livros. Não precisa de música. Não precisa de filmes, fotografias, esculturas, tampouco de trapézio, coreografias. Dizem que o que precisa é de ordem. É ela que coloca tudo em... ordem. O que o faz lembrar de roupa engomada. Nada contra roupa engomada, mas ele se sente entediado diante de pessoas engomadas. Nada contra a ordem, contanto que ela não seja restritiva no departamento que cabe somente a ele gerir: seus desejos, suas responsabilidades, suas buscas, sua individualidade.
É fato, pode conferir... não gosta de melancia. Nem por isso ele a odeia. Para ele, odiar é intenso de um jeito avesso, e leva as pessoas a perderem um tempo valioso, que seria mais útil se dedicado às reflexões.
Porque ele precisa de livros, de música, de filmes, fotografias, esculturas, trapézio e coreografias, e tantos outros ingredientes dessa laia de necessidade interminável, eles que são capazes de despertar os seus sentidos para o que não é óbvio. 
Veja bem, ele sabe que o óbvio tem sua…

PARA MINHAS TIAS DA ESCOLA >> Clara Braga

Não sou o tipo de pessoa que lembra de forma saudosa de todas as fases da vida escolar, mas com certeza gostava daquela época em que éramos pequenos e comemorávamos todas as datas existentes no calendário. 
No dia dos pais e mães a gente preparava uma apresentação. No dia das crianças podia levar brinquedos diferentes para a aula. Todo mês tinha pelo menos um aniversariante celebrando mais um ano de vida. Na chegada do calor levávamos roupa de banho e tomávamos banho de mangueira, e no dia do amigo podíamos levar um amigo para a escola e passávamos o dia participando de gincana com direito a lanches tipo cachorro quente, pipoca e refrigerante.
Quando se é criança você participa dessas atividades sem pensar no lado pedagógico, se você está ou não aprendendo algo, você só participa. Depois que cresce vai entendendo (infelizmente nem todo mundo se enquadra nisso) a importância real da brincadeira. Entende que correr em uma gincana não serve só para você gastar energia, dormir melhor e d…

vento amigo >>> branco

sopre sempre vento amigo
refrescando irmãos de sofrimento
secando lágrimas
curando almas atormentadas

vento amigo nascido nas florestas
que se incorpora em pessoas comuns
- dessas
que encontramos nas ruas -
com quem conversamos
e usufruímos a presença

espíritos de luz - ventos invisíveis -
aguardando em serena sabedoria
a ordem dos deuses da floresta
de sempre ventar

vento brando vento amigo
vente também por estas paragens
pois aqui existem pessoas
que necessitam do seu frescor

heil você
caminhante desavisado
esta brisa não é o inverno chegando
mas sim
o consolo  que sempre pediu




VINTE E NOVE >> Fred Fogaça

Minha blusa tem uma pequena descostura no ombro, faz uma semana que chove aos vinte e nove e eu fiz pouco de importante. Minha mãe veio e limpou a casa; e eu e meu cachorro aqui. Há alguns dias atrás eu assinei o YouTube Premium. Molhei minhas roupas no chuvisco que se esconde pelos postes apagados, mas algum jeito foi dado. Existem algumas sagacidades mudanas demasiado concretas. Sou fraco pro concreto, minha estrutura ainda não fecha oitenta e cinco quilos completo; na verdade, ela progride em regressão. 
Ontem não comi muito. 
Arguição é uma palavra boa e eu falava, falava do que eu sabia e pensava, mas em termos inocentes - me sinto culpado por isso; a profundidade não se manifesta em termos inocentes. Nesses dias, também, trabalhei. Um bolo singelo e uma mocinha tímida, e o que é realmente importante? O presente é um reconhecimento. Ontem roubei duas folhas de uma planta - não das melhores, questão de ética - foi meu próprio agrado. 
Um sorriso singelo e uma sugestão tímida: aqu…

AMENIDADES AÇUCARADAS >> Sergio Geia

Cristovão Tezza disse numa entrevista que um bom leitor é alguém que tenha tempo e condições de ler um livro por mês. Acrescenta que no Brasil seria o paraíso se essa fosse a média. Um livro por mês. Estou tentando me disciplinar. Há meses que leio mais, que me empolgo com um, que emendo outro, e outro. 
E disse outra coisa que me causou inveja, das boas. Disse que escreve pelas manhãs, momento em que sua cabeça ainda parece nova. À tarde, depois da sesta, ele lê. E de noite, vê filmes. Deus! Que sonho de consumo! 
Por falar em escritor contemporâneo, descobri que Ian McEwan vem aí com um novo romance, Machines like me, que deve ser publicado no Brasil ainda neste ano. Tenho aqui vários McEwan, tipo “Sábado”, “Na praia”, “Solar”, “A balada de Adam Henry”, “Amsterdam”. Se não leram nada dele, leiam. McEwan, Philip Roth, J.M. Coetzee, gente da pesada. 
E o que vocês estão achando da nova fase do Crônica? Trouxemos algumas feras de volta: Mariana Scherma, de quem sou leitor, e que deixo…