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O ESSENCIAL >> Sergio Geia



Há certas coisas que são essenciais na vida. Muitos poderão achar que exagero, que a vida segue sua marcha sem a necessidade delas. Discordo. Discordo veementemente, com toda a potência que esse veementemente pode ter. Viver a vida sem elas é coisa de gente atrasada, de gente que ainda não descobriu como evangelicamente separar o joio do trigo, o bom do ruim, o que edifica do que atrasa.

Veja a questão do pão do meinho. Não há como comparar o pão do meinho com o da ponta, que me desculpem os ponteiros. E pessoas antigas, como tio Milton, sabem o que fazer na hora de pedir o seu pão careca. Outro dia, tomado por uma ingenuidade quase infantil, resolvi confiar no humano. Fui comprar o pão careca e até pensei em pedir os do meinho. No entanto, alguma coisa me disse, calma, não precisa pedir; ela vai escolher cinco pães aleatoriamente, talvez um não seja do meinho, quiçá dois, mas os demais serão. Ledo engano. Em casa, ao abrir o pacote, estava lá a surpresa: todos eram ponteiros, talvez cuidadosamente escolhidos. Ela deve ter pensado, vou enfiar os da beirada para esse aí. Aprendi. Da próxima vez, faço como meu tio Milton. 

O mesmo se repete com fatias de presunto. Se você as come grossas, não descobriu ainda o prazer que é desfrutar de um bom presunto. Aliás, ouso dizer que você nunca comeu um presunto. Peça-as finas, extrafinas, vai por mim. Você vai descobrir que foram anos perdidos comendo qualquer coisa parecida com presunto, mas que presunto não foi. Quem me serve bem sabe o meu gosto. Mas preciso pedir; sempre. Um esquecimento, e elas me vêm grossas. 

O chope também é outra questão seríssima. Se você é daqueles que bebe chope sem colarinho, perdão, amigo, mas você está errado. A espuma é fundamental, e aqui não vou tecer comentários de ordem técnica. Sim, porque tecnicamente é recomendável o chope com espuma por uma série de questões, inclusive para se manter a temperatura e o gás. Tomar chope sem espuma é o mesmo que comer só o recheio da pizza, ou do pastel. Os espertos poderão encontrar aqui um ato de esperteza. Enganam-se. Filosoficamente cito tio Marcos, que me disse outro dia no Fritz — aliás, disse-me sério, calcado em bons argumentos, os quais não me senti capacitado para rebater —, que a espuma que não se faz no copo, faz-se na barriga daquele que o pede sem; não desfruta do prazer de beber um bom chope, além de transferir para a barriga toda a espuma, e uma inseparável cólica intestinal. 

Muitos preferem a ignorância pura e simples, ignorando também que conhecer o essencial do viver é tão essencial quanto o bem viver. Talvez sejam causa e efeito, um dependendo do outro. E o pão careca do meinho, presunto fino e chope com espuma desempenham um papel importante na vida daquele que a pretende viver bem. 

Veja a lágrima, outra questão importante dos novos tempos. Assistia a um filme bobinho e num certo momento elas despencaram; até tentei segurá-las, mas incrivelmente não foi possível. Um instante mágico, na visão de Adélia Prado, um momento de acarinhar eternidades guardadas na memória. Se você não se deixa emocionar por coisas bobinhas, um filme, uma música, um livro, você não está vivendo bem, está desperdiçando momentos preciosos de sua existência; ou carece de eternidades, o que é muito pior. 

Há muitas outras coisas edificantes que contribuem para um bom e digno viver. Acrescento, com indisfarçáveis segundas intenções, a prática de se ler uma boa crônica todos os dias, preferencialmente pela manhã. Tenha certeza, é algo que só irá lhe fazer bem. Adquira o hábito. Você irá rir, talvez se emocionar, se solidarizar, talvez se pegue dando altas gargalhadas e sentindo uma coisa suave que você não sabe explicar direito o que é, mas que é muito bom sentir. Acompanhe o Crônica, ou então, se preferir, leia os clássicos, recomendo Rubem Braga, e se uma lágrima cair, lembre-se: são as eternidades sendo acariciadas. 

* eternidades: tudo o que você viveu e que a memória gravou, porque valeu a pena.

Comentários

branco disse…
grande Sérgio voltou ! depois da última e generosa publicação, eis de volta e com estilo. que crônica, meu amigo. as "desimportâncias" DA vida e a sua enorme importância NA vida. para ler, enternecer e guardar naquele cantinho do coração onde ficam as "desimportâncias" que nos formaram, que nos marcaram.
obs.: e tem bittersweet !!!!!!!!!
Albir disse…
Quando entendermos a lógica das eternidades na memória, saberemos o que é essencial.
Muito bom, Sérgio!
Fred Fogaça disse…
Mas que ótima Crônica sobre o nosso querido Crônica! E que boas dicas também! Devo, com certeza, propagar essas sábias palavras.
Zoraya Cesar disse…
Que crônica mais generosa, Sergio! Digna de seu mestre Rubem Braga. Delicadeza em estado fluido. Já está em vídeo? Tem de estar. Fiquei com um sentimento tão fofinho! E mais, essa é a propaganda mais inteligente e amorosa que eu já vi. Uma lindeza.