Pular para o conteúdo principal

UMA PORÇÃO DE DELÍRIOS DESATENDIDOS >> Carla Dias >>


Não precisa de livros. Não precisa de música. Não precisa de filmes, fotografias, esculturas, tampouco de trapézio, coreografias. Dizem que o que precisa é de ordem. É ela que coloca tudo em... ordem. O que o faz lembrar de roupa engomada. Nada contra roupa engomada, mas ele se sente entediado diante de pessoas engomadas. Nada contra a ordem, contanto que ela não seja restritiva no departamento que cabe somente a ele gerir: seus desejos, suas responsabilidades, suas buscas, sua individualidade.

É fato, pode conferir... não gosta de melancia. Nem por isso ele a odeia. Para ele, odiar é intenso de um jeito avesso, e leva as pessoas a perderem um tempo valioso, que seria mais útil se dedicado às reflexões.

Porque ele precisa de livros, de música, de filmes, fotografias, esculturas, trapézio e coreografias, e tantos outros ingredientes dessa laia de necessidade interminável, eles que são capazes de despertar os seus sentidos para o que não é óbvio. 

Veja bem, ele sabe que o óbvio tem sua importância, e que existe para inspirar a curiosidade a respeito do que dá trabalho conhecer, compreender, viver. O óbvio não nasceu para que se more nele. Óbvio é uma ponte frágil. Melhor seguir adiante e colocar os pés em terras férteis, ainda que nem sempre firmes.

Sabe de quem não entende quem fala como se vivesse em um mundo inventado, no qual as artes, a melancia e o óbvio se encontram, e é como se conversassem durante o café da tarde. Aquele que acredita que se esparramar pela curva seja desdenhar da realidade, ela que injeta sofreguidão na história das pessoas. Porém, ele sabe onde dói, quando, que a carne é casa e habitá-la é um desafio. Só acontece de o olhar dele não se arrastar pelas estradas de fascínios definidos, conversas elaboradas para sedarem em tom de discurso. E de seu corpo vibrar pelo improvável. 

Lida bem com crises existenciais e financeiras. Encara de frente abismos e buracos na estrada. Ele é meio isso e meio aquilo, ainda que você o enxergue em um único tom, justo naquele que, no seu vocabulário de percepções, remete ao significado do incômodo, do inadequado.

Expectativas, não? O quanto perdemos ao nos alimentarmos de mais de nós mesmos, como se olhássemos no espelho. 

Ele tem ciência de que às vezes sai do rumo e comete delírios. E ao percebê-los - a identidade dos delírios a latejarem sua incapacidade de atendê-los -, ele desmaia seus desejos e se envereda por dissabores. 

Acredite, ele é ótimo em se refazer de delírios desatendidos...

Assim como de coração partido, conversa rasa, ofensas e desmerecimentos.



Imagem: The Absinthe Drinker  © Viktor Oliva

carladias.com
talhe.blogspot.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Mais uma proeza da delicadeza profunda de Carla Dias. Sempre um enlevo de ler!
Albir disse…
O espelho nos confirma e nos aprisiona. Às vezes, tudo o que buscamos.