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Mostrando postagens de Janeiro, 2020

POSVISÃO >> Paulo Meireles Barguil

Quando a sua atuação na Terra findar, você entrará em um túnel luminoso. Nele, você assistirá ao filme da sua vida. Não haverá edição na película. A exibição não será antecedida por trailer , pois você já sabe do que se trata. Considerando que você é o artista principal, que tal caprichar mais na sua atuação?

UMA TARDE >> Whisner Fraga

mãe está de volta. não sei onde estão meus irmãos: sei que não estão em casa. estou na copa e a mesa é minha. um mosquito afia a cabeça com as patas. a poeira sobrevoa uma crina de sol. um cão uiva longe, espantando a tarde que se descuida do tempo. a vida é longa neste suspiro. um bem-te-vi declama a liberdade. o menino se assusta com as tarefas e só tem memória para o recreio. da porta da cozinha escapa a imagem de folhas carunchosas da laranjeira. escadas. não gosto de recapitular coisas já sabidas, já amainadas. a torneira vomita a cadência de pingos. quero companhia, mas a mãe precisa descansar de nós. abro o caderno e começo a escrever. algum dia conseguirei escapar disso?

LABIRINTO >> Carla Dias >>

No labirinto dele se esparramam especialidades diversas. Não gosta de compartilhar a intimidade deste espaço no qual apreciação e desconforto se misturam. Só que acontece de ele se sentir só ali, onde tudo se perde, do tempo ao fôlego. Naquele lugar onde ruelas dão em lugar nenhum e saídas são itens colecionáveis. Ele não tem o que se faz necessário para integrar o hall dos colecionadores. Não de saídas. No labirinto dele há de um tudo: canções esparramadas pelo caminho, cada uma atrelada a uma história por ele vivida. Não consegue se desfazer dessas tramas assanhadas pelas lembranças servidas pela canção da vez, ainda que, aos poucos, elas empoeirem da verdade e se embrenhem em invencionices.  Às escondidas - às vezes escondendo o feito até de si mesmo -, ele dá um jeito de deleitar um ouvinte distraído com uma história da laia das desconstruídas. Porque, neste labirinto que (o) habita também vivem conexões que ele faz questão de manter na superficialidade, enquanto e

ENTRE CORRIDAS E CADARÇOS >> Clara Braga

Outro dia estava participando de uma corrida de rua e observei que perto de mim estava uma mulher correndo com o cadarço do tênis desamarrado. Algumas pessoas, ao passarem pela moça, avisaram sobre o tênis. Provavelmente imaginaram a moça tropeçando no cadarço, caindo e viram aquela quantidade de gente que vinha correndo atrás e já entenderam que não tinha como essa cena terminar bem, então tentaram ajudar. A moça, por sua vez, nada fazia. Não parou para amarrar o tênis nem agradeceu às pessoas que avisaram, muito pelo contrário, uma moça que passava e decidiu avisar sobre o cadarço ainda ouviu uma bronca da mulher do tênis. Isso mesmo, a mulher ficou irritada e respondeu rispidamente, dizendo que ela sabia que seu cadarço estava desamarrado e que várias pessoas já tinham avisado, ela não precisava mais de avisos. Na hora, eu, que era só uma espectadora, fiquei com muita raiva da moça do tênis. Fiquei pensando que se ninguém falasse nada e ela caísse, a primeira coisa que

FIDELISSIMAMENTE >> Albir José Inácio da Silva

Fidélio empunhava o rastelo para o alto e bradava palavras de ordem ao lado de outros camponeses fiéis ao Suserano. Enxadas, pás, facões e vassouras eram as armas, que coisas mais perigosas não lhes eram permitidas. A cavalaria que cercava o castelo já ameaçou fazer carga duas vezes, mas foi contida por gritos da torre. Havia boatos de que o herdeiro poderia estar a ferros ou até morto dentro do castelo. Mesmo sem comunicados oficiais, todos sabiam da disputa envolvendo nobres e famílias.   Mas o povo, comandado por Fidélio, não pretendia deixar barato. Os soldados, com armaduras de ferro ao sol do meio-dia, ansiavam por espetar umas lanças nas barrigas daqueles baderneiros, mas Fidélio estava disposto a morrer pelo seu senhor. E ele foi às lágrimas quando Clemente, o Duro assomou à janela para agradecer a dedicação dos bravos camponeses. Que agora já podiam descansar em suas casas porque tudo estava resolvido. A solução da corte passava como sempre por redistribuição

A MENINA E A MÃE DA MENINA >>> Sandra Modesto

Vejo minha filha quentinha dentro de mim  Sinto minha filha quietinha dentro de mim  Vejo uma barriga cansada carregando minha filha  Sinto uma hora chegando num dia no meio da tarde  Num calor de janeiro  É hora de uma barriga explodir  Não vejo mais uma bola redonda  Em redondilha maior  O choro da minha filha  Cruzando os olhos em mim  Cravando meus tenores  Temores da minha primeira vez  “Eu acordei mãe”  E foram tantos os caminhos  Descobertas  Culpas  Lutas  Conquisto o mundo com minha filha gritando dentro de mim  Percebi que fui mãe assim  Meus peitos num leite jorrado Leite seco  No preparo das mamadeiras  No meu choro escondido  Sinto minha filha correndo pra mim  Olho o mundo com olhos arregalados  Intuição misturada  Cortaram minha barriga e um cordão  Decoro o aflito berço em suaves prestações  Carrego minha filha em meus braços  Não programei o nascer da

O QUE É O MEDO? >> Cristiana Moura

O menino atravessando a rua. Carros atritando o asfalto Barulho, barulho, barulho. Um ônibus, um carro, um avião passando. Os prédios altos a beira mar privatizando o vento. Grito. Você me ouve? Não. Medo. Tanta gente se confundindo ao cinza e ao cimento. O que é o medo? É ver o menino que não brincou de mocinho e bandido cruzando a Avenida Leste-Oeste com arma de verdade indo encontrar o traficante. Medo é o sabonete que escorrega pelos dedos e eu não consigo pegar. É a garganta que não sabe cantar. É o olhar de um outro que me tira a roupa e me deixa nua no meio da rua. O medo é a voz que cala na escuridão. Medo... medo... O medo é a menina presa do porão. Desenho mandalas gigantes de areia e vento. Pinto para soltar a palavra sufocada na respiração. Tintas e movimento dando uma outra cor ao medo. Um outro jeito cicatrizando o ferimento. O medo é não expressar quem sou e por isso não ser. O medo é o cantor

UM DESVIO NO CAMINHO É OUTRO CAMINHO - 1a parte >> Zoraya Cesar

A guerra entre os Desestabilizadores e os Caminhantes da Luz chegara ao fim. E, com ela, muitas outras coisas também. Os adeptos do Caos se recolheram e se misturaram ao mundo, indetectáveis. Seus adversários se juntaram em clãs para resgatar e ensinar a Tradição às novas gerações, ajudar pessoas e se preparar para o próximo embate – sabiam que o Equilíbrio Cósmico de Tudo o que Há é uma força dinâmica. A Curandeiria é uma Arte, uma Ciência. Seus praticantes usam o que existe na natureza para amenizar sofrimentos, promover a cura. Mas há quem use seus conhecimentos para outros fins... U m desses clãs fundou a Escola de Curandeiria e Artes Mágicas dos Dez Círculos. A melhor. Seu lema: Compaixão e Combate . Seu símbolo: uma caveira e um frasco cheio de ervas. O aluno saía apto a preparar elixires de cura e venenos mortais; a reconhecer e sanar doenças do corpo, do espírito e do campo magnético; a sobreviver em condições extremas. E a lutar quando fosse necessário.  ---

A OUSADIA DA BAILARINA >>> Nádia Coldebella

Moveu-se. Levemente, pensou.  Shiu! Silenciou. Não se deixou notar. Encolheu-se. Ponteira e sapatilha. Elásticos e fitas Tudo no lugar. Um coque bem preso, Esparadrapo nos dedos. Mordaça nos medos. Iguais, perfeitas, cadenciadas. Todas uma. Esbeltas, eretas - cansadas. Shiu! Ritmadas, disciplinadas. Elevê, relevê, pliês,  Sauté, novos e infinitos plíês Sim senhor, obrigada. Concentradíssimas na ponta dos pés Rosa e branco, branco e rosa. piruetas monocromáticas os sonhos também. Levantou-se. Espantou. Suspiros no ar. Sapatilhas vermelhas a girar. Arte: Nádia Coldebella Para minha sobrinha, a quem desejo uma vida disciplinada, mas ousada e cheia de cor!

ACORDA, ACORDA, ACORDA >> Carla Dias >>

Ele sonhou aquele sonho. Não foram muitos a apoiá-lo. Olhavam para ele, aquele mirradinho de pessoa, fisicamente debilitado pela sua natureza, e nele não enxergavam mais do que fragilidade. Temiam por ele. Temiam por ele, mais do que o amavam. Mas ele tinha aquele sonho, desde antes de o definirem incapaz de sonhá-lo. Muitos tentaram, com certa doçura, persuadi-lo a se afastar desse sonho: Sonho é bobagem, meu caro! A realidade é o que importa, e, na realidade, você é um fantástico funcionário de cartório. Sabe lidar com as burocracias, encarar carimbos e assinaturas-garrancho, na hora de reconhecimento de firma. O pai dele trabalhou no cartório. Os três irmãos trabalhavam no mesmo cartório. Ele trabalhava no cartório. Gostava de trabalhar no cartório e até costumava usar palavras e termos como rubrica, escritura de doação – de órgãos e de bens! –, reconhecimento de paternidade, averbação, tabela de custas e por aí vai, durante conversas banais. As pessoas pensa

sentados no meio-fio >>> branco

no horizonte da minha infância o sol levanta-se bem cedo e animado eu olhava a grama verde ainda molhada pelo orvalho e ouvia o barulho da carroça que trazia pães e leite o sino da igreja chamando os fiéis para a missa correr pelas ruas descalço vivendo dentro de um sonho enquanto sonhava outros sonhos - que me fugiriam -  meus amigos - meninos - alegres e sujos sentados no meio-fio de uma rua qualquer a maior criação divina que eu deixei empoeirar olhem para este homem parado enquanto aguarda na calçada sua vez de atravessar a faixa de pedestres agora ele caminha apressado voltando ao trabalho no qual não pode se atrasar tragado pela maré de um oceano chamado evolução e seu maior desafio será continuar empregado até a velhice mas a grama molhada ainda persiste o sol continua a nascer todos os dias e os empoeirados meninos sentados no meio-fio um sonho a realizar o barulho da carroça nunca ser engolido pela maré o

TENHO ESSAS MEMORIAS >> Fred Fogaça

Tenho essas memórias confusas do que pode ter acontecido na última noite. Não há lembrança no falatório dessa casa: mas as noites de sábado - ah, maldição! - as noites de sábado.Vocês todos ocupados: e: eu não vou pra lugar algum - mas talvez mude de ideia no curso desse silêncio. O que me preme são esses poréns qu'eu não deixo ter fim. Eu me mantenho sóbrio, preciso não estar - não quero saber onde: mas há uma sanidade espúria que me persegue.

2020 >> Sergio Geia

Literariamente falando, terminei 2019 em frangalhos, foi pura exaustão. O lançamento de “folha vadia”, meu livro de crônicas, em novembro, me consumiu horrores. Era tanta coisa para pensar e organizar — convite para amigos em visitas deliciosas, via WhatsApp , por Messenger , conversa com gente que não conheço pessoalmente, acertos com o Caio no bar, banners , tudo simplesmente maravilhoso, mas que consome até a alma — que simplesmente perdi a inspiração — e também, a disposição — para escrever. Como não queria escrever abobrinhas, me virei com o possível no final do ano, mas, por sorte, elas me abraçaram: as férias.  É duro ficar longe de vocês por um mês, mas foi preciso. Sabe aquele período em que a gente se entrega a um ócio alienante, o não fazer nada, apenas dormir, especialmente depois do almoço, assistir a um filme, ler um livro, beber vinho, tomar banho de mar, sair com amigos, comer pizza, comprar coisas pra casa? Pois é, precisava disso. E também, por que não, óbvio,

PREVISÃO >> Paulo Meireles Barguil

  "Como será amanhã? Responda quem puder O que irá me acontecer? O meu destino será Como Deus quiser Como será?" (Simone, O amanhã )   Os cinco sentidos, que foram associados por Aristóteles a órgãos do corpo, são os canais básicos que o Homem utiliza para interagir com o ambiente. Há quem defenda que a intuição é o sexto sentido! Outros postulam a ampliação da lista, com a inclusão da propriocepção, do equilíbrio, da nocicepção e da termocepção. Distintos receptores sensoriais acolhem informações da natureza, transformando-as em impulsos que são interpretados pelo sistema nervoso, o qual tem a missão de listar possibilidades para o organismo permanecer vivo e também de escolher a melhor delas!   Os estímulos recebidos são analisados conforme o nosso banco de dados, o qual pouco conhecemos.   A memória é, comumente, associada ao que nos lembramos, sendo esse entendimento um grande equívoco, pois aquela é constituída de tudo o que foi experimentado

CAIMENTO >> Carla Dias >>

Caminha pelo centro da cidade. Tropeça e cai. Riem os desconhecidos da sua falta de equilíbrio. Ninguém se apressa a ajudá-la. Zombam os complacentes da sua falta de elegância ao caminhar. Ela pensa que, quem se esborracha no chão em público, desse jeito, sabe o quanto custa se levantar diante de uma plateia de ocasião, formada por necessitados de gargalhar por motivo que seja. Os em busca somente do próprio alívio. Acostumada ao palco dos dissabores, enfrenta a dor no tornozelo, o cotovelo que se quedou todo apaixonado pelo cimento grosseiro que o machucou até sangrar. A blusa nova, comprada em parcelas tantas, para dia que prometia ser de festa, abarca respingos de vermelho, cor que ela jamais se atreveu a usar nem mesmo no batom. Não é pudor... É apenas gosto. Não se trata do seu primeiro tombo. Poderia escrever um livro sobre os tantos que já levou. Sobre um dos mais sérios, médico disse que ela tinha doença nenhuma que justificasse tal esborrachamento. Tontura? Não,

ENTENDENDO DIALETOS >> Clara Braga

Quem já teve a oportunidade de conviver minimamente com uma criança, sabe que o processo de aprender a falar pode render boas histórias. As crianças, antes de desenvolverem 100% dessa habilidade, parece que criam um dialeto. E engana-se quem acha que o dialeto de todas as crianças é igual e que, se você entende o que seu sobrinho ou priminho fala, vai entender todas as crianças. O dialeto da criança é tão complexo que, com exceção de poucas palavras que todas parecem falar de uma forma igual, só aquela criança fala aquela língua e só uma pessoa entende 100% do que está sendo dito: o ser que eu chamo de “pãe”. “Pãe” seria a mistura do pai e da mãe, pois raramente um dos dois entende tudo o que o filho está dizendo, eles podem entender a frase toda pelo contexto, mas decifrar e compreender palavrinha por palavrinha, é um trabalho de grupo. Às vezes pode parecer complicada essa coisa de não entender o que a criança está querendo dizer, mas confiem, em alguns momentos isso

O QUE É BOM CUSTA CARO >> Albir José Inácio da Silva

Ismarte era pra juntar Ismael do pai com Hildegarde da mãe, mas a dicção estava confusa depois das comemorações etílicas que precederam o comparecimento ao cartório. Esse pequeno contratempo, entretando, não impediu o desenvolvimento de uma habilidade de que sempre ele se orgulhou. Pertence ao seleto grupo de humanos que não carece de uma desgraça própria para aprender, aprende com a dos outros. E foi assim, crítico embora solidário, que acompanhou as desventuras do pobre Rivonildo que, além de amigo, compartilhava com ele a fé inabalável nas coisas do além. Identificou logo que o problema do outro estava na opção quase permanente pela xepa. Quando viu a história do Rivonildo retratada no Crônica do Dia, teve certeza do que já sabia. Reconheceu de imediato a fidelidade da narrativa, já que a ouvira da própria vítima, e isso o levou a acreditar também nas conclusões da autora: “se quer coisa boa, pague o preço justo!”. E estava disposto a pagar, o mundo exotérico não é par

AI DE MIM, IPANEMA >> Sandra Modesto

T rinta de dezembro de 2019. É noite. Acabamos de chegar por aqui.  Coloco a bagagem no quarto. Troco de roupa. Quero ver o mar. Tocar o mar.  Primeiro os pés. Desisto do mar gelado. Nunca vi tanto areia. No dia seguinte...  Diante do mar me assusto. Enfrento o olhar do mar.  Molho o corpo todo.  O céu me olha. A gente sorri.  Chego mais perto. Numa distância dos problemas que por ora gozo por não pensar.  Enfrento o mar. Ou não?  Ouço um chamado:  — Vem! Saio do mar de Ipanema. Decidimos virar o ano em um bar no Leblon.  Meia noite do dia 31 de dezembro de 2019...  Ao longe e mesmo assim vistoso, o cenário está iluminado.  Abraço minha filha, abraço minha nora. Abraço meu marido e meu filho.  Petra e Lacan entendem. Sentem que por alguns dias, vão latir e se divertir com a gente. Essa gente peculiar.  Nós. A vida. O mar. As conversas ao redor da praia. Tudo mineiramente pra investigar um pouco do que é o Rio de Janeiro. Estamo