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PLANNER 2020 OU PASSO A PASSO PARA SER EU >> Cristiana Moura



Ganhei este planner lindo da amiga Flô — planner feminista 2020. Pensei: preciso mesmo planejar a vida (trabalho, viagens, atividades domésticas, momentos família, momentos amigos, exames médicos, academia,  cursos que ministro, cursos que quero fazer...)

1. Resolver pendências acadêmicas A, B, C, D (não exatamente nesta ordem);
2. Fazer atividade física diariamente (ficar feliz caso tenha ido três vezes na semana);
3. Ser intensa sem ser tão intensa;

Neste momento parei. Peço ao leitor que pare também e tente sentir a respiração como se o momento entre expirar e inspirar durasse longos minutos e como se o barulho do silêncio fosse insuportável ao ponto de quebrar um decibelímetro.

... pausa...

Como assim? Ser intensa sem ser tão intensa? Se eu fosse colocar uma etiqueta em mim mesma seria: beba com moderação. Se eu fosse etiquetar a vida com alguma advertência para que eu pudesse ler diariamente seria a seguinte: beba com moderação. E como se faz isso? Como ser feliz dançando (eis que quem dança seus males espanta) e parar antes de estar fadada a amanhecer descadeirada?

Certa feita, olhei para um outro que um dia fora apaixonado por mim, o vi embriagado e pensei ser de álcool entre outras coisas. Hoje penso que talvez ele tenha se embriagado de Cristiana (entre outras coisas). Gente intensa seduz e embriaga (eu acho). Poxa, a vida tem tantos cheiros e gostos e cores! Eu ainda ia dizer e dores, mas achei a rima péssima. Como não se embriagar? Onde está a fronteira? Existe equilíbrio?

Quero arte, quero dinheiro, quero os encontros, quero o mar, quero o sexo intenso, selvagem, obsceno e, após o orgasmo conjugado à certeza de ter sido o melhor de uma vida, dormir dentro de um abraço afetuoso convicta de desejar morar no íntimo daquele enlace.

Viver é respirar o mundo todo.

4. Escolher crônicas de minha autoria e publicar um livro;
5. Não ler os livros até o fim sem nenhum resquício de culpa ou frustração;

O mundo me atravessa com tanta força! Seus sons me atordoam de tão altos! Gosto de mim. Não posso nem desejo ser ninguém além de mim mesma. Meus hormônios oscilam e me levam junto com eles como um balanço bonito do mar, como estar à deriva ao nascer do sol em manhã de brisa leve. Poético? Talvez, mas vivo nauseada. Ser eu me cansa.

Quero ser saciada e temo que a saciedade seja a morte. Identifico-me com Adélia quando escreve: "não quero faca nem queijo, quero a fome". E sofro de intolerância à fome. 

Ei, você! Sim, você mesmo com quem conversei ontem à noite. Alguma dúvida? É com você mesmo que estou falando. Beba-me sem moderação.

Comentários

Anônimo disse…
Que lindeza de crônica!
Eu também, às vezes, me canso de ser assim "tão eu intensa"!
Sandra Modesto disse…
Apaixonada nessa crônica. A vida nos cobra muita intensidade. Na sociedade patriarcal e machista, nós, mulheres somos muito cobradas. E junto com essa cobrança, vem uma intensidade que a gente vai construindo ao longo da vida. Mas não ser intensa faz bem. Em 2020 preciso desconstruir minha intensidade. Parabéns, Cris.
Albir disse…
Que maravilha, Cris! Sim, como ser sem ser? Que equilíbrio é esse que cobram de nós e não está em nós?
Carla Dias disse…
Cris, que essa é pra se ler e reler mandando a moderação às favas! Adorei, viu? Obrigada! Obrigada! E beijo.