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ACORDA, ACORDA, ACORDA >> Carla Dias >>


Ele sonhou aquele sonho.

Não foram muitos a apoiá-lo. Olhavam para ele, aquele mirradinho de pessoa, fisicamente debilitado pela sua natureza, e nele não enxergavam mais do que fragilidade. Temiam por ele. Temiam por ele, mais do que o amavam.

Mas ele tinha aquele sonho, desde antes de o definirem incapaz de sonhá-lo.

Muitos tentaram, com certa doçura, persuadi-lo a se afastar desse sonho:

Sonho é bobagem, meu caro! A realidade é o que importa, e, na realidade, você é um fantástico funcionário de cartório. Sabe lidar com as burocracias, encarar carimbos e assinaturas-garrancho, na hora de reconhecimento de firma.

O pai dele trabalhou no cartório. Os três irmãos trabalhavam no mesmo cartório. Ele trabalhava no cartório. Gostava de trabalhar no cartório e até costumava usar palavras e termos como rubrica, escritura de doação – de órgãos e de bens! –, reconhecimento de paternidade, averbação, tabela de custas e por aí vai, durante conversas banais. As pessoas pensavam que era para parecer mais inteligente do que de fato era, mas a verdade é que ele gostava de ver a cara delas, a impaciência que as alcançava, durante uma conversa em que quase nada lhes atraía.

Divertia-se um pouco isso.

Contudo, sempre soube que não pertencia aos cartórios da vida. A cada vez que tinha de reconhecer firma de uma assinatura, da qual o dono ou a dona lhe despertava algum interesse, arrastava-se, até que a história que imaginara para aquela pessoa fizesse algum sentido.

Olhavam para ele e sentiam certa aversão e um dó sem fim. Achavam que ele seria sempre aquela figura sem atrativos, de cabelos lambidos e mau gosto na hora de escolher roupas. Desprezavam, mas com carinho e respeito – não, isso não era possível – tudo o que ele representava: falta de atrativos físicos e intelectuais.

Ah, que tolo! Sonhando tipo de sonho que a sujeitos feito ele não é permitido.

Sobre permissões, que ultrapassavam a demanda da profissão, nunca se ateve a elas. Na verdade, a maior parte do que diziam sobre ele, o próprio não escutava. Já escutou e com atenção desmedida. Chegou mesmo a se tornar domado pelas ressalvas alheias, a respeito de quem era, mas isso não durou muito, porque ele não veio ao mundo para navegar em mares aos quais nunca almejou sequer conhecer.

Pode parecer que não, mas ele apreciava correr alguns riscos. Como o de sonhar esse sonho com tanta convicção.

Enquanto pensavam em como ser tão esquálido e sem atrativos podia se achar no direito de sonhar alto, assim, tão alto, ele sonhava alto, assim tão alto. Sabia que sonhar não era garantia de realização. Na verdade, a grande lição que aprendeu nessa vida, meio que em um sopapo, foi que sonhar era preâmbulo, e que a trama poderia mudar completamente por conta de pormenores.

Tudo isso para esclarecer o que houve, quando ele fez as malas, duas miúdas que aguentava carregar, e entrou no trem. Horrorizados, os irmãos do cartório promoveram um encontro, lá no centro da cidade, Botequim 1, esquina com a casa das moças disponíveis para roçamento de mãos e pernas, além de uma longa sessão de psicologia barata. Precisavam pensar.

Um dia, voltou da escola antes da hora. Fazia isso com frequência, mas foi a primeira vez que aconteceu, antes da hora, porque os alunos da sala dele foram dispensados, depois que o professor pisou em um prego enferrujado e foi parar no hospital, aos berros. Chegou em casa e os pais conversavam na cozinha. Parou à porta, mochila nas costas, cabelos lambidos e roupas estranhas. Sempre gostou de roupas estranhas. A mãe, desesperada, confidenciava ao marido que sentia medo pelo filho: e se ele não durar? Se ele acabar, antes da hora? O que faremos sem o nosso Coisinho? Porque ele não tem força para lidar com esse mundo, nem com esse sonho perigoso que vive a sonhar.

Coisinho é o apelido dele. Cresceu sendo chamado assim. Cresceu sem saber de quando o ganhara e quem fora o presenteador. Na adolescência, descobriu que o pai o chamara Coisinho, meio no susto, assim que a enfermeira o colocou nos braços dele, e ambos cruzaram os olhares.

Contrariando as expectativas, Coisinho não só vingou, como prevaleceu.

Desde que se é possível lembrar, sonhava esse sonho. Desde que aprendeu a verbalizá-lo, os pais temiam pelo filho, não pelo perigo de realizá-lo, mas porque achavam que ele sonhava para além do possível.

Ele se cansou de apenas sonhar. Acredita que há no acordar um primeiro gesto de realização.

Acorda, acorda, acorda, repetia para si mesmo.

Fez as malas, pegou o trem. Os irmãos foram para a sala de reuniões deles, o tal Botequim 1, esquina com a casa das moças irreverentes... umas até se diziam contorcionistas, o que sempre colocava os irmãos para ferver a imaginação. Os pais se sentaram no sofá de casa, o olhar vidrado na televisão.

Coisinho se foi.

Alencar era seu nome. Alencar trabalhou no cartório e adorava a palavra lavratura. Escreveu um poema com ela, mas jurou que nunca a usaria como nome para possível filho, nem apelido. Alencar foi embora de casa, a fim de realizar seu sonho. Era homem miúdo, frágil, de cabelo lambido, usava roupas esquisitas. Nunca se importou com isso, tampouco por ser chamado de Coisinho pelos pais, quando eles achavam que ele não estava escutando.

Ele sempre escutava.

Alencar realizou seu sonho. Os irmãos abriram o Botequim 2, esquina com o cartório, e servem prazer aos amigos de profissão. Os pais ainda se pegam vidrados na televisão, perguntando-se, silenciosamente, por onde andará o Coisinho deles.

Imagem: Sleepers, II © George Tooker

carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Carla Dias, genialmente, deixou ao leitor a tarefa de imaginar o sonho do Coisinho, tão mais corajoso que os pais e irmãos, tão mais cheio de personalidade e autoestima. Qual o sonho é o que menos importa, claro. O que nos move é a aventura, é o acordar do personagem, tão desacreditado pelos outros, tão ciente de que seu sonho era a única realidade possível.
A delicadeza e a profundidade de seus textos, Carla, é algo que deveria ser estudado.
Albir disse…
Cativante, Carla, o coisinho. Que as pessoas rotulam, mas não veem.
Carla Dias disse…
Zoraya, mas é isso, não? Acontece muito de apontarmos para um caminho e ele ser outro. De vez em quando, se tivermos sorte, somos Coisinho.

Albir, os rótulos são tão limitadores, não? Que possamos nos despir deles, ou ao menos não nos abatermos com o que de ruim eles podem trazer.