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CAIMENTO >> Carla Dias >>


Caminha pelo centro da cidade. Tropeça e cai. Riem os desconhecidos da sua falta de equilíbrio. Ninguém se apressa a ajudá-la. Zombam os complacentes da sua falta de elegância ao caminhar. Ela pensa que, quem se esborracha no chão em público, desse jeito, sabe o quanto custa se levantar diante de uma plateia de ocasião, formada por necessitados de gargalhar por motivo que seja. Os em busca somente do próprio alívio.

Acostumada ao palco dos dissabores, enfrenta a dor no tornozelo, o cotovelo que se quedou todo apaixonado pelo cimento grosseiro que o machucou até sangrar. A blusa nova, comprada em parcelas tantas, para dia que prometia ser de festa, abarca respingos de vermelho, cor que ela jamais se atreveu a usar nem mesmo no batom. Não é pudor... É apenas gosto.

Não se trata do seu primeiro tombo. Poderia escrever um livro sobre os tantos que já levou. Sobre um dos mais sérios, médico disse que ela tinha doença nenhuma que justificasse tal esborrachamento. Tontura? Não, doutor. Visão embaçada? Nem, doutor. Azia, dor de cabeça, algum mal-estar? Nadica de nada, doutor. Foi assim que ela voltou para casa, braço quebrado, queixo esfolado, um tufo de cabelo faltando e uma atualização nos exames de sangue, denominado, pelo impaciente doutor, de desperdício de recursos públicos. 

Não nega ter sentido uma mágoa da besta, ao perceber o doutor minimizar o que nela doía agudamente, no corpo e na alma.

Tem sido assim, ela simplesmente cai.  De acordo com sua mãe: vive a dar com a cara no chão, viu? Nem ligo mais, que a menina virou profissional no tombo. Relato que repete, desde sempre, e que agora tem esse tom de tanto faz, porque é assim que a filha é: cai.

Os primos - uma dupla de pessoas sem noção, ainda nas fraldas do entendimento com a educação e o respeito - criaram uma página numa rede social para publicar fotos dos tombos dela, com histórias que inventaram para justificá-los. Eles ficavam à espreita, celular a postos, e acabaram por clicá-la em tombos memoráveis. Ganharam um prêmio de humor da escola com esse projeto, mas tiveram de jurar para a diretora que os tombos eram encenados, o que a poupou de sofrer zombaria da escola toda, como alguém que tomba, porque sim. Chegou até mesmo a ser parcamente apreciada por seu talento na interpretação da ação. Eles mentiram com tanta convicção, que acabaram por acreditar na própria mentira. E sorriam para ela, diziam coisas como: nossa, lembra daquele? Na escada de entrada da sua casa? Você daria uma ótima dublê.

Eles tentaram arrumar emprego de dublê para ela, que, finalmente, mandou que fossem catar coquinhos. O grito saiu tão gutural, despido da fragilidade de sempre, que eles nunca mais se meteram com ela.

Ela que continuou a cair.

Fez promessa, fisioterapia, mandinga. Consultou uma poderosa senhora que mantinha um íntimo relacionamento com os orixás. E aos santos, aos ortopedistas, aos pilequeiros, ao pasteleiro, à avó, ao poeta de cabeceira, aos filmes de quinta categoria.

Ninguém a resolvia, nem mesmo a própria.

Caía.

Contudo, hoje ela tomou todo cuidado. Há tempos não saía para uma celebração e com desejo de participar dela. Há tempos andava com os tombos íntimos: no banheiro, no quarto, no corredor de entrada do apartamento, na varanda. Arrumou-se toda para o evento, onde reencontraria pessoas de antes, de quando ela era piada contínua. Queria que a vissem agora, adulta e capaz de parar em pé. 

Ainda riam dela. Ninguém a ajudou a se levantar. O cotovelo está bem danificado, mas não tanto quanto a camisa nova, da qual ainda não pagou nem mesmo a primeira parcela. Arrasta-se para o ponto de ônibus, a alma em frangalhos. O que tinha na cabeça? Imaginar que teria sucesso em armadilha que a própria reconhecia armadilha. Escolheu encará-la como oportunidade.

Perdida.

Desce do ônibus, atravessa a rua, saca a chave e a derruba, antes de enfiá-la na fechadura. Murmura um palavrão bobo, numa sonoridade tênue, de ritmo leso. Não acha a chave, onde caiu? Onde caiu?

Cansada, precisa de um café para espantar o aperto no peito. Aos tombos, tem vivido desde sempre, e o desde sempre nunca lhe pareceu tão longo. O desde sempre não irá se importar se, em vez de correr atrás de um chaveiro, ela tomar um café. 

No meio do caminho, quando desliza a mão para dentro do bolso do casaco, sente a chave encontrar seus dedos. A mãe insiste que ela precisa usar roupas do tamanho certo, não das gigantes, onde ela se perde, e, pelo jeito, perde as chaves.

Sorri... Dane-se. Café.

Uma dose se transformou em sete. O bartender da padaria já sabe que ela afoga as mágoas em café sem açúcar ou adoçante, mas nunca a vira como se tivesse saído do ringue de uma rinha. Espantou-se, mas permaneceu calado. É bartender de padaria do respeitoso.

Voltando para casa, tombo. Levanta-se, mas já é tarde, então só escuta umas e outras gargalhadas comedidas. Tombo... Levanta-se... Apenas um quarteirão e... Tombo... E então que se sente tão cansada que não se levanta. Ajeita-se no frio da calçada, as costas amparadas pelos passos que para ela já são fantasmas. Fecha os olhos. Lá permanece. 

Sente essa pequena mão abraçar a sua. Escuta essa minúscula voz perguntar o que ela faz ali. Escuta alguém ordenar um não toque nela, mas já é tarde. Abre os olhos. O garoto sorri, mas não é dela. Encaixa o queixo no ombro dela, sem soltar sua mão, para que seus olhares não se percam um do outro, enquanto a mulher exige que ele se desvencilhe da outra.

Tá tudo bem com você?

E ela sorri, sentindo uma leveza indecente. O menino a ajuda a se levantar, ignorando a mulher que grita para que ele saia de perto da outra, a qual ele não obedece, mas também não ofende. Solta a mão dela e volta para a senhora desesperada pelo gesto dele. Enquanto se afasta, não deixa de olhar para trás. Acena para ela, que acena de volta.

Sete dias e cinco horas. Placar: tombo zero. Um recorde. Os mais íntimos não a reconhecem. Os primos estão curiosos sobre o motivo de ela não levar seus tombos de sempre. A mãe não sabe o que dizer a eles. 

O que houve?

Não gargalham... Não tem a que serem indiferentes.

Sério... O que houve?

Imagem: Raízes © Frida Kahlo

carladias.com

Comentários

branco disse…
uma das coisa mais lindas que já li !
José Olavo disse…
Carla
Numa crônica que parece não levar a nada mais profundo, uma mensagem simples, mas plena de simbolismo. Parabéns.
José Olavo
Anônimo disse…
Que orgulho desta escritora. Emociona sempre.

Enio
Carla Dias disse…
Branco, olhe que seu comentário me deixou toda prosa. :) Obrigada!

José Olavo, muito obrigada por passar por ela, parar e deixar por aqui um pouco do seu tempo numa leitura. Abraço.

Enio... agradecida, sempre, com o maior carinho.
Zoraya Cesar disse…
Que beleza de história, Carla! Quanta sensibilidade - nada a estranhar em se tratando de vc. E que final lindo lindo. Obrigada por essa mensagem de amor e esperança.
Albir disse…
Que maravilha, Carla. Dá quase pra vestir o seu personagem e seguir em frente.
Carla Dias disse…
Zoraya, a agradecida de plantão sou eu. Obrigada. Obrigada. Obrigada

Albir, essa ideia de vestir o personagem muito me apetece. :)