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Mostrando postagens de Dezembro, 2009

OS DESEJOS >> Carla Dias >>

A gargalhada das crianças brincando no quintal, o barulho das folhas se rendendo ao bailar do vento e o barulho das horas despendidas em sonhos que, realizados, vão gerar benefício não apenas aos seus sonhadores, mas também àqueles que dependiam de um sonho alheio para alcançar as próprias conquistas.

Que nasçam mais pessoas destinadas a serem autores de ideias malucas, pois a loucura – essa definição espevitada ao que sai do eixo do entendimento imediato – tem sido fonte de uma liberdade ímpar e soprado vida em realizações dignas de serem experimentadas.

Banho de chuva em tarde de sol, os pés sendo ponte das corredeiras, abraço de quem não se vê há tanto tempo que nem vale contar, girassol na janela, pôr-do-sol de cara para o mar. Agulha e linha para costurar incertezas, mel para adoçar amarguras, frestas aos que temem a escuridão.

Se peço amor, saiba que o peço a todos. Não o falseado amor, do que se debruça em privilégios, curva-se ao medo, não se importa se fere e sequer aprende com …

NÃO DOU E PRONTO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Há quem tenha castelos, ferraris, iates. Eu, que não tenho nada disso, tenho entretanto um bem mais precioso: um vidrinho de pimenta vinda lá de Corinto, da Fazenda do Dr. Paulo Machado. Não me venham com permutas. Não aceito cavalos, nem ações na bolsa, nem mesmo um lugar no paraíso. Quero apenas a companhia humilde e sublime desse vidrinho, pequeno mas tão grande.


Não é uma pimenta, é A pimenta. Ao leitor — que eu sei que não a conhece — manifesto meus sinceros pêsames. O quê? Quer provar? Do meu vidrinho? É fácil: basta passar por cima do meu cadáver. Depois, contratar uma horda de mercenários para vencer a Guarnição dos Cavaleiros Defensores da Essência Sagrada (minha versão dos cavaleiros do Santo Graal) e, claro, enfrentar os jacarés, as pontes elevadas e uns oitocentos e doze cadeados.


Nem sempre ela fica em casa. Às vezes a levo para passear. Comer fora é bom. Gosto muito. Desde que esteja bem acompanhado. Da minha pimentinha, lógico. Perto dela, a comida é um coadjuvante. At…

ENTRE O NATAL E O ANO NOVO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, me sinto um dos personagens das crônicas de Kika Coutinho, principalmente quando ela divide o mundo em tipos, feito em excel e powerpoint ou em ritmos musicais.

Se a Kika estivesse escrevendo essa semana, talvez dividisse as pessoas entre aquelas que preferem o Natal e aquelas que estão mais para o Ano Novo. E eu me sentiria um personagem do primeiro tipo.

As pessoas "do Natal" preferem as reuniões em família, cada um sentado na sua cadeira, conversando miolo de pote, relembrando histórias antigas ou até mesmo contando histórias novas, feito essa que minha avó contou na noite de Natal...

Em visita a uma amiga que começou a manifestar os sintomas de Alzheimer, minha avó foi recebida de maneira muito efusiva. Sua amiga, toda animada, lhe perguntou:

— Ô Izolda, você sabe que agora já existe avião direto para o céu?

Minha avó ficou calada, pensando que se tratava de uma piada ou de uma pegadinha. A amiga continuou:

— Pois hoje mesmo peguei o tal avião e me encontrei co…

APANHADO FINAL >> Leonardo Marona

"2009"

não quero mais saber de ti, 2009.

já te dei o que podia, não o bastante
pra você lembrar de mim, fora o livro
que perdeu pra Colasanti, mas eu juro
que aqui não farei mais nenhuma métrica,
porque, 2009, foi cansativo desde o começo,
com tuas palavras românticas em bolhas,
com tua edição de livro, tua calma fajuta,
para antecipar objeções tardias dependentes
da válvula que começa a apresentar as falhas
de uma sigla preciosa, um instinto submerso,
que me faz dizer “EU TE NOMEIO, 2009”
como o ano em que os poemas não sairão
mais retos e secos contra a página vadia.

será a coisa mais vaga, não charmosa,
que subirá pelas paredes, verde musgo,
e estaremos em Baden, São Petersburgo,
jogando dados contra nossas mulheres.

te verei arder pelo beco insólito da pele,
te darei de mamar, talvez, farei um muro,
e te levantarei como um bebê natimorto.

as mulheres terão mais o que fazer
e seremos nós a boca do precipício.

estarei atento desta vez, quase brega,
não tamparei os ouvidos à boca maior.

mas nunca ma…

SEM LAÇO >> Carla Dias >>

"Tem mais presença em mim
o que me falta."
Manoel de Barros


Presente bom, muitas vezes, é presença. Vale agradecer pelas presenças que não partem de nós, independente dos humores, dos desabafos, das erradas. Presente de estar, sem data para sair de cena, sem tendência a deixar na mão.

Quem é presente sabe quando calar, mas também quando colocar a boca no trombone. Estabelecem-se nessa relação – metaforicamente falando, meus caros - os tais tapas e beijos da canção.

Se o profeta se fizesse presente, certamente perceberia dar aquele nó nos seus pensamentos sempre tão profundos. Na teoria, a sabedoria pode ser extremamente elegante, dotada de todos os preceitos da etiqueta. Porém, na prática ela é da simplicidade das salas cheias de gente batendo papo sobre quem, como e quando, despreocupados com previsões, cometendo gafes em favor da benquerença. E ao mesmo tempo, curando o espírito dolente sobre o qual o profeta tece as teorias de fim do mundo, início da era. Sobre os recomeços do…

A ARTE DE FICAR CALADO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados".
Clarice Lispector

Saber ficar calado. É uma arte. Difícil, exige esforço e experiência. Não digo ficar calado sozinho, pois aí não há muita vantagem. Se sairmos a divagar, em voz alta, as perturbações que nos vão nos pensamentos, não demora estamos divagando num hospício.

Também não falo sobre ficar calado em público. Já fui mais calado em público, hoje nem tanto. Sou até, às vezes, o menos calado. Curioso, isso. Eu achava que era um caso perdido de timidez crônica, de incompatibilidade absoluta com a palavra oral, e hoje me pego, eventualmente, para meu espanto, falante e loquaz.

Queria mesmo abordar a difícil arte de ficar calado a dois. É disso, em essência, que trata a bela frase em epígrafe. Os jovens — falo por mim, pelo que lembro — não sabem, definitivamente, ficar calados a dois. É um desconforto terrível, uma absurda e incômoda sensação de mal-estar, aliada a um desespero tolo em busca de assunto.

Depois, com o tempo, …

ENTÃO É NATAL >> Albir José da Silva

Ninguém precisa me dizer da falta de originalidade deste título. Mas nesta época não quero novidades e essa versão gravada pela Simone é bem exemplo disso. Todos os anos eu a ouço dezenas de vezes e todos os anos espero por ela tão logo dezembro se anuncia.

Quero as repetições de praxe: a música de sempre, os parentes e os amigos de sempre — mesmo que alguns in memoriam — a árvore empoeirada e a comida de sempre, os abraços e as palavras de sempre. Quero as carências de sempre.

Quero as carências que unem, que jogam todos os humanos no mesmo barco. Embora muito se fale em religião e os motivos da festa sejam religiosos, não é a religião que une. A religião divide porque os homens se dividem em religiões. A magia está em que todos se esquecem das fronteiras de sua religião. Os sorrisos e cumprimentos destes dias dispensam saber a quem se dirigem. Uma couraça se rompe e ensaiamos reconhecer uns nos outros a fragilidade humana. O fechamento de um ciclo e a abertura de outro nos obriga a…

O HOMEM DE DOIS MIL E POUCOS ANOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Já imaginaram se Jesus ainda estivesse vivo, vivinho da silva, em carne e osso?

Teria pouco mais de dois mil anos — a idade certa ninguém sabe devido a controvérsias e a mudanças de calendário —, mas que aparência teria?

Se mantivesse a mesma aparência de quando morreu e ressuscitou, seria uma espécie de Highlander, aquele personagem imortal de ficção, próximo dos 40 anos, que atravessa as eras mudando de nome e sobrenome para que ninguém desconfie de que é, na verdade, o mesmo. Talvez fosse o próprio Highlander, ficção que nada, baseado em fatos reais, num homem real, Jesus.

Ou então já seria um velhinho, um velhão, dois mil anos de velhice, uma espécie de Papai Noel em que importam mais a barba e os cabelos brancos do que o rosto enrugado. Seria o homem mais velho do mundo e poderia solicitar inclusão no Livro dos Recordes com uma simples testagem de DNA. Talvez fosse o próprio Papai Noel, a forma que encontrou de continuar por perto, distribuindo presentes e passando seu povo em r…

1 e 70 >> Leonardo Marona

Andando na rua. Faz um calor desértico. Tenho as virilhas em carne viva. As coisas ainda poderiam ser piores – eu já sabia disso. Mas, ao me deparar com um homem muito alto, desajeitado, como que deslocado num mundo fora dos seus ajustes, tão mais perto do sol que eu, com a testa brilhando e a cara de pavor canônico, tenho de repente a nítida sensação de que, sim, o mundo havia sido feito para os meus parâmetros.Pobres seres gigantes, que se cansam tão rápido de sobrevoar o mundo. Ficamos mais por aqui, por entre pêlos e pátios. Os mictórios – aleluia! – ajustam-se às nossas necessidades. E os peitorais não convidam constantemente à tontura ou ao suicídio. São verdadeiros parapeitos, dissuadem o pulo único. Pela altura – talvez a visão fragmentada, dissolvida nas multidões em polvorosa – seja um perfeito soldado, a média do homem mundano sem deus ou justificativas, a forma da besta milenar. Colho flores, chupo mangas como qualquer um. Apenas me joguem um par de tênis, serei médio, far…

DEZEMBRO >> Carla Dias >>

Por mais que eu corra da sensação, é difícil evitar. No final do ano, nos dezembros já com pés na segunda quinzena, não são apenas as faturas do cartão de crédito que aumentam.

A sensação de que em breve será diferente, de que a lista de desejos terá itens diversos ticados; de que a palidez das paixões e o claustro onde reside minha imaginação ganharão cores e janelas abertas... A sensação persiste, nem sei se por mau hábito ou falta do que colocar no lugar.

E a sensação é voraz, bicho faminto e vai me comendo por dentro. E enquanto dói de despreparo para o novo, ainda que seja o ano, aproveita para arar a esperança que guardo comigo, companheira de avessos.

Dezembros me fazem sentir puxada pelos braços, sendo partida em duas essas tantas outras que já sou e há tanto tempo. Porque além do ano que finda e o que chega, eu ganho tempo, um tempo chamado férias, que deveria ser de sombra e água fresca, de diversão desembestada, mas que sempre é do refletir, do interiorizar, do engolir a seco.…

FRANCAMENTE...
(UMA CRÔNICA COM PÉSSIMA MEMÓRIA)
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Como será o amanhã,
Responda quem puder...
O que irá me acontecer?
O meu destino será como Deus quiser...
(João Sérgio)


Tenho talento para muita coisa; principalmente para esquecer aniversário. É minha especialidade. Também não sou ruim em confundir pessoas, e tenho certa aptidão para perder papéis importantíssimos. E assim é a vida... Esquecendo e perdendo, vou, mal ou bem, vivendo.

Certa vez, porém, meu talento se superou. Uma overdose de talento. Vai ser brilhante assim no inferno! O caso é este, simples e tosco: esqueci meu aniversário. Esqueci mesmo, juraria com a mão na bíblia, se houvesse bíblia por aqui.

Atendo ao telefone, bem cedinho, com um alô desconfiado. Do outro lado, uma ex-namorada:

— Dia especial, né?

— É?

— Hum... Engraçadinho. Onde é a farra?

— Aqui em casa, você vem?

Falei assim, sem dar conta do caso. Achei que era uma cantada em hora imprópria, mas devidamente aceita. Depois, com as cantadas se multiplicando, comecei a achar que estava no paraíso astral, até que minha mãe l…

MEIA-BOCA >> Eduardo Loureiro Jr.

"Pelejar pelo exato dá erro contra a gente."
(João Guimarães Rosa)

Tem gente que só quer do bom e do melhor. Para mim, o bom já está bom; só quero do melhor se não der muito trabalho.

Querer ser o melhor — e ter o melhor — normalmente necessita de um esforço que não vale a pena que o próprio esforço criou. A dor é um bom limite. Se está doendo, então já está perto da hora de parar: a partir daquele ponto, um aumento do esforço não vai melhorar muito o resultado.

Sabe aquelas coisas de "vou atravessar a cidade para comer AQUELE bolinho de bacalhau, o melhor do mundo"? Ué, mas se tem um bolinho de bacalhau bom já ali na esquina, por que pegar carro, ônibus, táxi? Sai mais em conta caminhar até o bolinho mais próximo. Em matéria de culinária, não tenho muitas papas na língua. Sou incapaz, por exemplo, de identificar coentro numa comida: e tem gente que detesta coentro, quer lamber o tridente do diabo mas não trisca a língua em coentro. É a turma que quer o melhor, que que…

A FORÇA DE UM TRATOR
(OU COMO VENCER O MEDO DE PAPAI NOEL)
[Maria Rita Lemos]

Chovia muito naquele sábado, quase dezembro, logo depois que a primeira parcela do décimo terceiro salário chegara ao bolso de uma parte dos trabalhadores, levando-os às compras natalinas.

O que aconteceu sei que não foi por acaso (não acredito nisso) e foi verídico, por isso passo a narrar do meu jeito, isto é, como aconteceu, mas, principalmente, como eu senti, em meu íntimo, o quanto isso me tocou, e não foi pouco.

Tudo começou de manhã, quando fui a uma loja do centro da cidade reforçar meu estoque de bolas prateadas para a árvore de Natal. Já na fila para pagar, carregada de tubos de enfeites, um garoto chamou-me a atenção. Tinha três anos (disse-me sua mãe depois) e estava literalmente arrancando das mãos de um homem o brinquedo que ele também estava na fila para pagar.

Era um trator muito grande, com retroescavadeira (acho que esse é o nome correto), uma porção de acessórios de um trator de verdade, bem colorido. O garoto, disse-me a mãe, pensou que o homem que segurava o bri…

FERREIRA GULLAR VAI AO SHOPPING >> Leonardo Marona

vejam bem: consta que o poeta Ferreira Gullar foi visto

saindo da livraria nobre, que fica dentro das entranhas

do shopping classe média alta, carcomido, disseram,

às vésperas dos 80 anos, mas ainda elegante, a postura

típica dos guerreiros homéricos, mas só o que importa

é que ele saiu da livraria, desceu pelas escadas rolantes,

repetitivas, tentou talvez observar de soslaio a calcinha

de alguma bela moça desavisada de que havia um poeta

no recinto, um dos grandes, segundo consta, e no andar

de baixo ele, o que escreveu o famosíssimo poema sujo,

deu uma volta inteira, provavelmente pensando no filho

internado no manicômio (estaria ele bem?) e nas dívidas

a serem pagas com prêmios literários frios e aguardados

e, talvez transtornado, sabe-se apenas que o poeta entrou

um tanto confuso, no salão Oficina do Cabelo, e parece

que uma daquelas senhoras muito ricas, mas instruídas,

falou baixinho na orelha da amiga: “aquele não é o poeta

Carlos Drummond de Andrade?”. mas estas são apenas

informações supérflua…

SEM AO CERTO OU ACERTO >> Carla Dias >>

Alardearam meus sentidos: as ideias crivadas em minha cabeça-de-vento; os ideais incendiando platéia de sonhos. As mãos no bolso procurando por moedas que paguem as dívidas das culpas.

Vivendo eu esbarrei com a Logosofia.

Dizem que Logosofia é uma ciência nova, mas qual idade tem a busca pelo conhecimento sobre Deus, sobre o universo e sobre nós mesmos? Veja que não afronto a Logosofia... Estou de namoro com ela, porque não há como não desejar algo que tem, entre suas definições, “a ciência do afeto”.

Vou inaugurar uma ciência e chamá-la “nova em folha”: a ciência de pouco saber sobre e pouco se importar a respeito e tampouco querer notícias de onde. O nada é tão encantador quanto o rapaz que, silente, no seu canto de sala de estar, esparrama olhares dengosos pelo recinto e, claro, há sempre quem os pegue no ar. E o nada dura um sopro, uma piscadela, a sensação de paz reverberando dentro de nós que, segundos depois da sua passagem, já nem sabemos mais descrevê-la. E esticamos a saudade p…

UM GENTIL FAVOR DIVINO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"A Minas Gerais, (devo) a minha sede, o jeito oblíquo e contraditório, os movimentos de bondade (todos), o hábito de andanças pela noite escura (da alma, naturalmente), a procrastinação interminável, como um negócio de cavalos à porta de uma venda".
(Paulo Mendes Campos)

Coração bobo é assim. Cai de quatro até por um ponto no mapa, com latitudes e longitudes definidas. Bem que podiam inventar um remédio inibidor de paixão. Não sei se tomaria, mas me acalmaria saber que ele existe. Porque eu, meu Deus, me apaixono com a mesma facilidade com que as pessoas tomam ônibus, trocam de roupa. E se fosse só por doces desconhecidas, vá lá! Mas não, também os lugares têm a irritante facilidade de me cativar.

Lembro a primeira vez que vim. Foi, aliás, no meu primeiro dia em Minas. Fiquei num hotel, aqui na Serra, e à noite, com dois amigos forasteiros, conheci esse lugar tão caracteristicamente mineiro: Cozinha de Minas. Minas, nele, está em tudo, não só no nome. Nas paredes, nessa casinha…

O FANTÁSTICO SHOW DOS PATOS
Felipe Holder

Quarta-feira à tarde eu estava aqui mesmo, sentado em frente ao computador, quando escutei um barulho bem alto de patos grasnando. Não dei importância. Vai ver, eram dois ou três patos que estavam desistindo de esperar pelo frio pra ir embora pro sul. Que nada...

Segundos depois, o barulho aumentou de tal forma que eu me levantei pra ver o que era. Corri para a porta da varanda e vi que o céu estava tomado por patos. Pra onde quer que eu olhasse, só via patos. O barulho, na verdade, era um grasnar coletivo alucinado de patos que estavam deixando o Canadá. Fiquei assustado. Assustado pelo que vi e também pelo frio que — a julgar pelo desespero dos patos — vai chegar logo e com toda força.

Os patos ainda estavam um pouco longe, mas percebi que eles iriam passar exatamente sobre o edifício onde moro. Fiquei na dúvida entre apreciar tudo ou arriscar pegar a máquina pra registrar o fenômeno. E me decidi pela segunda opção. Tinha que mostrar aquilo pra todo mundo!

Mas foi tudo rápido demais…

SUPER-HOMEM TRAPALHÃO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Em mim mora a memória de minha mãe e de minha Tia Monca. Elas que, quando eu era pequeno, gostavam de me levar ao cinema.

Lembro de minha mãe me levando para ver Super-homem, o filme. E de assistir a Os Trapalhões no Planalto dos Macacos com Tia Monca.

A fila dobrava a esquina do Cine Diogo, em Fortaleza, que hoje já nem existe mais. Depois de mais de hora de fila, só conseguimos um lugar na primeira fila, forçando o pescoço para ver o Super-homem na tela bem próxima. Já no Cine São Luiz, também em Fortaleza — o mais bonito dos cinemas em que já entrei, e que ainda existe — ficamos também na primeira fila, só que de um balcão no primeiro andar.

Naquela época, os filmes eram apenas diversão, mas hoje, olhando para trás, fica claro que era mais que isso. Os filmes revelam o tipo de relação que fui desenvolvendo com minha mãe e com Tia Monca.

Para minha mãe, sempre tentei ser heróico. Menino que era, incapaz de salvar a humanidade, concentrei-me em tirar boas notas e ser um menino inteli…

NASCEU SOFIA... [Debora Bottcher]

Então, no fim da noite de quinta-feira, quase naquela hora em que a madrugada começa a se preparar, nasceu Sofia.

Esse espaço acompanhou a trajetória dessa mocinha, com textos e mais textos — belíssimos, quase um livro! — dedicados a ela e a tudo o que ela trouxe desde o momento em que sua concepção foi percebida, descoberta, afirmada. Foi O milagre na vida de outra mocinha — um pouco mais velha, claro, dotada de algo que mora na alma das princesas das lendas infantis: aquele vislumbre e inocência, aquela felicidade terna e eterna que habita nas pequenas coisas que só seres iluminados podem captar.

Sofia, 'embrulhada' dentro de Ana, desejada e amada muito antes de ser Sofia, já vem ao mundo mimada, proprietária de amor incondicional, herdeira de sonhos e alegrias indescritíveis, a parte mais luminosa e gentil da humanidade, como sua mãe descreveu.

Ao longo da evolução em seu ninho de maior conforto, Sofia foi o laço de comunhão de Ana com o mundo: Ana foi afagada, acarinhada, …

OS ÚLTIMOS INSTANTES DE DYLAN THOMAS >> Leonardo Marona

Peço um copo. Não há nada no copo. Encho o copo. Não há nada no copo. Para onde foge a poesia quando falha a confiança? Tremer diante das baionetas me levou ao humilhante detalhe: suar frio quando se apressa o cadafalso. Por favor, mais um, mas não há mais o que encher. A máscara taciturna não suportou vasculhar a alcova de Rimbaud. Um poeta não precisa ser um homem. Mas um homem que deixa de ser homem jamais poderá se manter poeta. Um poeta precisa das pernas e Rimbaud é prova disso, que tanta falta sentiu de uma, quando precisava mais do que nunca seguir andando. Resta-nos cessar toda a música, inaugurar sem pena o canto funesto. Mas sobra este cigarro pendurado como um fígado cinzento entre os dentes. Lá fora vejo pessoas carregando coisas. Não, acontece o contrário. São carros, motos, a ponta de uma faca. Mas apenas dentro de mim, enquanto pendem os cachos de minha tristeza premonitória diante da testa quente, varam as ruas caminhões me perfurando a nuca. Muito mal vai a situação …

NOVE MESES >> Kika Coutinho

Cheguei, com louvor, ao nono mês. Sempre achei que nesse final haveria uma despedida silenciosa entre mim e a barriga que cultivei. Enganei-me. A despedida existe, mas não é silenciosa. E não é só minha. Também, não é pra menos, foram 9 meses.

Nesses nove meses descobri o conforto de passar por uma fila gigante ilesa, e sem que ninguém possa reclamar. Descobri a delícia de ter sempre uma cadeira para que eu descanse, uma mão para apoiar-me, um mimo para agradar-me. Ainda que eu me sinta mais forte e capaz do que nunca, é a época em que mais te tratam com carinhos e agrado.A barriga é um imã de gentilezas.

Descobri que a grávida comunga com o mundo, ainda que não queira. Na rua, uma grávida atrai os olhares de todos. Dos velhinhos e das crianças então, nem se fala. Os velhinhos sorriem para mim descaradamente. Quanto maior a sua barriga, mais vai sentir essa estranheza que é o olhar alheio tão firme, tão sem vergonha, tão agradavelmente feliz. As pessoas olham para você e – pasmem – ch…

O SEU OLHAR ME FAZ BEM >> Carla Dias >>

Acredito - leiga que sou no assunto quando se trata da sua arquitetura - que a arte de fotografar exige de seu autor a autenticidade do seu olhar e uma busca sensível pela paisagem que deseja eternizar, porque registrar na imagem as palavras que não foram ditas é das responsabilidades que interagem com as nuanças de quem somos.

Obviamente, nem tudo é sensibilidade na terra das necessidades, e muitas vezes a fotografia obedece à demanda, como todas as outras linguagens artísticas, e nos habituamos a vê-la somente na sua forma promocional: revistas, jornais, panfletos...

Mas às vezes a desnudamos, buscando a crueza que cada fotógrafo oferece a essa arte, a partir de seus conceitos, ideais, interesses. Contar uma história, através da fotografia, sem se perder no caminho, não é para todos.

Sábado passado, fui até o espaço Reserva Cultural, aqui em São Paulo, para prestigiar a exposição fotográfica de uma amiga que é das que sabem contar uma história. Há anos eu a vejo cultivando esse interes…

OLHA AS CRIANÇAS AÍ NA SALA
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Que pão de queijo é coisa de mineiro, todos sabem. O que talvez nem todos saibam é que um dos melhores do mundo fica numa minúscula casinha perto de onde trabalho. Descobri à toa, e agora, em certas tardes, secretamente fujo do mundo e me refugio lá. Peço um café, que vem num modesto copo de vidro, e, cheio de más intenções, peço também um pão de queijo, esse aqui, ó, o mais branquinho. Depois repito o pedido alguma ou algumas vezes. Precisa mais para ser feliz?

Porque pão de queijo bão é esse, de padaria ou casa honrada. Nada com muita frescura. Não se pode confundir frescor com frescura. Aqui o café vem no copo, naqueles copos bem simples mesmo, grossos e gordinhos, de tomar cerveja, sabe?

Há pães de queijo e pães de queijo. Uns com honrosas maiúsculas, outros bem safados. O leitor vá comendo e tire as próprias conclusões. Aconselho o óbvio: que seja novinho, que haja um café bem quente por perto e, se possível, que a conversa seja boa. Não sei se é pedir muito, mas se houver um fog…