sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

APANHADO FINAL >> Leonardo Marona

"2009"

não quero mais saber de ti, 2009.

já te dei o que podia, não o bastante
pra você lembrar de mim, fora o livro
que perdeu pra Colasanti, mas eu juro
que aqui não farei mais nenhuma métrica,
porque, 2009, foi cansativo desde o começo,
com tuas palavras românticas em bolhas,
com tua edição de livro, tua calma fajuta,
para antecipar objeções tardias dependentes
da válvula que começa a apresentar as falhas
de uma sigla preciosa, um instinto submerso,
que me faz dizer “EU TE NOMEIO, 2009”
como o ano em que os poemas não sairão
mais retos e secos contra a página vadia.

será a coisa mais vaga, não charmosa,
que subirá pelas paredes, verde musgo,
e estaremos em Baden, São Petersburgo,
jogando dados contra nossas mulheres.

te verei arder pelo beco insólito da pele,
te darei de mamar, talvez, farei um muro,
e te levantarei como um bebê natimorto.

as mulheres terão mais o que fazer
e seremos nós a boca do precipício.

estarei atento desta vez, quase brega,
não tamparei os ouvidos à boca maior.

mas nunca mais estarei contigo, 2009,
já que teus fogos só reafirmam aspas,
e a solidão hoje é nossa, e de mais ninguém.

xxx

"elegia ao capote de gogol"

existe, é claro, aquela cor cinza,
o frio inigualável de Petersburgo.
funcionários reles, paredes de musgo
somatizam o fedor dos dentes podres.
o salário pequeno, os feitos seguros,
aos quais nos dedicamos sem comer.
nós todos viemos de ti, e roubados
somos diariamente e nem sabemos
quanto temos da nossa própria loucura,
se o inverno será frio dento de casa,
se os ladrões tomarão a cama doentia.
os espelhos serão ventosas coniventes,
estaremos no fim doutra noite de vodca
e assobiaremos canções folclóricas, rindo,
porque, felizes, não sabemos que hienas
rondam e falam e dizem elogios básicos,
para depois nos arrancarem a imagem
do que nem sabemos que somos e nem
quereríamos saber, não fosse este frio
que faz por dentro da casa às escuras
quando gritamos vossa excelência! –
perdoe-nos por sermos nossa história.

xxx

"poema se esvaindo em sangue"

miseravelmente, dessa vez escreverei em vermelho,
miseravelmente, cavalheiros, pois que me faltam
dentes para a poesia, rarefeitas ficaram as rimas
e os olhos, mitos de cetim, justificam as falhas,
que desabrocham no ar do raciocínio amortizado.
estamos nas ruas ao menos, mas a chuva precipita
o fim dos nossos pulmões, a tísica que, seca, avança
o erro de toda a espécie, e vamos soltos, sem fígado,
colher as flores tardias para uma epopéia perigosa.
somos a reprise de uma antiga estação, mas as roupas
são coloridas, as bandanas franciscanas desempenham
soluções escrupulosas para a completa falta de espaço.
as caras quebradas, a boca de gelo, as curvas fáceis
desafiam o tempo e a saúde, estamos lilases na chuva,
com nossas pernas em transe, à espera do ciclone
prometido por Camus, e quem dera pudesse o Kundera
ver a margem tensa do deslize, tomar o caldo mágico
da fome, quando faltarem as palavras, quando a asma
tomar o corpo, então nós assobiaremos a todo volume,
e pálidos seguiremos com essa tristeza em flor de lótus,
e mais uma vez as senhoras apoiarão nas janelas o busto
com seus lenços na direção dos últimos sobreviventes
que vieram de longe e cuja morte trará a terceira guerra.

xxx

"canção para roberto piva"

parece que recolheram, a pau e pedra, os amigos pederastas,
os barbudos que povoam os mictórios atômicos, estilhaçados
ficaram os versos, continuam encostados na parede, a solidão
permanece nua, amarrada ao poste, e Piero della Francesca
não pode mais dar o abraço plurissexual, o apito disentérico
das fábricas se tornou aquário desordenado da imaginação.

te vejo tão sério na página do jornal marrom, entre as grades
de bambu, dizendo: NÃO SUPORTO SÃO PAULO, e rumo
à extinção da luz mesclamos vozes barbitúricas, e os bolsos
escancarados da mente provocam os anjos de enxofre, e das
janelas do crânio observamos o corpo suicida de Modigliani,
já Garcia Lorca penteia pela última vez o crânio martirizado
enquanto a noite varia, as estátuas doentes, com conjuntivite
borram a nesga preciosa por onde escaparemos feridos, nunca
mortos, e nos arrastaremos satisfeitos na paisagem de morfina.

xxx

“com amor, para meu pai”

no fundo, meu pai, te espero
como o cometa sexagenário
que passa enquanto dormimos
e já nem temos mais os sonhos,
sobrou apenas o suor doente
porque no fundo todos nós
esperamos o cometa tardio,
enquanto, cá na terra, os olhos
se desencontram sob a moral
das opiniões sublimes, e o nó
já não pode mais ser desfeito,
teremos que, sem papel, virar
as páginas do nosso silêncio,
abandonar o resto da ternura,
que dava cor às fotos, água
à sede colorida, ao pensarmos
no quanto ainda nos faltava,
com ansiedade nos largávamos
por entre os becos da fome rara
e avançávamos restritos como
óvnis desalentados, sem rumo
entre extraterrestres perenes,
como nós dois, sem asas, e nem
a boca preciosa dos impropérios,
nem a língua que, com delicadeza,
remediava as feridas inevitáveis
que deveríamos ter com carinho,
mas que nos matam indiferentes.




http://www.omarona.blogspot.com/

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Um comentário:

Anônimo disse...

“com amor, para meu pai”.

Tão lindo.. tão triste.. tão triste. Estou sem fôlego, sem fome, sem sede, sem vontades. Minha sorte é que além de toda beleza, perfeição e melancolia dessas palavras eu enxerguei claramente o desespero residente entre tanta agonia. E é esse desespero que vai prevalecer, essa história ainda não acabou. Desculpa Leo.. eu não resisti. Pode me dar um tapa na cara.