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A FORÇA DE UM TRATOR
(OU COMO VENCER O MEDO DE PAPAI NOEL)
[Maria Rita Lemos]

Chovia muito naquele sábado, quase dezembro, logo depois que a primeira parcela do décimo terceiro salário chegara ao bolso de uma parte dos trabalhadores, levando-os às compras natalinas.

O que aconteceu sei que não foi por acaso (não acredito nisso) e foi verídico, por isso passo a narrar do meu jeito, isto é, como aconteceu, mas, principalmente, como eu senti, em meu íntimo, o quanto isso me tocou, e não foi pouco.

Tudo começou de manhã, quando fui a uma loja do centro da cidade reforçar meu estoque de bolas prateadas para a árvore de Natal. Já na fila para pagar, carregada de tubos de enfeites, um garoto chamou-me a atenção. Tinha três anos (disse-me sua mãe depois) e estava literalmente arrancando das mãos de um homem o brinquedo que ele também estava na fila para pagar.

Era um trator muito grande, com retroescavadeira (acho que esse é o nome correto), uma porção de acessórios de um trator de verdade, bem colorido. O garoto, disse-me a mãe, pensou que o homem que segurava o brinquedo era vendedor, e dizia, quase em desespero: “É esse, tio, foi esse que eu pedi para o Papai Noel, deixa eu levar!”

Seus olhinhos bem pretos, redondos, faiscavam em sua morenice brejeira. Não resisti e perguntei: “É isso que você pediu ao Papai Noel? Então deixe que ele vai trazer outro igual para você, esse aí o Papai Noel vai levar para o filho desse senhor, não é?”, interferi, conciliadora.

Pedro, era esse o nome do menino, respondeu imediatamente: “É esse, sim, tia, eu pedi três. Papai Noel vai me trazer três “tratoi” assim” (e mostrou com os bracinhos abertos).

A mãe conseguiu acalmá-lo, eu paguei minhas bolas e voltei para casa para trabalhar em minha árvore. Um dos netos chegaria dali a pouco para almoçar, eu estava atrasada. O dia passou e a chuva intermitente fez com que, de tardezinha, pensássemos em ir ao “shopping” com Leo, meu neto, para um passeio e a porção de batatas fritas que ele adora.

Lá chegando, apesar da multidão que pareceu ter a mesma idéia — de novo era o décimo terceiro chegando aos bolsos e já se esvaindo —, estávamos tentando abrir espaço nos corredores lotados quando eu vejo novamente Pedro e sua mãe. Desta vez, ela estava tentando convencê-lo a entrar na fila para tirar uma foto no colo do Papai Noel, como estavam fazendo uma porção de crianças.

Como meu neto também estava na fila, fui chegando e prestando atenção ao menino moreno dos “tratoi”. A mãe dele me reconheceu, e contou que ele estava terrivelmente dividido: queria muito o brinquedo escolhido, aliás, queria três unidades do mesmo, mas o pavor que tinha de qualquer pessoa fantasiada, inclusive Papai Noel, era de causar pena. Como a mãe queria muito aquela foto — ela me contou que adotara recentemente Pedro, aquele filho muito amado, e era o primeiro Natal que passavam juntos —, ela dissera a ele que teria que pedir o trator ao Papai Noel e tirar a foto, como todas as outras crianças estavam fazendo.

Aí começou minha curiosidade, um pouco por minha profissão, outro tanto pelo vício antigo de escrever. Para convencer Pedro, que estava suando e pálido, olhos vidrados naquele homem absolutamente insólito para ele, sua mãe disse que ela entraria na fila para pedir o que ela própria queria. O menino tentou: “Mãe, pede meu tratoi também?”. “Não, filho, não funciona assim. Aqui, cada pessoa pede o que quer, não pode pedir para mais ninguém, nem para filho. Eu vou pedir o vestido que vi na loja aqui pertinho, se você quiser mesmo o trator, você pede”.

Certa ou errada estivesse a mãe, em seu intento de enganar o garoto para que ele entrasse na fila, não estou nem estava no momento de julgar. Eu apenas observava a luta que acontecia dentro de Pedro, o menino moreno inteligente, dos olhos pretos brilhantes.

Por um lado, o desejo imenso, incomum, o maior desejo de uma criança diante de seu primeiro objeto amado; de outro, a adrenalina causada pelo terror de ter que passar por aquele momento: achegar-se a esse homem esquisito, de roupa quente e vermelha, sentar em seu colo e sorrir para a foto... era tanto pavor que — sua mãe me contou — a mãozinha que agarrava a sua estava úmida de suor, acompanhando a palidez do rosto.

A fila andava, Pedro estava bem pertinho de seu martírio, a mãe saiu e deixou-o com Noel. Minha curiosidade aumentava, à espera do que ele faria. Quem venceria a luta: a força de um desejo ou o medo quase insuportável? Pois bem: Pedro caminhou devagar para o cadafalso — quero dizer, para o colo de Papai Noel. O homem, até muito simpático, cochichou algo em seu ouvido e o menino respondeu dizendo seu nome. Mais algo foi dito, e de novo Pedro disse, desta vez bem alto: “Eu quero o “tratoi”. Aquele grandão, verde, amarelo, azul e “lararanja” (não é erro de digitação, amigos(as), ele falou assim mesmo). E continuou, sua voz infantil cobrindo a balbúrdia em torno: “Mas eu quero só um, viu? Não três. Só um”.

A moça da foto chegou, Pedro sorriu, ou melhor, esticou os cantos da boca para os lados, com o medo ainda nos olhos, para que acabasse o mais depressa possível aquela agonia. No minuto seguinte ele estava fora do colo do Papai Noel, agarrado à mão da mãe. Se alguma expressão havia em seu rosto, era apenas de alívio. Dever cumprido, trator garantido. A mãe o beijou, carinhosa, e eu não pude deixar de conversar com ele: “Pedro, você está aí com essa camiseta, então é corinthiano, não?” Ele acenou afirmativamente, cansado demais da batalha para dizer qualquer coisa... Eu continuei, inspirada: “Pois bem, lindinho, você fez o maior gol que existe”. Ele certamente não entendeu, mas a mãe sim, e eu também aproveitei a presença atenta do meu neto: “Tem horas, Pedrinho, que existem dois times dentro da gente, e ambos são muito bons e fortes: o medo e o desejo. Muitas vezes a gente tem que fazer um ganhar, para o outro sair fora, e isso é muito difícil... você conseguiu, parabéns! Você ganhou de você mesmo, mandou seu medo embora para garantir o brinquedo que quer... Que bom!"

A conversa terminara. Meu pessoal já estava caminhando para outro corredor, e Pedro também já se afastava, agarrado sempre à mão de sua mãe. Aliás, nos olhos de quem, se não me engano, eu vi algumas lágrimas furtivas, enquanto o filho travava sua luta silenciosa. Era apenas uma das batalhas, talvez para ela a primeira, a que as mães apenas podem assistir e torcer, sem nunca fazer pelo filho. Acho que a mãe do menino não sabia, mas ali aconteceu o seu presente de Natal, aliás, o maior presente, para ambos.

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Bela história de Natal, Maria Rita!

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